| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Memória da arqueologia acreana (X) A partir das pesquisas de 1994 a arqueologia acreana entrou num novo momento de sua busca pelo conhecimento da ocupação pré-histórica no Acre. Agora não mais se tratava de descobrir sítios aleatoriamente, mas sim de aprofundar as informações já disponíveis, testando novas hipóteses e avançando no conhecimento acerca dos sítios com estruturas geométricas de terras. Como vimos na semana passada a escavação intensiva do sítio Los Angeles (Xapuri) em 1994, nos forneceu uma grande quantidade de novas informações acerca dos sítios geométricos com estruturas de terras. Incluindo uma série de coletas de carvão para a datação pelo método do Carbono 14. Mas como seria de se esperar, além das novas informações obtidas, esta pesquisa suscitou também uma nova série de questões e hipóteses que só poderiam ser testadas através da realização de novas pesquisas. Tanto assim que já em 1996, graças a contato estabelecido entre o Prof. Alfredo Belido do Departamento de Físico-Química e Geoquímica Ambiental do Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Prof. Ondemar Dias do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) foi acordada a realização de uma nova pesquisa de campo com o objetivo de coletar materiais e informações para a elaboração de Tese de Doutorado pela pesquisadora Rose Latini também do Instituto de Química da UFF.
Neste trabalho de campo deveriam ser coletadas amostras de cerâmica e de sedimentos do Sítio Los Angeles para datação por Termoluminescência, bem como para correlação entre as fontes de argila disponíveis na região e seu emprego na confecção de cerâmica pelos povos pré-históricos. Mas antes mesmo da realização deste trabalho chegou ao Acre uma equipe encarregada de elaborar o Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) das obras de abertura e manutenção das estradas BR-364 (trecho entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá) e BR-317 (trecho entre Brasiléia e Assis Brasil) para o IMAC. Na ocasião eu e a Profª. Mauricélia Sousa fomos procurados pelo geógrafo, especialista em arqueologia, Elói Bora, encarregado de realizar os levantamentos bibliográficos e de campo necessários para a confecção do EIA-RIMA, quando fornecemos a ele todas as informações disponíveis acerca dos trabalhos arqueológicos já realizados nesta região. De posse destas informações, o arqueólogo Elói Bora, em junho de 1996, percorrendo os trechos da estrada já citados acima, localizou um novo sítio arqueológico cerâmico na região de Tarauacá, nas proximidades do Igarapé do Boto. Do mesmo modo, em setembro, localizou dois novos sítios, também cerâmicos, nas margens da BR-317 que denominou Igarapé Altamira e Igarapé Grande. Entretanto, como é característica dos trabalhos realizados para elaboração de EIA-RIMA, este pesquisador se limitou a registrar tais ocorrências sem desenvolver nenhum outro trabalho posterior.
Simultaneamente, em agosto de 1996, a equipe de campo formada pela Profª Mauricélia Sousa, Dr. Alfredo Belido, Rose Latini, eu e o estudante de história Gerry Messias deu inicio a uma série de trabalhos nos sítios Los Angeles (AC-XA-07) e Ouro Branco (AC-XA-10) com os objetivos a que já nos referimos acima. Cabe ressaltar que o sítio Los Angeles é, como já vimos anteriormente nesta série, um dos mais importantes sítios com estrutura geométrica de terra (circular com cerca de 200 metros de diâmetro) do Acre, enquanto o sítio Ouro Branco possui características bem distintas apesar de estar localizado a apenas 1 km daquele. O sítio Ouro Branco (nome da atual fazenda onde se localiza) está situado entre a elevação do Sitio Los Angeles (AC-XA-07) e a primeira elevação a Sudeste no vale arenoso mediano. Nele ocorrem cacos cerâmicos de coloração esbranquiçada misturada à erosão pluvial. Tanto na encosta da elevação do Sítio Los Angeles (AC-XA-07) quanto na elevação oposta abundam a piçarra, sendo que na elevação fronteiriça oposta foram encontradas peças líticas (fragmento de lâmina de machado, batedores, polidores, etc.). Na vertente deste sítio encontramos madeira fossilizada em forma de seixos. A área de ocorrência do material arqueológico mede cerca de 300m de extensão, entre as encostas de colinas. Ali encontramos também fontes de caulim (argila branca). Ou seja, apesar da grande proximidade entre o Los Angeles e o Ouro Branco, suas características espaciais e material arqueológico revelou enormes diferenças, reforçando a complexidade da ocupação pré-histórica da região que não pode ser compreendida apenas pelo estudo dos sítios com estruturas de terras, considerados de forma isolada, mas por sua correlação com outros sítios situados na mesma área. De qualquer forma, esta pesquisa de campo, apesar de breve, foi muito bem sucedida e alcançou todos os resultados previstos. Tanto assim que pouco tempo depois a Tese de Doutorado intitulada “Caracterização, Análise e Datação de Cerâmicas Arqueológicas da Bacia Amazônica através de Técnicas Nucleares” foi apresentada por Rose Latini e aprovada, em 1998, no programa de pós-graduação da UFF. E surpreendentemente este trabalho, além de marcar o início da consolidação de nossos conhecimentos acerca da pré-história regional, também tornou o Dr. Alfredo Belido e a agora Drª. Rose Latini nos mais novos apaixonados pelo Acre (um fenômeno tipicamente acreano) e por sua arqueologia o que resultou num novo projeto de pesquisas que deveria ser realizado em 1999, assunto do próximo artigo, quando nos aproximaremos do final dessa série. |
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