ESPECIAL
   ENTREVISTA

O sonho de ser escritora, agora realidade


CedidaAndréa Zílio

Ela nasceu em Belo Horizonte, capital mineira, mas foi na pequena Três Pontas, que cresceu. A mesma cidade que a família de Milton Nascimento escolheu para criar o grande cantor carioca. Uma afinidade que fez ambos se encontrarem.

Desde pequena, Maria Dolores diz que sempre gostou de histórias e queria ser escritora, por isso o jornalismo foi uma maneira de tornar o sonho realidade. Ela concluiu a faculdade em 2003, e Milton Nascimento se transformou em tema de sua monografia e depois em seu primeiro livro “Travessia - A Vida de Milton Nascimento”, que será lançado amanhã, a partir das 19h30, no Colégio Acreano.

Em sua obra, o Acre está presente em várias páginas dedicadas à grande aventura vivida pelo cantor, quando veio para a Amazônia e produziu o CD Txai. Em sua primeira viagem ao Norte, Dolores diz estar ansiosa e muito feliz e que ficará um dia a mais, só para conhecer melhor Rio Branco. Confira na entrevista a seguir!

Quando você iniciou no jornalismo?

Eu entrei para o curso de Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) na UFMG, em Belo Horizonte, em 1999. Concluí o curso em 2003. Durante a faculdade já comecei a fazer estágios, mas sempre em Três Pontas, durante as férias e as greves. Estágio no jornal local, no jornal da cooperativa, na rádio local. No fim da faculdade, fiz o Curso Abril de Jornalismo em Revistas e, desde então, me tornei colaboradora da Editora Abril, fazendo matérias para as revistas Saúde, Superinteressante, Cláudia, Quatro Rodas, Contigo, Exame, Viagem e Turismo, Aventuras na História, entre outras.

Hoje você continua atuando apenas na Abril?

Eu continuo trabalhando na Abril, no site do Guia do Estudante, e na Unidade de Projetos Especiais. Mas faço freelas para outras publicações, como Saúde, Viagem e Turismo e Aventuras na História. Trabalho com pesquisa e redação para livros da Editora Bei, em São Paulo. Enfim, são vários tipos de trabalhos dentro do jornalismo impresso, mas o que eu gosto mesmo é de escrever reportagens e crônicas. Por isso fui fazer um curso em Cartagena das Índias, Colômbia, na Fundación Nuevo Periodismo, em 2005, do escritor Gabriel García Márquez. Queria aprender mais sobre grandes e boas reportagens. Foi a única vez que eu vi algo da Região Norte, pois sobrevoei a Amazônia e me encantei com o que vi, mesmo de tão longe.

Se não fosse jornalista, trabalharia em quê?

Na verdade, queria ser escritora e por isso escolhi o jornalismo, que eu adoro. Mas acho que também seria feliz em outra profissão, algo que trabalhasse com cultura, como produção cultural. Só não queria ter um trabalho desses que a gente fica sempre no escritório. Até cheguei a fazer um ano de Direito, mas desisti logo.

Existe em suas recordações a reportagem mais marcante?

Gosto mesmo de fazer reportagens, perfis, ir para a rua. Esse, para mim, é o trabalho mais divertido. E gosto muito de descobrir histórias, fico tão empolgada que não consigo imaginar a possibilidade de não escrevê-las e passar adiante. Gostei muito de fazer uma reportagem para a revista Quatro Rodas, na qual eu conto a história de uma curva na rodovia Fernão Dias, em Minas Gerais, e de como essa simples curva, na qual ocorrem freqüentes acidentes com caminhões de carga, interfere e influencia a vida dos moradores às suas margens. Eu adoro essa reportagem.

Como vê o jornalismo brasileiro hoje?

Não sou pessimista. Acho que tem coisas boas. Mas falta espaço para reportagens mais literárias, que contem a história, que tenham o foco nos personagens e não nos números e fatos pontuais.

