
Arnete Guimarães
Trânsito do Acre mata 10 vezes mais do que a cidade do Recife
TIÃO MAIA
Motorista desde 1976, a advogada e pedagoga Arnete Souza Batista Guimarães, casada, quatro filhos, assumiu, na semana passada, a direção do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) com uma espinhosa missão: fazer reduzir os índices de acidentes que, em 2002, mataram em todo o Estado 108 pessoas.
Para se ter idéia do absurdo que representa esse número, basta dizer que o trânsito da grande Recife (PE), com mais de um milhão de veículos, matou, no mesmo período, 103 pessoas. O número fica mais absurdo ainda se se considerar que a frota do Acre, principalmente de Rio Branco, onde se concentra o maior número de veículos, não chega a 100 mil veículos.
Procuradora jurídica da administração do então diretor Fernando Melo, que transformou o Detran de uma autarquia desacreditada e corrupta numa das vitrines da administração do governador Jorge Viana, Arnete Guimarães sabe, exatamente, onde está pisando.
Dirigindo há quase 30 anos, ela jamais se envolveu em qualquer tipo de acidente. “Uma vez arranharam meu carro, mas eu, jamais, tive qualquer problema”, conta.
Certamente a diretora vai precisar de algo mais além de sua habilidade de motorista. Vai enfrentar problemas com falsificação de carteiras de habilitação, uma cidade que ainda tem problemas de sinalização, motorista, motoqueiros, ciclistas e pedestres que, ao que tudo indica, parecem pouco preocupados com a vida.
A senhora assume o Detran com a difícil missão de reduzir os índices assustadores de acidentes de trânsito. O que vai fazer e o que se pode esperar da sua administração para a redução desses índices?
A nossa meta principal é integrar todos os órgãos da administração estadual num esforço conjunto e investir bastante na educação continuada para um trânsito com menos violência. O que nós queremos é uma educação através da qual as pessoas possam se conscientizar.
Mas, diretora, essas campanhas, ao que parecem, sempre foram feitas e as pessoas continuaram morrendo e ou se matando. A educação é suficiente?
Nós entendemos que não adianta campanhas isoladas ou apenas a repressão, através de multas. Nada disso adianta se a gente não conseguir a sensibilização de que a educação no trânsito é também um ato de cidadania. Enquanto a população não entender que o trânsito não é uma disputa, vamos continuar a ter problemas. O que a população tem que entender é que nós, motoristas, estamos aqui sobretudo para sermos solidários com o motorista que está do nosso lado. É preciso ter em mente que não nos leva a lugar a nenhum a estupidez e a pressa no trânsito, correndo de forma desesperada.
Qual a contribuição que a senhora espera da iniciativa privada?
A única contribuição que queremos do setor privado é que os dirigentes de empresas enviem seus funcionários para se submeterem à reciclagem, independentemente de se envolverem em acidentes ou não. O que descobrimos é que muitos motoristas ficam viciados: passam anos e anos dirigindo e não acompanham, por exemplo, as mudanças na própria legislação do trânsito. Há casos em que os motoristas ainda não se adaptaram às novas regras do Código Nacional de Trânsito, que data de 1997.
A direção defensiva ajuda mesmo?
Não há dúvida de que os cursos de direção defensiva dão uma nova visão ao motorista. Além disso, cremos que a partir do momento em que a gente envolve a comunidade nesse programa de educação e conscientização, partindo das escolas com um trabalho integrado com a secretaria de educação, nós vamos ter êxito. Vamos investir nas escolas. Quem é o motorista de amanhã? É o aluno de hoje. Além disso, temos convicção de que as crianças funcionam também como uma espécie de fiscal dos maus atos de seus pais no volante. No momento em que alguém do Detran, da Secretaria de Educação ou de um outro órgão for às escolas e fizer uma campanha de esclarecimento, o estudante, mesmo sendo criança, ele vai ficar do nosso lado. No momento em que seu pai ou sua mãe infringir a legislação, dirigir perigosamente, ele estará ali, cobrando.
A solução para esse grave problema está com as crianças, então?
Não especificamente com as crianças. Mas eu acredito que essa conscientização geral, com o envolvimento da comunidade, passa pelas crianças. Aliado a isso é preciso que tenhamos projetos de ações continuadas de educação e cidadania envolvendo a sociedade de um modo geral, através de todos os setores.
A senhora não acha que, além da imprudência e dos problemas naturais do trânsito, as cidades acreanas, as ruas de Rio Branco principalmente, não contribuem para a elevação dos índices de acidentes?
Realmente, as condições da cidade também contribuem muito para os acidentes. Eu acho que as ruas teriam que ser melhoradas, mas isso não é suficiente porque, em não havendo educação, quanto mais a rua for beneficiada, maior a possibilidade de imprudência. Eu acho que tudo vai da consciência. Um buraco na rua é um fator, mas o problema está, quase sempre, no motorista.
Na sua avaliação, as cidades acreanas, e principalmente Rio Branco, que detém o maior número de veículos, estão bem sinalizadas?
É preciso que a gente reconheça que de um modo geral falta sinalização, sim. Aliás, venho conversando com o pessoal da RBtrans [autarquia equivalente ao Detran, em nível municipal] e o pessoal de lá me garantiu que o órgão vai entrar em atuação junto com a gente e há também a vontade deles de implantarem aquele sistema de pardais.
Nas cidades onde esse sistema foi instalado, como Brasília, por exemplo, a população reclamou à beça. A senhora é a favor dos pardais?
Eu sou a favor. O Diretor do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) também é.
Então, a senhora vai implantar o sistema de pardais?
Eu não tenho, ainda, uma decisão tomada sobre isso. Não quero me pronunciar sobre isso porque ainda não fizemos um estudo sobre o tema. Mas a principal reclamação contra os pardais é em relação ao alegado excesso de multas. Eu sou a favor porque eu acho que o lucro, apesar das multas, é a prevenção da vida.
Outra grande reclamação é que esse sistema de pardais é explorado pela iniciativa privada, que visa o lucro. Portanto, quanto mais multa, maior o lucro. Isso é correto?
Mas há várias formas de administração desse sistema. Uma delas é o pagamento, pelo órgão de trânsito, de um determinado percentual para a iniciativa implantar e explorar o sistema. Outra é – aliás, é essa a mais combatida pela sociedade – a participação no total das multas. Pelo que sabemos de experiências como a de Fortaleza (CE) é que, nos primeiros momentos da implantação do sistema, há um aumento muito grande nas multas, mas depois vai diminuindo, naturalmente. No primeiro momento, as multas ocorrem porque os motoristas teimam em desafiar o equipamento por achar que não funciona, mas depois, diante das multas, vão se educando, respeitando mais o sistema.
A senhora então acha que a multa pode ser uma grande aliada do Detran?
Com certeza. Não dizem que a parte mais sensível do corpo humano é o bolso?