
Ivan de Castro Melo
Primeiro deputado eleito na história do PT revela por que abandonou o partido
Leonildo Rosas
O maior partido político do Acre completou ontem 23 anos de fundação. Mas a caminhada do PT até os dias atuais foi marcada por vários episódios que não podem deixar de ser contados. Um deles é o da eleição do primeiro parlamentar da história do partido no Estado.
Em 1982, a direção do PT jogava seu trunfo na eleição de deputado estadual do emergente líder ambientalista Chico Mendes. Mesmo com todos os ventos favoráveis, Chico perdeu e ficou na primeira-suplência. O eleito veio do Vale do Juruá e atendia pelo nome de Ivan de Castro Melo, um pouco conhecido farmacêutico e professor de Cruzeiro do Sul. Ele obteve 986 votos.
Ivan Melo não terminou o mandato no PT. As divergências e as pressões internas fizeram com que ele mudasse para o PMDB. A mudança partidária foi fatal para seu futuro político. Na eleição de 1986, mesmo aumentando a votação, ficou fora. Por causa da legenda.
Segundo irmão mais velho do desembargador Arquilau de Castro Melo, Ivan Melo abandonou a política e voltou para o comércio. Atualmente, aos 63 anos, reside em Manaus (AM), onde tem uma microempresa no bairro de Petropólis. Da capital amazonense ele concedeu esta entrevista, na qual fala dos radicais petistas, da sua eleição e da confiança que tem no presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.
O senhor foi o primeiro deputado eleito PT no Acre. Como era o partido naquela época?
Eu não fui apenas o único deputado eleito no Acre, fui o único eleito em toda a Região Norte. As coisas para o PT naquela época, quando ele contava com apenas dois anos de fundação, eram muito difíceis. Para visitarmos os locais mais distantes tínhamos que enfrentar várias dificuldades, principalmente as financeiras.
A região de Cruzeiro do Sul é conhecida por ser mais tradicional. Como foi ser eleito por um partido de esquerda naquela região?
Eu tinha uma farmácia e trabalhava como professor na escola Flodoardo Cabral. Essas atividades possibilitavam que conhecesse muita gente. Além disso, tinha uma participação ativa nos movimentos sociais. Ajudava a defender as reivindicações e a organização dos sindicatos. Dessa forma, acabei construindo uma base sólida que garantiu os votos necessários para me eleger.
Depois da sua eleição, o senhor teve um conflito com o partido e acabou saindo. Por que aconteceram essas divergências?
As divergências começaram porque queriam que eu mantivesse uma posição radical. Os dirigentes do partido queriam que eu fizesse críticas muitas vezes descabidas. Como não concordei...
Então, naquela época, eram os radicais que mandavam no PT do Acre?
Sim, eles tinham grande influência e determinaram que eu votasse contra até nas propostas que acreditava serem melhores para o Estado. Não poderia concordar com isso. Sou da opinião de que devemos apoiar as coisas que são boas para o desenvolvimento do Estado, independentemente da cor partidária.
Diante disso, o caminho que o senhor encontrou foi sair do PT?
Saí forçado. Além de quererem me obrigar a ter uma postura radical, queriam que eu desse mais de 20% dos meu salário ao partido. Achei a proposta inviável, uma vez que precisava do meu salário para manter a minha família e minha estrutura de candidatos. Acredito que os 20% eram mais do que justos.
Aí o senhor foi para o PMDB?
Sim, recebi o convite e ingressei no PMDB. Nas eleições seguintes, mesmo tendo mais votos do que em 1982, não consegui a reeleição por causa da legenda.
Depois que perdeu a eleição, o senhor voltou para Cruzeiro do Sul ou foi para Manaus?
No governo de Flaviano Melo fui presidente da Colonacre durante dois anos. Depois, por não concordar com as algumas coisas, pedi para sair e estou morando em Manaus desde 1989.
Nesse período o senhor voltou ao Acre?
Voltei apenas uma vez.
Mas o senhor acompanha as notícias do seu Estado?
Sim, leio os jornais porque minha cunhada puxa as notícias pela Internet e leva para mim.
O PT fez 23 anos de fundação ontem. O senhor acha que o partido mudou nesses anos?
Como disse anteriormente, naquela época eram os radicais que ditavam as normas. Agora percebo que o pessoal está mais light e disposto a dialogar com a sociedade de forma coerente e tranqüila. Essa prática é muito boa.
Na época, queriam que o senhor cedesse parte do seu mandato para o líder ambientalista Chico Mendes. Como o senhor não aceitou, houve um conflito dentro do partido. Como se deu o episódio?
O Chico Mendes ficou na minha suplência. Para colocá-lo na Assembléia Legislativa, a direção do partido queria arranjar um atestado médico para mim sem que eu estivesse doente. Não concordei. Achava que dois deputados recebendo o salário a que apenas um fazia jus era corrupção. Então procurei a televisão e denunciei o fato.
Mas o senhor fez outra proposta ao partido?
Sim, pedi que eles me dessem um tempo para que pudesse fazer uma economia, a fim de me retirar do Parlamento sem ônus. Achava que assim estaria agindo de acordo com a minha consciência. Infelizmente, não aceitaram.
Na época em que foi deputado do PT, o senhor conheceu o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva?
Sim, conheci o atual presidente em 1983, numa reunião em São Paulo. Depois, nunca mais nos encontramos. Mesmo assim, votei nele para presidente no ano passado e em todos os candidatos do PT.
O PT é o maior partido do Acre - tem o governador, dois senadores e vários deputados estaduais e federais. O senhor acredita que sua eleição em 1982 contribuiu para o crescimento do partido?
A minha eleição contribuiu porque eu divulguei o partido em toda região do Juruá, fazendo palestras e explicando a necessidade de os trabalhadores se organizarem. Percorri quase o Acre inteiro. A única região que não atuei foi a de Xapuri, porque tinha o Chico Mendes fazendo esse trabalho com eficiência.
O senhor conhece o governador Jorge Viana?
Nos conhecemos durante o governo de Flaviano Melo, quando ele trabalhava na Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac) e eu estava na Colonacre. Fomos da mesma equipe.
Mesmo olhando de longe, o senhor acredita que o trabalho de Jorge Viana está no caminho certo?
Por ter uma postura mais negociadora, a mesma que eu tinha lá atrás, o governador está conseguindo colocar o Acre nos eixos. Acho apenas que o governo deve fazer uma política mais próxima dos produtores rurais.
O senhor confia que o governo Lula vai dar certo?
Confio. Agora, não podemos achar que as coisas vão mudar do dia para a noite. É preciso ter paciência e dar tempo para o presidente arrumar a casa e colocar seus projetos em prática.
Na época, o seu irmão, o hoje desembargador Arquilau de Castro Melo, era militante do PT. Ele ajudou na sua campanha?
Ele conseguiu alguns votos em Rio Branco, mas não se empenhou muito para não entrar em conflito com os outros companheiros.