
Orlando Sabino
“Nova gestão irá valorizar cada vez mais a cultura do povo acreano”
O Sebrae completa doze anos no Acre propondo uma gestão inovadora. Inovar é a palavra de ordem da atual diretoria do órgão, biênio 2003/2004, que pretende colocar em prática prioridades que nortearão suas ações permitindo sua proximidade com o povo acreano e sua cultura. Nesse aniversário, o superintendente Orlando Sabino faz um balanço das ações da instituição. Veja a entrevista.
Que prioridades serão tratadas na nova gestão que o senhor reassume?
Esta é uma pergunta importante e remete a uma reflexão muito profunda. O que fazer numa instituição, que de certa forma já ganhou a credibilidade do pequeno empresário e da população? O Sebrae é uma instituição atuante em vários segmentos da sociedade acreana, não só produtiva, mas da sociedade em geral. E a pergunta que se faz é como vamos fazer para que o Sebrae possa pelo menos permanecer com esse conceito. Pelo menos contribuindo cada vez mais com a sociedade acreana. Então nós temos que inovar. Acreditamos que inovar é a forma de fazer, temos que fazer muito mais com os recursos que nós temos. Multiplicar recursos em ações que realmente nós temos interesse, para se estar cada vez mais próximo da forma de ser de nosso povo, de sua cultura. Eu sempre digo: não adianta importarmos tecnologia de outras regiões do país, mesmo sendo tecnologias importantes do ponto de vista da arte, que não sejam adequadas às reais sensibilidades, interesses e capacidade de absorção da nossa população.
Significa que o Sebrae-Acre vai atuar respeitando a realidade e o contexto local?
Esse é o desafio. E essa é a grande mensagem que temos passado para o público interno, nossos gerentes. Estamos com uma nova estrutura, estamos com um novo plano de gestão de pessoas. Estamos procurando motivar muito nossa equipe no sentido de darmos conta dessa nova tarefa. Isso não é fácil. O Acre está vivendo um momento muito especial, um momento em que o Governo tem assinalado que o ponto central é a economia. E se é economia, o negócio é com o Sebrae, porque o nosso ramo é esse, melhorar as condições dos pequenos negócios, estar sempre contribuindo para que se fortaleça a economia do Acre.
O Governo Lula sinalizou que pode realizar mudanças na forma de arrecadar a contribuição sindical compulsória. Caso isso aconteça, a arrecadação pode ser afetada. O Sebrae teria alternativas para captar recursos?
É uma boa pergunta. Inclusive que se remete a todo o sistema do Sebrae Nacional. A reforma tributária vem aí e é um anseio da população brasileira, portanto acreditamos que o quadro deverá ser alterado. No quadro da contribuição social de hoje, a empresa paga em função do lucro líquido, um percentual do lucro líquido. E isso nós acreditamos que de certa forma será alterado.
De que forma?
Existem várias propostas, mas concretamente não se sabe qual será adotada. Deve-se reduzir a alíquota que incida em determinada parcela de empresas e isso vai refletir de certa forma no orçamento do Sebrae, nos recursos disponíveis para o Sebrae. Agora mesmo o presidente da República editou uma Medida Provisória que retira do orçamento do Sebrae na fonte, quando é arrecado no próprio Tesouro, 15% para a Agencia de Exportação, a APEX. Antes esses 15% vinham para o Sebrae que fazia uma política voltada para a exportação. Agora esses recursos não chegam mais no Sebrae. Esse é só um exemplo de como afetará os recursos dos Estados. O total de recursos arrecadado para o Sebrae Nacional é de 60%, que é repassado para os Estados. Ora, se de um total “x” retira-se 15%, logicamente isso reflete na repartição do bolo.
E a busca de alternativas?
Temos que procurar saídas. Eu acho que, pela credibilidade, o nome do Sebrae já faz com que a gente possa buscar parcerias. E isso tem sido discutido nos últimos anos no sistema como um todo. O Sebrae pensa em buscar parcerias com organismos internacionais. Em nível nacional, internacional e local também. Procurar apoio dos governos, das prefeituras, das instituições não-governamentais, porque já criamos uma certa interatividade de conhecimentos sobre a região e a problemática das empresas. Temos um banco de dados e o conhecimento de trabalharmos com pequenas comunidades. E isso nos credencia para que o Sebrae possa ser parte de interesse dessas entidades financiadoras.
