OPINIÃO
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Raimundo Ferreira de Souza *

 

Preocupação com o conteúdo do penico

O adensamento da população, que vai transformando as localidades em povoados e posteriormente evoluindo à categoria de cidades, jamais poderá se livrar dos problemas advindos do sistema de habitação urbana, especialmente, se o poder o público não prevê e providenciar estruturas básicas mínimas para minimizar o impacto que a ocupação desordenada pode acarretar ao meio ambiente.

No interior do Amazônia, em especial nos seringais nativos, devido a abundância e exuberância da floresta os moradores não conseguem poluir o ambiente. Seus dejetos e lixo doméstico são absorvidos naturalmente pela natureza e os habitats continuam em equilíbrio.

Nas cidades as grandes concentrações populacionais, morando em edifícios ou casas, umas coladas às outras, principalmente nos conjuntos habitacionais, se não houver, por parte do poder público, planejamento e a implantação de uma estrutura capaz de reciclar o lixo e processar os expurgos humanos, não levará muito tempo para a população perceber os efeitos da poluição de toda ordem e o meio ambiente começar a sofrer as conseqüências do desequilíbrio na natureza.

Não havendo estruturas eficientes para tratamento de esgoto e lixo doméstico, os ecossistemas, assim como, as populações humanas urbanas não conseguirão conviver nem sobreviver sem devastar o meio ambiente e consequentemente, causar desconforto e muitos problemas à saúde.

A quantidade de dejetos e águas sujas decorrentes das cozinhas e outras limpezas domesticas, continuamente produzidos por cada morador urbano, se depositado no solo, utilizando o sistema de fossa, causará poluição, infestando, entre outras coisas, o lençol freático, de onde a maioria dos moradores retiram a água para o consumo domestico; se canalizados para a rede de esgoto sem o devido tratamento, seu destino será as correntes naturais de água (rios e igarapés).

Procedimentos dessa natureza foram os responsáveis pela transformação do Rio Tietê (São Paulo) em fossa líquida, do Rio Guamá (Belém) em um grande esgoto a céu aberto, que despeja no Rio Amazonas e também pela transformação do Igarapé São Francisco e demais igarapés de cortam a zona urbana da cidade de Rio Branco-Ac., em verdadeiros esgotos, todos carreando a poluição para o Rio Acre.

O lixo urbano é outro subproduto da modernidade, produzido nas cidades e que requer também tratamento especial para não poluir o meio ambiente, causar desequilíbrio ecológico e trazer problemas sanitários para a população.

No caso dos poluentes líquidos, uma das saídas tem sido as lagoas de estabilização (locais onde as sujeiras líquidas são depositadas, processadas e em seguida liberadas para o meio ambiente em condições aceitáveis). Todavia, esse sistema requer técnica apurada e sistema adequado a cada situação. Na cidade de Rio Branco, há alguns anos, objetivando tratar os esgotos do conj. Habitacional Universitário I, foi construído um local para esse fim, todavia, os equipamentos necessários nunca foram instalados e o resultado foi a criação de uma lagoa na entrada do conjunto, para onde foi canalizado os esgotos domésticos, a água apodreceu e o mau cheiro invadiu todo o bairro, sendo a lagoa alcunhada de “penicão”.

Decorrido vários anos, o problema do “penicão” vinha causando sérios transtorno para a população do conj. Universitário I, pois, os moradores relatam, que em dias de intenso calor até os urubus passavam pelo local voando com uma asa e tapando o nariz com a outra.

Agora no início de novembro do corrente, em decorrência dos trabalhos de alargamento e revitalização de parte da Av. Ceará, continuando na Br 364, rumo a Sena Madureira, até a frente do Conjunto universitário, o monumento mau cheiroso (penicão) foi arrombado e seu conteúdo fétido carreado para Igarapé São Francisco, que já se encontra em estado crítico e que vai despejar, ou melhor, já despejou toda sujeira no Rio Acre.

Os órgãos responsáveis pela preservação do meio ambiente no Estado, em níveis estadual e municipal, prometeram avaliar os danos causados ao meio ambiente, identificar os culpados e punir com rigor. Ao nosso vê, se houver disposição e cumprimento da lei punindo todos aqueles que proporcionaram a poluição nas correntes de água (rios e igarapés), bem como, a devastação e poluição atmosférica nos arredores e perímetro urbano da cidade de Rio Branco, não só os “saltimbancos” arrombarores oficiosos do punicão, mas muita gente deve ser responsabilizada.

Na verdade, a ação de despejar o conteúdo dos penicões, piniquinhos, descargas e lavagens domésticas, na rede de esgoto sem o devido tratamento, a cada dia estamos contribuindo para abreviar a morte da nossa maior corrente de água doce, da qual dependemos para o abastecimento da cidade.

* Documentalista da Ufac

 

 
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Rio Branco-AC, 29 de novembro de 2005
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