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Rio Branco: a América dos países fronteiriços |
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A proximidade com países como Bolívia e Peru tem contribuído para uma maior participação dos habitantes de países fronteiriços nos diversos segmentos da sociedade acreana. São estrangeiros que vêm em busca de trabalho, auxílio médico, intercâmbio cultural, oportunidades de negócios ou fazer turismo. Mas a maioria dessas pessoas deixa o seu país para arriscar uma nova vida na terra de Galvez. Se concentram na capital e tentam sobreviver do comércio informal. Pelas peculiaridades do mercado de trabalho, facilidades de acesso e abrangência do mercado consumidor, o Acre está se tornando referência para os povos vizinhos. No convívio diário, imigrantes e brasileiros dividem o espaço geográfico e as possibilidades de negócios, promovendo a integração cultural e o intercâmbio comercial entre os três países. Apesar da forte presença de bolivianos e peruanos em atividades do comércio de Rio Branco, a Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Acre não dispõe de dados que permitam avaliar o impacto dessa atuação na economia do Estado. De acordo com Istanrley Rocha, gerente-geral da Acisa, no início deste ano a instituição firmou uma parceria com a Universidade Federal do Acre (Ufac), envolvendo alunos e professores do curso de Economia, objetivando a criação de um banco de dados que vai disponibilizar para a sociedade informações relativas aos indicadores da economia acreana. A comerciante Márcia Leão estudou enfermagem, mas foi no comércio informal que encontrou alternativa para não ficar desempregada. Ela acredita que a presença massiva de bolivianos e peruanos na capital tira oportunidades de trabalho dos brasileiros e gera rivalidade. “Quando eles criam algum atrito, a polícia chega e logo se acalmam porque temem e respeitam nossas leis”, declara. Quem trabalha ou transita diariamente pelo camelódromo de Rio Branco está acostumado com a presença de bolivianos e peruanos. Simone Bastos, que trabalha no local há quatro anos, diz que a relação entre brasileiros e bolivianos não é de companheirismo, mas de competição. São muitos os comerciantes que abastecem suas lojas com mercadorias da Bolívia e quem não paga no prazo enfrenta problemas com a polícia boliviana, quando vai a Cobija, com ameaças de prisão. Atuando no ramo de hotelaria desde 1987, a empresária Geny Abrahão conta que a presença de hóspedes do Peru e da Bolívia em seu estabelecimento vem aumentando. Segundo ela, são turistas movidos pela curiosidade de conhecer a cidade, grupos de estudantes que buscam intercâmbio com instituições de ensino ou vendedores de mercadorias que permanecem na cidade de três a seis dias. Colônia peruana De acordo com Fortunato Quesada Seminario, cônsul-geral do Peru no Acre, aproximadamente 400 peruanos vivem no Estado. Destes, 250 moram na capital. Para ele, a migração se deve à necessidade natural de conseguir melhores condições de trabalho. Muitos buscam a economia acreana com o sonho de se desenvolver economicamente. Um exemplo é o peruano João Félix, que mora no Acre há seis anos e trabalha no camelódromo, vendendo mercadorias diversas. Natural de Lima, veio para Rio Branco em busca de ajuda para tratar a infertilidade da esposa. Com o apoio de parentes que já moravam no Acre, viajou para São Paulo, entretanto, a burocracia e a falta de recursos fizeram com que interrompesse o tratamento. As possibilidades de trabalho influenciaram a decisão de permanecer no Acre, mas pensa em voltar para o seu país quando conseguir estabilidade financeira. Na opinião do imigrante, as diferenças de hábitos e costumes e a concorrência comercial não interferem na relação de companheirismo. “O conceito do Brasil no exterior nos faz ter afinidade com o povo daqui. Viemos com uma imagem de um povo alegre e constatamos que o brasileiro é assim. Apesar disto, sinto saudades. Só sabe o que é isto quem experimenta morar no estrangeiro”, afirma. No Acre, o consulado peruano foi criado em 1986 e funcionou até 1991, quando teve suas atividades interrompidas. O objetivo da instituição é promover a integração política, econômico-comercial e cultural entre Peru e Acre, oferecer serviços turísticos e prestar assistência à colônia peruana residente no Estado. Segundo Quesada, as perspectivas de ampliação das relações comerciais e do fluxo migratório entre Acre e Peru, a partir da construção da estrada para o Pacífico, levaram à reabertura do órgão em janeiro deste ano. Dentre os principais problemas demandados está a regularização da documentação necessária para a permanência de peruanos no Brasil. Para o cônsul, a solução para a ilegalidade está na consciência de saber respeitar as leis brasileiras. “Não dizemos que não se deve vir ao Brasil. Se