OPINIÃO
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Carlos Melo

 

Onde está o centro?

Uma forma avaliar a sagacidade e a experiência do político era interpretar sua moderação e a qualidade dos seus silêncios. As pausas, as ponderações, as inflexões, as entrelinhas, o recado subjacente. Tudo contava para estabelecer sinais e mensagens sutis, criar sínteses, estabelecer a ordem. A política se fazia dessas sutilezas e não das pancadas ou dos sabonetões atuais. Assinalava-se o trânsito e a ambigüidade, no interior espaço político, com objetivo de evitar polaridades. Nos memoráveis discursos de antanho, a sabedoria e a solução não estavam nas pontas e nem em cima do muro, mas ao centro.

“Raposas” assim agiam e modulavam a dinâmica política; recebiam este status pela capacidade de articular, dizer e pontuar sem “fechar portas”. Orgulhavam-se do título, mas não se jactavam. Uma raposa nunca se jacta. Nomes como Juscelino Kubitschek, Afrânio do Amaral Peixoto, Thales Ramalho, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães pertenceram às fileiras do velho PSD, o centro político a que, alternadamente, os pólos convergiam; durante algum tempo, capaz de moderar extremismos de direita e esquerda e estabelecer acordos e programas. Por paradoxal que pareça, hoje, esse centro se diluiu.

Imaginava-se que o papel pudesse ficar com o PMDB. A legenda ocuparia o espaço e, por pragmática, não se aprisionaria a nenhuma corrente ideológica. Em tese, seus membros seriam raposas sagazes: senadores ex-ministros e ex-governadores, parlamentares experientes e capazes de circular por ampla faixa do espectro político, aparando arestas, fazendo alianças e compondo governos. Tancredo Neves, a respeito do PSD, dizia que “entre a bíblia e o capital, o PSD ficava com o Diário Oficial”. É a cara do PMDB atual.

Mas, houve exagero nisso: o foco exclusivo no Diário Oficial retirou substância política da legenda. O partido se transformou numa federação de grupos regionais, e, fragmentado, perdeu capacidade de se compor e compor o centro; impor moderação. Sem credibilidade, como chamar o jogo para si?

Sem o PMDB, num de torpor legislativo, desorganização partidária e enorme dispersão política, caberia à experiência dos tucanos assumir o espaço centrista, articulando-se a partir daí. Testados regional e nacionalmente, separando o joio do trigo, poderiam estabelecer outra dinâmica; mais política, mais propositiva; negociar a agenda, compondo maiorias a partir de sua referência. Enfim, a sutileza fundamental, que avança e ultrapassa; atropela sem passar por cima; a força e a graça da política.

Não é o que acontece, no entanto. No mais recente movimento que fez -- e que culminou com a convenção nacional do partido – o PSDB protelou a solução de seus problemas; foi de uma agressividade inútil e não estabeleceu postura clara que pudesse agregar mais que os votos insuficientes e decrescentes de Geraldo Alckmin em 2006.

Em relação à CPMF, por exemplo, parece intimidado pelo PFL (atual Democratas). Suas lideranças não se acertaram para além do discurso de unidade que não se arrisca – ou foge – ao fechamento de questão. Os deputados hegemonizam o processo, mas governadores e alguns senadores, dizem os jornais, agem à sombra. Se a CPMF for aprovada, os tucanos ficarão com o ônus da derrota; se for derrotada, o sabor da vitória será minimizado pela responsabilidade que lhes será atribuída e pelo saldo do dissenso que inevitavelmente marcará o processo.

Mesmo a recente propaganda de TV teve efeito duvidoso: ao apontar aspectos positivos do governo Lula como sendo originariamente seus, acabou por reconhecer aspectos positivos, afinal. Tudo bem. Mas, ao apontar as maracutaias, a legenda foi tragada pelo procurador-geral que indiciava um de seus senadores. Caiu na esparrela da “herança maldita” e partiu para a desqualificação pessoal, num tom de inegável arrogância. Não substantivam, apenas adjetivam o adversário. Empobrecem o necessário debate.

No mais, no meio da base, os tucanos se viram compelidos à agressividade de salão que não combina com o estilo refinado que cultivam; bravata sem conseqüência prática e objetiva, quando não adversa. Irônico: falar de educação e ser mal-educado; pretender ser chique e ser grosseiro; ser culto e escorregar no português.

Além disso, o inócuo bumerangue moralista: as críticas de sempre, num forçado tom radical que não faz mais que constranger ouvintes: brumas do PT de ontem e do PFL de sempre. Um coquetel de sectarismos sem sal e açúcar, onde não há identidade, nem localização no espaço. Apenas a incapacidade de se colocar à frente, de ser ponta-de-lança a partir do centro e não dos pólos.

Mas porque, afinal, os tucanos, experimentados, cultos e educados como se proclamam, não conseguem entabular um discurso nem centrista – como seria sua sina –, nem avançado, nem de esquerda e nem belicoso de direita?

Por que lhes falta unidade; por que querem ser isso tudo – avançados, de esquerda, belicosos e de direita -- ao mesmo tempo em que se dilaceram por serem tudo isso. Por que, assim como ocorre ao governo e ao seu arquiinimigo, o PT, também lhes falta projeto e coesão, como, de resto, faltam ao país. Ajudam a pulverizar o centro e não o contrário; centrífugos ao invés de centrípetos.

Políticos centristas estão por todos os partidos; pulverizados, no entanto. O país carece de sua experiência e moderação para tirar o governo e o Legislativo desse girar vertiginoso em torno do próprio eixo. O PSDB poderia ocupar o espaço, mas sua dinâmica e disputas internas alteram a rotação da sigla. O centro, então, se perde. Onde está? Quem saberá! Talvez, um problema que nem uma reforma partidária profunda pudesse resolver, já que a jactância faz perder a bússola, o rumo e o centro. Não se opera a transformação. Faltam-nos raposas de verdade.

Cientista político, doutor pela PUC-SP, professor de Sociologia e Política do Ibmec São Paulo. Autor de “Collor: o ator e suas circunstâncias” (Editora Novo Conceito)

 
 
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Rio Branco-AC, 29 de novembro de 2007
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