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Castanha nossa de cada dia Organização dos produtores e a industrialização valorizam o produto, que ganha mercado gerando renda na floresta |
![]() Operárias trabalham na seleção das amêndoas que serão comercializadas. O trabalho delas é essencial para garantir a qualidade da castanha produzida no Acre |
Quais são os segredos que permitiram aos seringueiros do Acre produzir castanha sem aflatoxína, o veneno que causa câncer, além de beneficiá-la e comercializa-la com sucesso no mercado brasileiro e que agora já ensaiam suas primeiras exportações internacionais? É isso o que vieram observar durante dois dias (26 e 26/09) uma comitiva de 16 técnicos que atuam no Projeto Estruturante de Desenvolvimento que vem sendo executado pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em sete estados da Amazônia. Para isso, eles visitaram a comunidade seringueira da Associação Porangaba localizada dentro da reserva extrativista Chico Mendes e a usina de beneficiamento de castanha administrada pela Cooperativa Central de Comercilização Extratrativista do Estado do Acre (Cooperacre) em Brasiléia. Também participaram desta visita técnica o coordenador de desenvolvimento tecnológico e inovação da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (Setec) do Amapá, Admilson Moreira Torres e o coordenador de produção daquele Estado, Armando Dutra, além de especialistas da Embrapa, Ibama e representantes de reservar extrativistas e florestas nacionais do Amapá, Roraima, Pará, Tocantins e Rondônia. A visita foi acompanhada pela coordenadora nacional do Projeto Estruturante de Desenvolvimento da Amazônia pelo Sebrae Nacional, a economista Lea Lagaris especializada em agro negócios e marketing. O projeto está focado em cinco áreas distintas dentro das quais cada estado desenvolve as que foram de seu interesse ou maior vocação natural. São as rotas turísticas, produtos não madeireiros, pirarucu, flores tropicais da Amazônia, madeira e móveis. Dentro do projeto dos produtos não madeireiros estão o desenvolvimento de sistemas produtos da castanha, óleo de andiroba, unha de gato, óleo de copaíba, coco de babaçu e açaí de um modo econômico e ambientalmente sustentável e socialmente justo. Fazer juntos Lea Lagares lembrou que o papel do Sebrae, mesmo no Projeto Estrtuurante de Desenvolvimento da Amazônia não é fazer para as organizações comunitárias e a iniciativa privada, mas trabalhar com eles oferecendo suporte técnico e treinamento durante um certo período para que daí por diante possam seguir adiante de um modo auto-suficiente. Lagares destacou que: A comercialização da castanha e dos demais produtos com que estamos trabalhando no projeto estruturante já era feita antes de nós entrarmos nisso, então, nosso papel é melhorar o funcionamento dessa cadeia produtiva desde a floresta até a ampliação de mercado. Sobretudo, para o desenvolvimento de novos produtos e sub-produtos da castanha a partir das necessidades dos consumidores, seja na área dos alimentos, cosméticos, ou onde quer que haja oportunidade de gerar negócios que melhorem a renda a fim de oferecer uma condição de vida mais digna a quem vive na floresta”. Começar do começo Desóstenes Marcos do Nascimento coordenador projeto estruturante pelo Sebrae de Rondônia explicou que lá as ações relativas à castanha está sendo trabalhada primeiro com seringueiros de quatro reservas extrativistas localizadas no município de Machadinho do Oeste para gerar renda no período de entre safra da borracha. “Embora tenhamos uma produção e comércio de castanha, o número de produtores e volume comercializado ainda precisam ser devidamente levantados. A imagem que vi aqui é a de um setor produtivo com ótimo potencial gerador de renda, mas que exige investimentos pesados em infra-estrutura física e na organização dos produtores para que alcancemos eficiência desejada”. A próxima reunião do grupo acontecerá no final de outubro em Macapá onde irão conhecer as experiências que vem sendo realizadas para a