| OPINIÃO | ||
| VARAL DE IDÉIAS | ||
Marcos Afonso |
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É difícil viver sem lavar, secar, usar as roupas. E é quase impossível existir sem limpar, expor e aplicar as idéias. Todos levantam, ao menos em algum momento generoso ou num átimo sobressaltado da vida, o varal de suas idéias. Com ou sem anis, sabão em barra ou em pó, na máquina, na tábua da curva do rio ou sobre o tanque no quintal, lavamos nossas idéias nas águas que escolhemos e as exibimos quando achamos que o sol está forte. Mas, como estamos lavando nossas idéias? E o quanto de calor elas estão precisando para serem usadas? A partir deste domingo, neste blog impresso, somarei minhas esperanças com toda e qualquer lucidez per capita. Nesse mundo capitalista globalitário, de sonhos burocráticos, que mais parece uma clareira surrealista, quero me contrapor à dissimulação pastosa, melancólica, dos neoconservadores, bem como à cantoria epifânica desses tempos assombrados, de consumo descartável dos sentimentos, que acinzentam os sonhos. Quero também, numa desesperada simplicidade, vitalizar algumas das antigas audácias da minha geração, alegrar desejos que ainda são possíveis, mostrar (a mim igualmente) que a criança de cada um não deve chorar, e que nem tudo está perdido. É difícil a crise que vivemos, e estamos meio sonâmbulos nela. Eu sempre digo nas minhas palestras que a Esperança é o sonho do homem acordado (e continuo acreditando nisso). Mas não fico tranqüilo com a fórmula chinesa de encarar as crises como ante-salas das mansuetudes. Por isso, e como posso, vou esticando a paciência e alimentando a tolerância, para não ter pressa, mas também para não perder tempo. Acredito que a inteligência humana terá capacidade de apresentar respostas maiores que os desafios desta crise. E que as rebeldias, as artes, a subversividade e o destemor criativo darão novas luzes ao conhecimento, à cultura e à ética, oferecerão sensatez na sustentabilidade e na política, produzirão mais solidariedade na nossa existência. Minha geração é pai e mãe dos jovens atuais, que crescem num mundo excludente, com uma revolução técnica e científica que muda comportamentos, valores, sentidos de vida, onde o fundamentalismo se apresenta como combustível à reprodução da ignorância arrogante e à expansão do desprezo consciente pela cultura. Conheço razoavelmente a juventude e me preocupo com ela. Especialmente quando percebo novas velhas idéias em jovens de 16, 18 e 20 anos. Quero escrever para essa geração, porque preciso apostar nela. Acreditar que o jovem não aceite o passado como era, nem o presente como está, mas que saiba construir um outro amanhã, como dizia um dos cartazes de nossas passeatas vinte e tantos anos atrás. Nossa geração está mandando mensagens para o futuro nestas cidades e florestas. Que mensagens são essas? Eu quero mandar mensagens de esperança e ação. Prefiro ir acendendo lamparinas em vez de amaldiçoar a escuridão, mesmo que para muitos desafios, confesso, ainda esteja procurando fósforos. Não estenderei neste Varal de Idéias as roupas encardidas do diletantismo saudosista (tão aconchegantes), nem lavarei roupas sujas que não me cabem mais. Mas desdobrarei os lençóis, cortinas, toalhas e bandeiras que continuam dando sentido ao vestiário das idéias que prossigo acreditando. Sei que não se diz poemas para os que não tem ouvidos de poeta. Mas esse Varal de Idéias, embora localizado em quintal com nome e endereço no jornal (local) e no cosmos da internet (global), entende que o Sol é para todos. Mas nem todos para o Sol. Outros preferem a romântica Lua ou a liberdade das estrelas. E isso deve ser respeitado. Afinal, as roupas delicadas secam-se à sombra. Assim, vou estender neste varal a Filosofia, a Cultura e a Política de forma prazerosa à inteligência, através de opiniões, experimentalismos teóricos, análises de filmes, livros, música, teatro, gastronomia, fotos e vídeos. Idéias de todas as pessoas que procuraram (e continuam procurando) compreender o tempo e o espaço, para transformá-los. Em síntese, um Varal de Idéias que possa oferecer substância aos sonhos, que amplie nossa sensibilidade e que nos encoraje a travar o bom combate, sem esquecer o princípio ético, inegociável, de preservar e promover a vida. |
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