
Memorial do Craque

Independência, na segunda metade dos anos 80. Em pé, da esquerda para a direita: Merica, Klowsbey, Paulão, Delcir, Tonho e Erivaldo. Agachados: Paulinho, Marquinhos, Carlinhos, Mariceudo e Cardosinho
Mariceudo: um artista com a bola nos pés
Expulsão quase faz o craque encerrar a carreira prematuramente
Francisco Dandão
Extremamente técnico, veloz e dono de um drible irresistível, desde as peladas na infância na rua Rio de Janeiro, onde nasceu, que o cidadão Mariceudo Mário de Moura deu mostras do craque que viria a ser. Não foram poucas as pessoas, aliás, que vaticinaram ao seu pai, o então lateral Hernani Cholada: “Esse moleque, quando crescer, vai jogar mais do que você”.
O primeiro clube do meio campista Mariceudo, aos 16 anos (ele nasceu em 17.09.1958), em 1974, foi o juvenil do Internacional, levado por um amigo de escola. Apesar da pouca idade, ele jogava um futebol de gente grande e, assim, logo passou a atuar no time de cima do Sacy do Ipase, ao lado de muita gente boa da época. Casos de Peré, Ilaércio, Sérgio, Duda, Darlan e Piririca.
Na decisão do campeonato juvenil de 1975 contra o Rio Branco, quase que a carreira de Mariceudo acaba. Inconformados com a atuação do árbitro Edson Nogueira, vários jogadores do Inter partiram para as vias de fato. No meio do bolo, Mariceudo e outros foram punidos com um ano de suspensão. Isso fez com que o craque ficasse 1976 e 1977 só jogando no subúrbio.
A volta foi triunfal. No começo de 1978, convidado para participar de um treino do Inter contra o Juventus, Mariceudo só não fez chover. O Clube da Águia, claro, prontamente o contratou. Na estréia, contra o próprio Sacy, uma goleada de 7 a 2. Uma temporada foi o bastante para atrair a atenção de outros centros e em 1979 o craque já estava no Nacional de Manaus.
De volta ao Acre, em 1980, Mariceudo foi mais uma vez defender o Juventus, onde permaneceu até 1983. Do ano seguinte até 1993, já em plena era do profissionalismo, quando pendurou as chuteiras, foram mais três camisas (Rio Branco, Independência e Andirá), muitos e decisivos gols e vários títulos na vida do atleta. Definitivamente, um vencedor.

Nacional de Manaus, em 1979. Em pé, da esquerda para a direita: Beto, Paulo Galvão, Armando, Ely, Marinho Macapá, Soró e Raimundo (massagista). Agachados: Edson, Mariceudo, Da Costa, Nilson e Esquerdinha
Dois gols inesquecíveis
Mariceudo, embora jogasse no meio campo, freqüentemente terminava as competições com um dos artilheiros da sua equipe. Ao longo de 19 anos de carreira, portanto, foram gols de todos os feitios. Dois, porém, ele elege como inesquecíveis. Um deles, pela beleza do lance; o outro, pela importância.
O mais bonito aconteceu jogando pelo Andirá, contra o Independência, no município do Quinari. “A bola veio alta, da extrema direita, depois de um escanteio cobrado pelo Cid. Um zagueiro do Tricolor cabeceou para fora da área. Eu vinha na corrida e peguei-a de primeira, no ângulo deles”, afirma.
“O mais importante”, diz Mariceudo, “foi pelo Rio Branco, contra o Ceilândia, no Campeonato Brasileiro da Segunda Divisão de 1990. Nós precisávamos da vitória para passar à fase seguinte. Num certo momento, eu driblei um zagueiro deles e mandei uma bomba de perna esquerda”.

Rio Branco, na primeira metade dos anos 80. Em pé, da esquerda para a direita: Chicão, Ilzomar, Neórico, Mário Sales, Paulo Roberto e Eco. Agachados: Roberto Ferraz, Gil, Mariceudo, Carioca e Julinho
Os melhores que viu em ação no futebol acreano
Só depois de muita insistência é que Mariceudo concorda em escalar um time com os melhores jogadores que ele viu em ação no futebol acreano. Insistência e a promessa de citar outros nomes além dos onze.
Os onze: Xepa; Mauro, Neórico, Paulão e Paulo Roberto; Emílson, Carlinhos Bonamigo e Dadão; Roberto Ferraz, Gil e Paulinho. Outros nomes: Gilmar, Merica, Venícius, Carioca, Mário Sales, Tonho, Chicão e Ilzomar.
Os técnicos mais competentes? Mais uma vez bate a dúvida e Mariceudo acaba citando três: Tinoco, Arthur Ribeiro e Coca-Cola. “Esses sabiam tudo de tática e estratégia. Além do mais, com eles só jogava quem estivesse realmente melhor. Não existia panelinha”, explica o ex-craque.
A bola continua presente na vida de Mariceudo
Aos
44 anos, casado com D. Rosair, pai de duas filhas (Dayana e Tayane), funcionário
da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Mariceudo não
tem mais o fôlego de outrora, mas continua batendo as suas peladas com
a categoria de sempre. Tanto que recentemente sagrou-se bicampeão dos
Jogos do Sesi, defendendo o time do próprio trabalho.
Ao estádio José de Melo voltou poucas vezes nos últimos 10 anos. A justificativa para essa ausência é a mesma de outros ex-craques: “O nível técnico dos atuais jogadores é muito baixo. A gente só vê chutão. Não tem ninguém tratando a bola com intimidade. Se não houver rapidamente um bom investimento nas categorias de base, a tendência é a coisa piorar ainda mais”.