valorização da castanha e outros produtos florestais não madeireiros. Castanha para o mundo As ações para o desenvolvimento da cadeia produtiva da castanha está dentro do projeto estruturante dos não madeireiros com foco na produção de alimento seguro, considerando também suas propriedades nutracêuticas, ou seja, de que além de alimentar ainda ajuda a proteger o organismo de seus consumidores contra doenças. Já está comprovado cientificamente que, além de ser um dos alimentos mais ricos do mundo, é o único que contêm todos os aminoácidos essenciais que nosso organismo não produz e precisa encontrar em outros produtos como a carne e ovos. Os visitantes foram ciceroneados pela agrônoma Carolina Gaia do Sebrae-Ac e coordenadora do Projeto Estruturante para a Amazônia. Carolina explicou que : “Há mais de três anos o Sebrae do Acre trabalha em parceria com o governo do Estado, Embrapa e a Seaprof no treinamento e qualifica cão dos seringueiros para garantir a qualidade da castanha produzida no Acre. A parceria com a Cooperacre que reúne em torno de si 20 associações e cooperativas que juntas contribuem para a organização e orientação de mais de duas mil famílias que vivem do extrativismo tanto da castanha quanto da borracha e do óleo de copaíba que já estão sendo beneficiados e comercializados com sucesso em todo o Brasil”. Exemplo Porangaba Celso Custódio da Silva, 61 anos, pai de seis filhos é o presidente da Associação dos Seringueiros do Porangaba, entidade que reúne 23 famílias extrativistas explicou que a produção de castanha deste ano foi pelo menos 30% menor que a do ano passado por conta do ataque de gafanhotos e lagartas contra flores e frutos, mas que a produção de ouriços que começam a cair a partir de dezembro próximo promete ser muito boa. “Lá fora a castanha tem um preço horrível de caro, mas até bem pouco tempo nós produtores não ganhávamos quase nada. Com o apoio do governo do Estado, do Sebrae e da Embrapa, nosso produto está melhor e a cooperativa consegue preços melhores para a gente”, esclareceu. Ele Fez questão de destacar que as crianças e jovens da comunidade hoje freqüentam a escola e que a partir desta safra, tanto os que ainda vivem no seringal quanto os que estão dando continuidade a seus estudos começam a receber treinamento técnico para orientar e futuramente assumir o controle sobre a produção tanto na floresta quanto na usina em Brasiléia. O envolvimento da comunidade nos cursos e treinamentos, que depois se traduzem em ações práticas fazem da associação do Porangaba, em Brasiléia e da associação Sorriso, às margens do riozinho do Rola, em Rio Branco as primeiras candidatas a receber a certificação de qualidade orgânica da sua produção, e, isso abrirá novos mercados para sua castanha. Depois de levaros técnicos para conhecer uma estrada de seringa com suas castanheiras, Francisco Soares de melo , 43 anos, pai de quatro filhos, morador da colocação São Francisco, é o secretário da Associação dos seringueiros do Porangaba que ainda mantêm em seu barracão 1.937 latas de castanha orgânica pertencentes a 16 associados. “A nova safra está chegando, mas nossa castanha está aqui guardada em segurança para ser industrializada pela usina da Cooperacre que já pagou o preço convencional e depois vai nos repassar a diferença a mais quando ela for comercializada como produto orgânico”. No galpão telado e protegido, nem é permitido entrar de sapatos para não comprometer a qualidade do produto. Francisco explicou que os cuidados começam com a coleta dos ouriços assim que caem da árvore, quando são abertos para a retirada das castanha que é cuidadosamente limpa, passa pela secagem e estocagem onde os sacos são marcados e organizados de forma a permitir saber a quem pertence cada lote. “Esta castanha foi coletada antes de manter contato com a água da chuva. Quando limpamos e secamos conseguimos evitar a formação do fungo que produz a aflatoxína que causa o câncer. Com os treinamentos aprendemos que a castanha é um alimento muito importante, que a gente sempre