| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
| Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias | |
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Em meados do ano passado, Meirelles quase morreu de uma flechada no rosto, cuja ponta saiu em sua nuca, desferida com precisão por índio “isolado” nas proximidades da foz do igarapé Xinane, afluente da margem esquerda do alto rio Envira. Agora, já curado, ele abre a boca e conta tudo o que sabe sobre os povos “isolados”, ou “brabos”, como são mais conhecidos na região, onde há mais de 16 anos chefia a base da Frente. Nos últimos dois anos, o sertanista assevera que aumentou o número de “isolados” nas cabeceiras do Envira. No sobrevôo realizado nessa região no verão de 2003, junto com a antropóloga Maria Elisa Guedes Vieira, coordenadora do GT de Identificação e Delimitação da TI Riozinho do Alto Envira (antiga Xinane), localizaram um conjunto de malocas de “brabos” nos divisores de águas das cabeceiras dos principais afluentes da margem direita do alto Envira. No inverno de 2004, novamente sobrevoaram a mesma área, agora com o engenheiro florestal Leonardo Santana, localizando dois outros novos conjuntos de malocas de “brabos”, com cerca de 9 a 12 casas cada. Esses três conjuntos de malocas formam um verdadeiro triângulo nas cabeceiras dos igarapés Jaminauá, Riozinho e Furnanha. Com toda razão, o sertanista considera que a intensificação da exploração predatória de madeira ao longo de nossa extensa fronteira com o Peru, tem efetivamente empurrado vários “grupos isolados” para o território acreano. O que significa dizer, embora não faça nenhuma referência a isso, que ele e seus companheiros da Frente de Proteção correm sérios riscos de serem novamente atacados por índios “isolados”. Em sua entrevista, Meirelles também denuncia a situação de miséria e de abandono em que se encontram as comunidades Ashaninka e Madijá das cabeceiras do Envira. Diante da grave situação de fome, doenças e até casos de prostituição de mulheres Ashaninka, nosso bravo sertanista faz um apelo às instituições que trabalham com os índios acreanos e, ainda, a importantes líderes indígenas do estado, que ajudem com urgência essas comunidades das cabeceiras do Envira, marginalizadas pelo contato sistemático com o mundo dos brancos. As fotos que ilustram o Papo de hoje nos foram cedidas pelas antropólogas Maria Elisa Vieira e Sara i Gaia, amigas do Planalto Central, “onde se divide o bem e o mal” (Txai Terri). Cresce o número de isolados nas cabeceiras do Envira No entorno aumenta a fome e miséria nas comunidades Ashaninka e Kulina. Em nossa viagem ao alto rio Envira, em dezembro do ano passado, houve muitas reclamações dos Ashaninka em relação ao seu trabalho com índios “isolados”. Reclamam que até agora você não amansou nenhum “brabo”. Meireles: Para você entender bem essa história, eu preciso contá-la desde o começo. Até 1988, antes do advento da nova Constituição, a política oficial em relação aos índios “isolados”, que vinha sendo feita pelo antigo SPI (Serviço de Proteção aos Índios), de 1910 até 1966, e depois pela FUNAI, a partir de 1967, era aquela velha política de integração do índio à comunhão nacional. Isso foi muito enfatizado no tempo do regime militar. Quando entrei na FUNAI, em 1970, ainda era assim. Bom, em 1988, quando foi promulgada a nova Constituição, as pessoas que “amansavam índios arredios”, nesse tempo assim que eram chamados os “isolados”, acho esse termo “isolados” pior ainda, enfim, os sertanistas que trabalhavam com esses povos criaram uma nova postura em relação a eles, que consiste basicamente na proteção. O que se faz é demarcar um território para eles e protege-los. É uma coisa nova na FUNAI demarcar terras para índios “isolados”. Já existem duas terras demarcadas para “isolados” aqui no Acre (TI Kampa e Isolados do Rio Envira e TI Alto Tarauacá) e vai ter uma terceira (TI Riozinho do Alto Envira, antiga Xinane). Bom, nessa época havia muitos