

Dr. Julinho improvisou
um consultório dentro do barco
para atender ribeirinhos da comunidade São Salvador
Excluídos da saúde pedem socorro
Elson Martins
O médico Júlio Eduardo, integrante da expedição que sobe o rio Juruá com destino à Foz do Breu, viaja com boa quantidade de remédios para distribuir com os ribeirinhos. Mas não é seu objetivo fazer atendimento em massa como aconteceu na comunidade São Salvador, seringal Ocidente, na foz do rio Grajaú.
Quando o barco ancorou no local, ele foi chamado para atender uma emergência: uma garota havia levado uma furada de felpa e estava com a mão tão inflamada que mais parecia um aleijo. O abscesso precisava ser aberto com anestesia, mas não havia condições para isso. Mesmo assim, o médico improvisou e fez a operação com sucesso.
Antes de terminar a operação, porém, já se formara junto à embarcação uma fila de pessoas que pediam para ser atendidas queixando-se de doenças diversas. Eram na maioria mulheres com quatro a cinco filhos a tiracolo. Dr. Julinho improvisou um consultório dentro do barco e teve que se virar sem atendente para ouvir e apalpar pacientes, prescrever receitas e depois acocorar-se no exíguo espaço da embarcação para abrir caixas de papelão onde se encontram os medicamentos.
As mães puxavam os meninos e meninas pelo braço apresentando-os ao médico: “Não sei o que diacho esse menino tem, doutor. Não quer comer, vive com essa cara amarela e a barriga inchada desse jeito...”. Alguns casos eram realmente graves ou inadmissíveis nos dias de hoje, como o de uma senhora que convive com uma sífilis terciária (caso sugestivo) de 15 anos.
O almoço no barco foi servido às 14 horas, mas o “consultório” aberto às 11 horas prosseguiu sem interrupção até as 16. Foram atendidas 66 pessoas e restaram as que não tiveram a mesma sorte, porque a expedição tinha que prosseguir viagem para Thaumaturgo.
Nas caixas de medicamento, doadas pela Secretaria de Saúde, existe boa quantidade e variedade de remédios, mas foi mal calculado o estoque para as duas doenças mais comuns encontradas pelo Dr. Julinho: verminose e desnutrição: 80 por cento dos remédios para verminose - sulfato ferroso e vitaminas - foram distribuídos naquela comunidade.
Durante as reuniões que a equipe faz para refletir sobre o que viu e ouviu no dia anterior, o médico Julinho advertiu que o caso da comunidade de São Salvador não deve repetir-se na viagem. Os medicamentos serão distribuídos nos locais onde houver um posto de saúde ou, no mínimo, um agente de saúde. Ele acha, porém, que a situação daquelas famílias do seringal Ocidente registra um fato que deve chegar aos ouvidos do Governo da Floresta como advertência. E sugeriu: “A característica emergencial justifica ações pontuais periódicas, enquanto o melhor vai sendo construído”.
Dr. Julinho sugere também ações básicas de informação em saúde, visitas de agentes para verificação de indicadores, assessoria técnica para agricultura de subsistência e uma maior interação com as prefeituras da região para reduzir o número de excluídos da saúde.
Os membros da expedição concordam com ele: dava dó ver jovens mulheres com suas crianças lindas, mães e filhos aflitos por causa de doenças que poderiam ser evitadas com ações simples de saúde preventiva.
A felicidade dessas pessoas que vivem na floresta mais rica do mundo talvez esteja dependendo apenas de médicos e agentes de saúde do governo que passem por lá com mais freqüência.