usou, mas agora usamos ainda mais no pão de milho, no preparo de carnes, bolos, doces e até com a macaxeira”. Declara Francisco que complementa: “As boas práticas melhoraram a qualidade da nossa produção e a nossa renda, isso nos deu um grande incentivo para produzir mais, por isso, a partir deste ano estamos iniciando a preparação de mudas que vão enriquecer a nossa floresta”. Rede associada de armazéns para estocagem Atuando no Acre há dez anos, a Cooperacre foi conquistando a confiança dos produtores e do mercado, mas além do apoio técnico e logístico que tem recebido por parte do governo do Estado que construiu uma rede de armazéns para a estocagem da castanha nos seringais e a construção das usinas de beneficiamento em Brasiléia e Xapuri, os empréstimos de dinheiro concedidos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) tem sido fundamentais para a compra da produção. Com R$ 1,25 milhão emprestado da Conab a Cooperacre comprou mais de 90 mil latas de castanha na safra do ano passado e descascou 40 mil na usina de Brasiléia que passou a operar em agosto de 2006. Para este ano o empréstimo foi de R$ 1,5 milhão permitindo a compra de 120 mil latas, das quais pelo menos 80 mil estão sendo beneficiadas na usina enquanto o restante ainda é comercializado in natura. Gardênia de Oliveira Sales a assessora em manejo e certificação da Cooperacre fez um breve histórico da cooperativa e da própria usina, esclarecendo que neste primeiro momento a organização está cuidando de consolidar sua posição no mercado consumidor, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná onde já tem representantes comerciais. Só depois disso é que estarão organizando a fabricação de novos produtos e sub-produtos da castanha. “Depois de conquistarmos a confiança dos produtores, assumimos o beneficiamento e estamos nos consolidando neste mercado que até agora tem sido dominado por grandes empresas. Graças à rede de apoio que temos por parte do Sebrae e do governo do Estado os resultados vem sendo muito positivos, especialmente no que se refere ao preço pago ao produtor e à qualidade do produto que estamos oferecendo ao mercado. Mas as expectativas são cada vez melhores”, esclareceu Gardênia. Ela informou que a partir de 2008, além de dar continuidade aos treinamentos de boas práticas e à busca pela certificação de qualidade orgânica à produção, também estará sendo focada com mais intensidade a conscientização e a prática da organização comunitária. “Nosso objetivoagora, nesta terceira fase, é o de que os produtores estejam suficientemente organizados para que dentro de pouco tempo a cooperativa passe a ser uma prestadora de serviços no beneficiamento e comercialização da castanha”. Irmandade amazônica O coordenador de desenvolvimento tecnológico e inovação da Secretaria da Ciência e Tecnologia do Amapá, Admilson Moreira Torres destacou sua admiração com relação aos investimentos feitos pelo governo do Acre na construção de uma rede de armazéns e usinas para beneficiar e assim valorizar a castanha. “O governador Waldez Góes tomou a decisão política de alavancar a cadeia produtiva florestal, na qual a castanha se destaca como um dos principais produtos do Amapá e que tem ótima aceitação no mercado mundial. A partir desta semelhança acredito que Acre e Amapá podem e devem promover um intercâmbio de experiências que produzirá bons resultados para os dois lados”. Também do Amapá veio na comitiva o analista ambiental do Ibama, Francisco Edemburgo,um dos responsáveis pela reserva extrativista do rio Cajari, que tem área de 501 mil hectares onde 1.200 famílias tem no extrativismo da castanha, buriti e açaí o seu principal meio de vida. “Fiquei admirado com o nível de organização comunitária dos seringueiros que aliado ao apoio do Sebrae, investimentos do governo e a seriedade com que a Cooperacre tem tratado seus negócios são fatores que estão garantindo o sucesso deste setor que já começa a caminhar com as próprias pernas”, garantiu. |
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