O senhor acredita que diante dessa situação o governo do Estado possa vir a ser um dos maiores parceiros do Sebrae no Acre?
O Estado já tem sido. É o nosso maior parceiro. Praticamente todas as nossas ações têm parcerias com o Estado. Isso não é porque é de partido “a” ou partido “b”, mas porque o Governo no Acre é o maior agente econômico. Enquanto em São Paulo são as empresas privadas que comandam o setor econômico, no Acre e nos Estados pequenos é o governo o principal agente econômico. Porque fatalmente se o governo, que é o maior agente, não estiver junto às instituições, dificilmente haverá uma grande alavancagem de qualquer ação. Nós temos várias experiências aqui no Sebrae. Quando o governo se interessa e busca uma parceria, a repercussão sempre é bem maior. Então, mais do que nunca, a participação do governo do Estado é sempre importante.
O senhor poderia dar alguns exemplos de parcerias entre o Governo e o Sebrae-Acre?
A Amazontech é o maior exemplo de realização de parceria com o Governo, pois seria impossível fazermos sozinhos. O Fundo de Aval é outro. Agora estamos trabalhando com um programa de designer e de capacitação. Então, tudo isso quando não é feito com recursos diretamente do caixa do Tesouro são com recursos de convênios que vêm para o Estado, que efetua parcerias com o Sebrae.
Complementando a pergunta, dentro da linha de parcerias com o Governo, quais são as políticas de inclusão e desenvolvimento social que o Sebrae vem adotando?
Desde 2002 o Sebrae-Acre vem trabalhando com arranjos e cadeias produtivas locais. São setores plenamente identificados através de amplos estudos e de uma forte percepção da realidade. São arranjos e cadeias que têm vantagens competitivas, que nós como instituição, com o trabalho de várias frentes, poderemos alavancar como o diferencial do Acre em relação ao país. Nós identificamos seis cadeias que estamos trabalhando desde o ano passado que, são carne, couro, artesanato, madeira e móveis, piscicultura e a produção de farinha de mandioca. Sentimos que se várias instituições - e o próprio Sebrae - atuarem em diferentes frentes nesses setores capacitando, dando crédito, melhorando a comercialização e promoção dos produtos, divulgando-os em feiras e eventos, poderemos promover e fazer o diferencial local.
Isso requer uma harmoniosa parceria entre as instituições.
Sim. Nós estamos com uma negociação com o Governo nesse sentido. O Acre está precisando de um somatório dessas instituições e podemos promover isso. Entramos em amplas negociações com o Governo, que nós achamos que será extremamente favorável, porque não é uma ação isolada do Governo ou do Sebrae, é uma ação em conjunto.
Quais ações estão sendo encaminhadas nesse sentido?
Está se pensando em criar um programa de turismo e um de designer para o artesanato com inovação. Estamos também pensando em um amplo programa de arranjos produtivos que englobaria um apoio tecnológico fortíssimo em vá-rias frentes. Ou seja, são ‘desenhos’ que estão sendo feitos e temos plena convicção de que essa aproximação será muito benéfica para o Acre.
O que o senhor pretende manter da gestão anterior e inovar na atual?
Primeiro estamos entrando nesse novo mandato com uma nova estrutura, novos planos administrativos. Fizemos várias mudanças, estamos trabalhando com gerências, macroprocessos. Além da missão especial do Sebrae, temos oito macroprocessos, que são grandes linhas de atuação. Em cada macroprocesso desses temos gerências. Até então, o papel das gerências era de serem meras executoras de projetos. Mas agora vão coordenar esses macroprocessos. Além dessa nova estrutura administrativa, estamos também com um plano audacioso na gestão de pessoas, como premiar as que se destacam e são mais eficientes. Vamos passar a medir isso. É uma coisa moderna que faz parte da nova administração.
Como seria essa avaliação de potencial?
