
Solidariedade tira idosos do isolamento social em Senador Guiomard
Exercícios físicos com acompanhamento médico gratuito melhoram a saúde e devolvem a auto-estima
Josafá Batista
No ano em que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolhe idosos como tema para a campanha “Vida, Dignidade e Esperança”, experiências bem-sucedidas de filantropia e alto gabarito profissional já existem no interior acreano. É o caso de Francisco Castro Nunes, 31. Formado em Educação Física pela Ufac e especialista em “Atividade Física na Promoção da Saúde e Qualidade de Vida”. Ele atende, examina e treina cerca de 60 idosos diariamente, no Clube de Campo Águas do Quinari, em Senador Guiomard (24 quilômetros de Rio Branco).
O trabalho é totalmente voluntário e também totalmente profissional. Toda manhã, os idosos - cujas idades variam de 60 a 90 anos - passam por aulas de dinâmica pessoal e avaliação meticulosa da pressão arterial antes dos exercícios físicos. Primeiro vem os alongamentos, seguidos de atividades na água, que permitem aos alunos maior movimentação com menor desgaste. A turma também possui comemorações próprias, baseadas nas datas de aniversário de cada integrante.
“O avanço contínuo dos meios tecnológicos e a modificação nos hábitos de vida fizeram com que a sociedade deixasse de se preocupar com a sua qualidade de vida, principalmente no tocante a do idoso. Minha intenção é fazer com essas pessoas, mais suscetíveis às doenças e bem mais esquecidas pela sociedade, reacordem para o mundo. É um trabalho pioneiro, voluntário, que tem seus gastos, mas é muito gratificante”, observa Francisco Castro.
Os benefícios alcançados pela experiência foram muitos. Alguns pacientes deixaram de fumar, outros abandonaram o sedentarismo e a maioria voltou a ser criativa, a escrever ou participar com mais intensidade das atividades familiares.
Recuperação de pacientes cardíacos
O trabalho de Francisco é tão profissional que já foi reconhecido por alguns médicos, que lhe encaminham pacientes cardíacos. “Como o que faço tem fundamentação científica, os profissionais acabam acreditando em mim e me ajudando a trabalhar”, explica Francisco, que também é administrador do ginásio de esportes da cidade e por isso é bastante conhecido e requisitado.
“Essas pessoas com doenças coronárias têm registrado uma melhora considerável, mas não por minha causa. É imprescindível que o aluno colabore para o seu próprio bem-estar. Pelo mesmo motivo, cada aluno tem um controle pessoal do próprio exercício”, complementa.
A experiência de sucesso começou há dois anos. Desde então a “clínica de recuperação para idosos” não parou de funcionar, sempre a partir das 6 horas, todos os dias, até as 9.
Ao longo desses 24 meses, o esforço de Francisco para manter o trabalho funcionando exigiu diversos e pequenos sacrifícios pessoais. Um deles foi o tempo, e outro, os investimentos consideráveis. Sua última aquisição, um freqüencímetro no valor de 275 reais, precisou ser acompanhada por uma série de pequenos investimentos.
Os exercícios ministrados incluem alongamentos, ginástica localizada e aeróbica. Nas quartas-feiras, apenas a piscina é utilizada pelos mais idosos. Os resultados são sempre positivos. “Lembro-me de um senhor de 84 anos que não conseguia sentar-se nem levantar-se. Entrou na nossa programação é hoje é outro homem, nem se compara”, explica o professor.
“Precisamos reinserir nossos
idosos na sociedade produtiva”
Para Francisco, a atividade física na terceira idade ultrapassa a simples necessidade de exercícios para a obtenção de saúde. A idéia teria um cunho muito mais social, já que, a partir de certa faixa etária, muitas pessoas sofrem de um certo preconceito social, e, automaticamente, acabam se afastando. Resoluto, ele acredita que essa infeliz realidade pode mudar. Basta impedir o maléfico sentimento de autocomiseração, comum em idosos vítimas do preconceito.
O que lhe fez criar um programa de saúde exclusivo para idosos?
Porque fala-se muito dos “nossos velhinhos”, mas é só. Criaram o Dia Internacional do Idoso, a Lei de Política Nacional do Idoso (Lei n° 8.842 de 04 de janeiro de 1994) e, por fim, a Campanha da Fraternidade voltada para a população com idade avançada. Mas valorizar essa classe não é apenas dar um remédio, levar ao hospital quando estiver doente, como se pensa.
Qual é a sua fórmula?
Acho que devemos promover saúde associada com o bem-estar, mantendo os idosos ativos, fazendo com que eles se sintam importantes e necessários dentro da comunidade que ele ajudou e quer continuar ajudando a desenvolver.
O que você diz às pessoas que não acharem isso tão prioritário?
Diria que a pirâmide populacional de quase todo o mundo vem sofrendo um significativo progressivo de idosos. E que por isso devemos nos preocupar com a qualidade de vida da população com idade superior a 60 anos. Diria também que todo mundo envelhece um dia.
Quais benefícios a atividade física traz para a terceira idade?
Há benefícios preventivos e terapêuticos. Participar de um programa de exercícios físicos efetivos aumenta a melhora e a capacidade funcional, bem como a função cognitiva, além de aliviar os sintomas de depressão, pois estimula a produção de serotonina, substância produzida no cérebro que dar a sensação de bem estar, elevando a auto-estima.