alguém deseja trabalhar neste País, orientamos que siga o que suas leis determinam”, conclui. Nacionalidade versus saúde O intenso trânsito de peruanos e bolivianos em Rio Branco não se restringe à economia informal. Nos hospitais, a procura por atendimento é freqüente. “Atendemos, diariamente, uma média de 800 pacientes. Muitos são do Peru ou Bolívia, porém, não há mecanismos para quantificar estes atendimentos, nem detalhar as patologias mais comuns”, diz Pedro Paulo Pires de Oliveira, gerente de recursos humanos da Unidade de Atendimento de Emergência de Rio Branco (Pronto Socorro). Segundo o médico, o hospital não faz distinção entre brasileiros e estrangeiros. “Estes pacientes têm o mesmo atendimento oferecido a qualquer cidadão”. Oliveira explica que em virtude do hospital só oferecer atendimento em clínica médica e pediatria, os casos que necessitam de especialista são transferidos para a Fundação Hospitalar do Acre, independentemente da nacionalidade do paciente. Para o médico Tadeu Silva de Moura, diretor-geral da Fundhacre, o maior problema é que para ser atendido o paciente deve possuir o Cartão do Sistema Único de Saúde (SUS), emitido apenas para brasileiros portadores de CPF. “No Pronto Socorro, onde o atendimento é de urgência, isto não constitui uma barreira. Aqui, geralmente, o tratamento é prolongado e isto representa custos”. Enfatiza que apesar das dificuldades, o hospital atende os casos agudos e assume o ônus financeiro destes atendimentos. A alternativa para quem precisa de tratamento especializado é optar pela nacionalidade brasileira. Atualmente, oito pacientes do Peru e Bolívia fazem hemodiálise na Fundhacre. Para ter acesso ao tratamento estas pessoas tiveram que se nacionalizar brasileiras, explica Moura. Além dos pacientes, profissionais de medicina destes países também estão procurando os hospitais acreanos para trabalhar e se especializar. Dos 47 médicos que atendem na Fundhacre, dez são bolivianos e peruanos que atuam em áreas como cirurgia geral, pediatria, pediatria, ginecologia e obstetrícia, infectologia entre outras. América Latina não oferece condições para território sem fronteira Para o cientista político e professor Elder Andrade de Paula, a decisão do governo boliviano e dos movimentos sociais de exercer a soberania sobre os seus recursos naturais representa uma ruptura no processo de exploração que, historicamente, acompanhou aquele e outros países da América Latina. O problema econômico-político da Bolívia não deve interferir diretamente na sociedade acreana, mas nas decisões do governo brasileiro, que tem interesse naquela região. O gás boliviano vem para as grandes empresas cujo capital é, em grande parte, transnacional. O que está em jogo na Bolívia é uma dominação imperialista e o Brasil faz parte desse processo, exercendo o sub-imperialismo sobre o País. “Nós também estamos entregando nossas riquezas aos gringos, por meio dos projetos florestais financiados pelo BID. O endividamento subordina o Estado às regras impostas pelos estrangeiros”, avalia. De Paula considera que nas relações entre brasileiros, peruanos e bolivianos predominam competição e rivalidade. O eventual espírito xenófobo do acreano é preocupante. É preciso acabar com o clima de hostilidade. “Essas pessoas buscam aqui o trabalho que não encontram em seus países porque suas economias foram sucateadas pela onda avassaladora do neoliberalismo”, afirma. Ele acredita que brasileiros vivenciam situação parecida porque o modelo que esgotou as riquezas e levou Peru e Bolívia ao limite da pobreza está implantado também no Brasil. “A saída é unir forças com eles por melhores condições de vida, para que possam ficar em seus países e os acreanos não precisem se instalar em terras bolivianas ou peruanas” aconselha. Na análise do cientista, não existem na América Latina condições para um território sem fronteiras. O que se vê é a luta dos países contra a dominação imperialista e por condições de vida mais decentes. As precárias condições de vida são a principal causa da migração nos países latinos. O mesmo motivo também move brasileiros que vão para os Estados Unidos. Isso mostra que a onda de globalização tornou global o capital, que passou a transitar livremente pelas fronteiras, mas mantém o trabalho imobilizado. A presença freqüente de trabalhadores de outros países no mercado de trabalho acreano pode contribuir para o rebaixamento da remuneração em alguns setores. Quanto maior a oferta de mão-de-obra, menores serão os salários oferecidos e isto pode afetar diretamente a vida dos acreanos, diz o professor. Por outro lado, a migração traz pessoas sem qualificação profissional que passam a atuar como ambulantes ou em trabalhos pesados, a exemplo do que ocorre com muitos brasileiros na América. |
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