Os maiores líderes da área da academia de administração acham que a avaliação 360º, onde cada pessoa da organização é avaliada por seu superior e por seus subordinados e por pessoas de seu mesmo nível, é uma forma positiva de administrar. Isso já está em execução. A outra é aquilo que eu já disse. É a mudança de mentalidade das pessoas. Nós temos que mudar porque a sociedade muda. Nós não podemos achar que estamos perfeitos. Existe um dinamismo social muito grande.
Presenciamos uma grande mudança em diversos setores da sociedade acreana...
Sim. Aqui no Acre o momento é de grandes mudanças. E nós estamos dando essa mensagem, levando essa mensagem ao corpo técnico de que precisamos mudar. Então esse ciclo é o novo desafio. Eu tenho passado horas refletindo junto com meus colegas de diretoria e também refletindo sobre esse momento: ‘O que fazer?’, ‘Como contribuir mais ainda?’, ‘Como não errar e não perder o momento?’. Esse momento é histórico e precisamos marcar presença. A contribuição de uma instituição como o Sebrae é importante para o crescimento desse novo conceito no Estado.
O Sebrae se mostrou um exportador de tecnologias principalmente na área de educação, com as Oficinas de Empreendedorismo. O que isso significa para a instituição dessa vanguarda?
Audácia. Quem trabalha com empreendedorismo tem que ser também empreendedor. O empreendedor corre riscos calculados e nós ousamos nessas oficinas. De repente estávamos aqui em uma reunião de técnicos pensando o que fazer. Estávamos avaliando um programa do Fundo de Aval e nos questionamos: ‘Será que as pessoas que pegaram esse financiamento estariam capacitadas com os cursinhos de 20, 30 horas para gerir um negócio?’. E vimos que tínhamos que reforçar isso. Pensamos: ‘De que forma?’. Não em salinhas para reunir 20 ou 30 pessoas, mas pensamos além, massificando. Então, lançamos o desafio e fomos para a prática.
E uma ação quantitativa era prioridade?
Claro. Significava: “Sair dos milhares para ir para os milhões”. E nós fomos à luta e conseguimos importar essa tecnologia para Rondônia e Amazonas. É esse sistema, essa metodologia de capacitação massiva, que já está em laboratório no Sebrae Nacional para ser ampliado. É considerado caso de sucesso. O Sebrae Nacional vai lançar futuramente uma revista com os casos de sucesso do sistema. O nosso é um caso de sucesso.
Quais outras inovações?
Temos um programa de designer que foi muito elogiado no Brasil todo. Temos o exemplo de Xapuri, o apoio que demos para as indústrias agroflorestais, com destaque para os produtos florestais, que inclusive ganhou o Prêmio Mário Covas deste ano. Isso demonstra claramente que não nos contentamos apenas em ser um mero executor das ações locais e ações emanadas em nível nacional. Queremos a diferença, porque a sociedade acreana é diferente, porque a Amazônia é diferente. Nós não podemos ficar copiando. A população tem maior capacidade de absorver o que estamos transmitindo. Nós não podemos ter o mesmo linguajar que é usado em São Paulo, a cultura de cada região precisa ser levada em conta. E a Oficina de Empreendedorismo se insere nesse contexto, de procurar fazer coisas parecidas com o Acre e a região.
No próximo dia 25 o Sebrae-Acre completa 12 anos. O que se tem para comemorar, já que o senhor participou da história do Sebrae em outros momentos?
Faço parte dessa instituição não só como superintendente. Na época em que o Sebrae foi criado, há 12 anos, eu era secretário da Industria e Comércio. Inclusive tenho minha assinatura como um dos membros do Conselho Deliberativo do Sebrae em sua fundação. Temos muito a comemorar. Mas quem tem que dizer isso é a sociedade acreana. Se, por um motivo qualquer, de repente dissessem que o Sebrae iria ser extinto ou ia acabar, eu tenho certeza de que a sociedade iria sentir. Mas tenho certeza de que a sociedade iria se movimentar em defesa da instituição. Atuamos nos 22 municí-pios do Estado, temos um contato muito próximo com a classe empresarial e junto às pequenas comunidades de extrativistas, ribeirinhos e pequenos agricultores. Fizemos muita coisa. Tudo que executamos foi com amor.