OPINIÃO
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Elson Martins *

 

TV desmistifica candidatos

Nos anos sessenta, o modesto professor de literatura inglesa no Canadá Herbert Marshal MacLuhan tornou-se autoridade mundial em comunicação de massa ao expor idéias revolucionárias no livro “Understanding Média” (1964). Mexeu com os intelectuais do mundo inteiro e provocou polêmicas apaixonadas. Traduzido no Brasil pela editora Cultrix, com o titulo: “Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem”, o livro alimentou discussões acadêmicas durante um bom tempo, depois foi juntar-se a outras obras-primas esquecidas.

MacLuhan mostra em “Understanding” como os meios de comunicação atuais afetaram a vida física e mental do homem, transpondo-o do mundo linear e mecânico (começo-meio-fim) da Primeira Revolução Industrial para o novo mundo instantâneo e tribalizado da era eletrônica. Com a mudança, segundo o autor, a resposta à pergunta sobre quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, seria: “a galinha é idéia do ovo para produção de mais ovos”.

Desde a primeira leitura eu senti que o livro de MacLuhan tem a ver com processos intuitivos de entender as coisas, por isso o mantive num lugar de destaque em minha estante. A leitura é difícil, mas compensa ao desatar nós na cabeça da gente. Quando se lê, por exemplo, que “o meio é a mensagem”, entende-se melhor o significado e o papel da televisão na sociedade. De fato, a TV é um meio de comunicação que envolve o expectador com alto grau de percepção dispensando seu aparente “conteúdo”.

Aqui não cabe estender o tema em tom de ensaio, até porque não me sinto com fôlego para isso, mas este intróito me parece útil para explicar aparições do programa do Tribunal Eleitoral. Os candidatos falam, gesticulam, prometem produção e emprego, mas o espectador pode estar enxergando mais coisas.

É verdade. Envolvido pelo “meio” (TV) considerado “frio”, o expectador lê gestos, esgares e mungangos desmistificando candidatos que não falam a verdade ou despertam atenção para algo suspeito.

O candidato a Presidente Geraldo Alckmim, quanto mais aparece no vídeo mais despenca nas pesquisas eleitorais. Sua fala é inteligente, mas a cara de elite que expõe não engana os 80 por cento de eleitores pobres da população brasileira. A cena em que ele teve de montar um pangaré no nordeste, provavelmente para parecer com Lula, foi hilária: para descer do animal precisou da ajuda de três homens, um que segurava o cabresto, outro o estribo e um terceiro as pernas (do candidato).

Lula se apresenta com uma história de liderança popular que o moldou de forma inquestionável. Tem a cara do povo brasileiro, parece mais honesto (politicamente) que seu concorrente, principalmente quando não se deixa levar pela tentação de fazer parte da elite também.

No plano estadual o candidato Márcio Bittar (PPS) quer tornar-se governador do Acre e se anuncia em primeiro lugar numa enquête feita em Rondônia, supostamente, com empurrãozinho do governador Ivo Cassol. Mas o IBOPE divulgou pesquisa no fim da semana mostrando que é Binho Marques (PT) quem está à frente na disputa.

O candidato da oposição fala e gesticula bem na televisão mas deixa transparecer que esconde os reais motivos que o levam a disputar o governo. Filho e irmão de fazendeiros, se trai pela origem ignorando o esforço dos povos da floresta para preservar suas colocações e avançar com projetos de exploração florestal de uso múltiplo, com base no manejo comunitário dos recursos naturais.

O manejo não é uma invenção do governador Jorge Viana nem do Acre. É um conceito aprovado por populações tradicionais, ambientalistas, cientistas sociais, economistas e políticos de vanguarda que esperam livrar a humanidade de catástrofes ambientais construindo sociedades sustentáveis.

Ou o candidato desconhece o assunto - e neste caso se desqualifica para governar o Acre, - ou acredita que o povo acreano com mais de cem anos de história revolucionária vai se deixar enganar por sua lábia e estratégia eleitoral. Numa de suas aparições na TV ele manifestou que vai pesquisar minério no subsolo acreano! Por acaso desconhece que existe sobre este solo uma das florestas mais ricas do planeta?

Já Binho Marques (PT) foi escolhido para suceder o governador Jorge Viana por seu perfil técnico e de militância política. É a pessoa mais indicada para a nova fase do governo que vai priorizar o atendimento das questões sociais. A Frente Popular do Acre, os prefeitos da capital e do interior, as organizações não-governamentais, os sindicatos e associações, além do Presidente Lula (amigo histórico dos povos da floresta) vão trabalhar juntos com ele. É simples: a eleição do Binho significa a opção pela acreanidade.

A propósito: MacLuhan sugere que numa sociedade que distribua papéis de participação, a criança, o aleijado, a mulher e os negros criam seus próprios espaços...” em lugar de empregos

* Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 29 de agosto de 2006
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