conflitos entre grupos “isolados”, de um lado, e os Ashaninka do alto rio Envira e Kaxinawá do rio Jordão, de outro. Chamaram-me para dar uma olhada nessa história e analisar as causas desses conflitos. Foi, então, criada uma “Frente de Atração” lá no alto rio Envira, com objetivo de ver realmente qual o território que esses povos usavam e, ainda, tentar fazer uma política de boa vizinhança entre os índios “acostumados”, no caso aqui do Envira os Ashaninka e Kulina, e esses povos que passamos a chamar de “isolados”. Fui, então, para as cabeceiras do Envira montar uma base da Frente na foz do igarapé Xinane. Ali era uma área onde, além dos índios Ashaninka e Kulina, os brancos também iam caçar muito. Era uma área muito invadida. Quando foi isso, Meireles? Meireles: Isso foi em 1987 para 1988. Os brancos que iam caçar naquela região não foram mais. Ficaram os Kulina e os Kampa. A primeira viagem que eu fiz foi pelo rio Jordão. Varei de lá pelas matas e vim sair nas cabeceiras do Envira. Nessa viagem andei com o velho Sueiro Sales, Carlito Cataiana, Miguel Macário, que são índios Kaxinawá, e ainda com nosso saudoso amigo Jorge Nazaré. A idéia era conhecer de perto a situação dos “isolados”, propor novas áreas para eles e preservar suas culturas tradicionais. Além de deixar os índios isolados protegidos, tem algum trabalho pensado também para os Ashaninka e Madijá? Meireles: Meu trabalho é com índios isolados. Apenas quebro galho desses índios “acostumados”. Esse trabalho quem devia estar fazendo era o chefe de Posto. Têm Ashaninka alcoólatras, cheios de doenças e as índias novas se prostituindo aí nesses barrancos. Estou cansado de mostrar isso. Na verdade, quebro um galho besta desses índios. Conserto motor. Arranjo uma muniçãozinha. Dou de comer a eles, quando aparecem lá na nossa base. Arranjo algum remédio. Não dou conta de tudo, entende? É preciso que todo mundo que trabalha com índios se envolva também. Acho que tem muita gente e instituições incompetentes aí nesse meio. A FUNAI é uma delas. Eu falo mesmo. Não tenho medo de falar. Hoje a FUNAI está bastante deficiente, mas também não vou ficar aqui só falando mal do órgão indigenista. Tem outras organizações que também não se mexem. Essas lideranças que estão à frente do movimento indígena, como o Francisco Pinhanta, o Siã Kaxinawá, o Joaquim Tashkã e o Antonio Apurinã, têm que ajudar também. Afinal, são parentes deles. Eles têm condições de fazer uma reflexão histórica com os Ashaninka e Madijá sobre os povos “isolados” e também sobre a situação de miséria em que hoje se encontram suas comunidades. Os Ashaninka reclamam que não podem subir o rio Envira acima da foz do igarapé Xinane. Eles se queixam que perderam uma parte significativa de sua terra indígena, que é muito rica em caça e peixe... Meireles: Com relação à proibição, é verdade! Não tem outro jeito! Se os deixo passar, aí o furdunço vai ser grande. Nós estamos trabalhando ali exatamente para não deixar que aconteçam esses encontros, porque aí vai rolar guerra com toda certeza. Mas para você entender, vou lhe contar o outro lado da historia. Desde que eu cheguei às cabeceiras do Envira, existia uma demanda desses índios “acostumados”, para não chama-los de “aculturados”, prefiro dizer “acostumados”, enfim, essa cobrança de que o trabalho da gente tem que ser como eles querem: “Tem que amansar os brabos!”. Os Ashaninka foram muito usados pelos caucheiros peruanos para dar segurança ao pessoal que explorava o caucho, porque essa região era cheia de grupos “isolados”. Como o caucho era uma exploração predatória e itinerante, os caucheiros andavam muito e matavam muitos índios “isolados” e vice-versa. Por volta de 1915 até a década de 60, também foram usados pelos patrões de seringais para fazer a segurança dos seringueiros e limpar a área. Limpar a área significa botar os índios para correr, organizando as famosas “correrias”. Morreram muitos deles nas cabeceiras desses rios. Com a crise da