COTIDIANO

Índios isolados são
destaque nacional

Eles foram vistos pela primeira vez em um sobrevôo feito pela Funai e tudo indica que nunca tiveram contato com “brancos”

 

RENATA BRASILEIRO



Índios de comportamento arredio que vivem em uma região do Acre, próximo ao Peru, há pelo menos 90 anos, foram fotografados pela primeira vez, por um grupo de funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai).

A notícia veio à tona por meio da agência BBC e foi veiculada com destque em quase todos os jornais on line no início da tarde de ontem. De acordo com a agência, as fotografias foram feitas durante uma missão da Funai, que incluiu um sobrevôo à região isolada.

O grupo indígena flagrado se assustou com a presença do avião e reagiu a flechadas, mas não conseguiu atingir o grupo que sobrevoava a área. “Enquanto eles estiverem nos recebendo a flechadas - e eu já levei uma na cara -, estarão bem. O dia que ficarem bonzinhos, já eram...”, disse o organizador da missão e coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai, José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, à BBC.

À agência de notícias o organizador da missão afirmou ainda que não se sabe nada sobre os índios que moram naquela região. O grupo fotografado é o maior dos quatro isolados que existem apenas no Acre. Segundo Meirelles, há registro da presença deles na região desde pelo menos 1910. “Não sei nada deles, e a idéia é continuar não sabendo”, diz Meirelles.

Ele reforçou ainda que deicidiu fazer a divulgação porque os mecanismos (para proteger essas populações) não têm servido. “Ou a opinião pública entra nisso ou eles vão ‘dançar’.”

As fotos que puderam ser feitas no pouco tempo de sobrevôo mostram as malocas do grupo e índios pintados com urucum. Uma delas registrou o momento em que membros do grupo tentam acertar o avião do fotógrafao com flechas.

De acordo com a reportagem feita pela BBC, a Survival International, entidade que faz campanha pelos direitos dos índios, estima que haja cerca de 40 grupos indígenas isolados no Brasil (no mundo todo seriam 100). Meirelles informou à reportagem que já foi confirmada a existência de mais de 20 grupos isolados, mas, dada a extensão da Amazônia, esse número pode de fato chegar a 40.

Ele, que trabalha na Amazônia desde os anos 70, defende que esses povos sejam deixados como estão, já que escolheram permanecer isolados, mas acredita que as pessoas precisam saber que eles existam e que estão sob forte ameaça.

“O futuro deles depende da gente. Ou a gente preserva as regiões acidentadas [onde eles vivem], que não servem para agricultura, só servem para serem preservadas, ou essa gente vai acabar.”

Segundo o especialista da Funai, os índios que vivem na fronteira do Acre com o Peru estão ameaçados pelas atividades predatórias na Amazônia peruana, como a exploração ilegal de madeira e a invasão de terras.

“Tudo que é ilegal que você pode imaginar acontece na Amazônia peruana. Do lado brasileiro, a gente consegue isolar, evitar invasões, mas a coisa está pegando do lado de lá [do Peru].”

À reportagem ele disse ainda ter provas de que pelo menos dois grupos do Peru passaram para a Amazônia brasileira. “São pelo menos duas aldeias com 15 ou 20 casas, mas esses daí você não fotografa. Eu já andei a pé por lá, mas quando você sobrevoa, esse pessoal desaparece.”

Vulnerabilidade - As fotografias foram divulgadas pela Survival International, que apóia a política da Funai para povos isolados de “nunca fazer o contato, apenas demarcar a área e deixá-los em paz”.

Meirelles diz que duas terras indígenas já foram demarcadas sem que fosse feito contato, e uma terceira nessa mesma situação está prestes a ser feita.
Para a ativista da Survival Fiona Watson, o contato não só violaria os direitos dos índios, já que eles escolheram permanecer isolados, como poderia ser fatal.

Watson cita casos de grupos que tiveram metade da sua população dizimada depois do contato. “Doenças facilmente curáveis para nós podem ser fatais. Esses povos são únicos. Uma vez que desaparecem, desaparecem para sempre”, declarou. (Fonte: BBC).

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