Jornalismo é vocação? Aprende-se na faculdade? Ou precisa dos dois?

Para mim jornalismo definitivamente não se aprende na faculdade. Você não precisa de um diploma para escrever uma boa reportagem. Vejo a faculdade como fundamental para você aprender as técnicas básicas, principalmente para dar uma formação intelectual ao aluno. Aprender a escrever matéria, apresentar programas tem muito mais a ver com prática e talento. Agora, se você tem uma formação intelectual sólida, fica muito mais fácil.

Acho que o diploma até pode ser obrigatório, mas pensando na formação intelectual, pensando que um jornalista deve ter lido bastante sobre temas variados, deve ter uma noção das questões do seu país, Estado, do mundo. Pensando nesse enfoque, o diploma deve ser obrigatório. Mas dizer que alguém precisa de diploma ou ter feito faculdade para escrever uma boa matéria é ir contra a realidade.

Qual a relação com Milton Nascimento? E por que a biografia dele?

Tal qual o Milton, eu cresci em Três Pontas, uma pequena cidade no sul de Minas Gerais, rodeada por montanhas, pés de café e tradição. Quando chegou o momento de fazer meu Trabalho de Conclusão de Curso, na faculdade, escolhi fazer um livro reportagem sobre algum tema de Três Pontas. Decidi por Milton. Foi então que eu tive um dia de sorte. Estava em Três Pontas, na final da Copa do Mundo de 2002, e o Milton também. Encontrei-o por acaso, num almoço. Eu o conhecia desde pequena, mas não tinha contato com ele. Aproveitei uma hora que vagou a cadeira do lado dele, sentei e pedi uma entrevista. Ele concordou na hora, quebrando todo o meu pré-conceito de que seria algo impossível. Só que só consegui agendar a entrevista para dali a seis meses, por causa dos compromissos dele. Nesse período eu comecei a pesquisar a sua história e descobri o quanto era rica, como se fosse um romance, pronto, só esperando que alguém o passasse para o papel.

Resolvi, então, escrever a biografia do Milton Nascimento com a empolgação e autoconfiança de estudante universitário, que acha que pode tudo. Pensei que teria tudo pronto em seis meses. Demorei quatro anos e meio. Mas valeu a pena, foi muito bom fazer a pesquisa, entrevistar as pessoas e conhecer esse Milton, que é uma pessoa incrível. Ele concordou em me dar todas as entrevistas de que precisei, sem nunca pedir nada em troca, sem fazer qualquer objeção.

Sua atuação no Sempre Um Papo...

Eu era freqüentadora do Sempre Um Papo em Belo Horizonte, na época da faculdade. Lembro-me de dois que adorei, um com Tom Zé e outro com Ruy Castro. Então fiquei muito lisonjeada de poder lançar o livro nesse projeto, que é maravilhoso. Colocar o autor para falar com os leitores, com o público. É uma maneira de deixar a literatura viva, em movimento, para além das estantes das casas e livrarias. É o meu primeiro livro, mas já retomei a escrever um romance que havia parado.

É a primeira viagem ao Norte. O que você conhece do Acre?

É a primeira vez e estou super ansiosa. Sempre tive vontade de conhecer esta região. Vai ser uma honra muito grande e a realização de um sonho, mesmo que por pouco tempo e poucos lugares. Ficarei um dia a mais depois do evento só para ter um pouco mais de tempo.

Do Acre sei até bastante para quem está tão longe. Mas, além das características geográficas principais, culturais, da floresta, das notícias, sei - e dedico boas páginas do meu livro a essa passagem - de uma viagem que o Milton fez pela Amazônia Acreana em 1988, de barco, e depois de canoa, carregando equipamento de som, caixas e caixas, até a tribo dos Kampa. Essa viagem, que é muito legal, deu origem ao disco Txai, em 1990, que ganhou vários prêmios internacionais.

 
 
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Rio Branco-AC, 29 de novembro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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