borracha, esses povos “isolados” começarem a crescer e aumentar de novo. E começaram a ocupar novamente um território que historicamente lhes pertencia. Hoje, a exploração predatória de madeiras no lado peruano da fronteira está promovendo uma migração muito grande de índios “isolados” para as cabeceiras do Envira. Isso é muito complicado. Vamos ter muitos conflitos aí pela frente. Para se ter uma idéia do problema, já se sabe que tá havendo até guerra entre os próprios “isolados”. Eles estão ficando num beco sem saída. E os Ashaninka também não estão encurralados e abandonados? Meireles: Como já falei, os Ashaninka estão totalmente abandonados. Os Madijá tão um pouquinho melhor. Pelo menos não lhes falta comida. Os Ashaninka, se não cuidar, vão tudo morrer de fome e de tanto beber álcool e cachaça. Não botam mais roçados grandes. Botam um roçadinho de nada, que não dá nem para as caiçumadas deles. Os velhos vivem pra cima e pra baixo nesse rio Envira, tentando resolver problemas de suas aposentadorias do INSS. A meninada mais nova vive quase toda às custas dos velhos. A maioria só quer viver na cidade. Está tudo com gonorréia, hepatite e outras doenças que pegam na cidade. Mas eles têm representantes de organizações indígenas, oficiais e não-governamentais, para falar por eles. Os “isolados” não têm ninguém. Agora temos essa Frente de Proteção, mas, antes, não tinha nada. Esses índios “acostumados”, como você diz, vivem numa miséria lascada, não é? Meireles: A Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (SEPI) poderia tomar a frente disso. A OPIRE também. Porque, você sabe bem, índio, quando é chefe de alguma coisa, só trabalha com a família dele, com o povo dele. Isso quando faz alguma coisa. Mas não vou entrar nesse mérito. A Comissão Pró-Índio, a FUNAI e o CIMI também poderiam ajudar. Os Ashaninka têm todo o direito de reclamar. Quando o Moisés Pianko os visitou, junto com a antropóloga Margarete Kitaka Mendes, eu conversei muito com eles e pensei: “Oba! Agora a coisa vai melhorar! Porque eles são parentes, falam a mesma língua e vão se entender direito. E o Moisés tem toda essa experiência de desenvolvimento sustentado lá no Amônea”. Mas eles não voltaram mais. Se fizermos uma política de boa vizinhança, um bom trabalho de conscientização no entorno, não vai haver mais massacres de “isolados”, como aconteceu recentemente nas cabeceiras do Juruá, em território peruano. E como você entendeu a flechada que você levou dos “isolados”? Meireles: Toda vez que inventam uma novidade nas áreas de perambulação dos “isolados”, o branco que eles encontram mais próximo paga. Então, se um branco mata um “isolado”, o primeiro que eles encontram é o cara. É assim que funciona. Essa flechada tem um significado para mim. Nós ainda não estamos fazendo o serviço direito. Se a área de perambulação deles estivesse resguardada e não tivesse ninguém perturbando eles, eu não tinha levado essa flechada. Nessa área das cabeceiras do Envira tem três povos “isolados”, que não estão totalmente protegidos. Em 2003, sobrevoei essa área com a antropóloga Maria Elisa, quando localizamos um conjunto de malocas de “isolados”. No ano passado, sobrevoamos a mesma área, agora também com a participação do engenheiro florestal Leonardo Santana, localizando outros dois conjuntos de malocas. Quer dizer, eles triplicaram em apenas um ano. Por isso, não é de estranhar que eu tenha sido flechado bem em frente à base da Frente. Se não se fizer nada pra acabar com as atividades madeireiras do outro lado da fronteira peruana, que pressionam os “isolados” a mudar-se para as cabeceiras do Envira, a situação vai se agravar ainda mais. E se encontrarem ouro e petróleo por lá? Peço a Deus que isso não aconteça! É preciso que representantes dos governos do estado e federal entrem em contato com autoridades peruanas para proteger as florestas e as populações isoladas de ambos os lados de nossas fronteiras. |
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