Tião Maia
Enviado Especial

Xapuri – O resultado do julgamento dos implicados pelo assassinato do líder sindical Ivair Higino, divulgado na madrugada de ontem, foi surpreendente: dos três acusados, apenas Oloci Alves da Silva, filho do fazendeiro Darli Alves, foi condenado a oito anos de reclusão em regime semi-aberto, mas não deverá passar nem um dia na cadeia em função da aplicação do princípio da prescrição intercorrente da pena. O crime ocorreu em junho de 1988, seis meses antes da morte de Chico Mendes, a quem Ivair Higino era politicamente ligado.
“Foi como se a gente ganhasse e não levasse”, lamentou, após a divulgação da sentença, o promotor de justiça Mariano Jorge de Souza Melo, que anunciou a possibilidade de recurso para um novo julgamento. “Fiz o que estava ao meu alcance”, disse, emocionado, o advogado Gomercindo Rodrigues, ao abraçar o pai da vítima, José Higino de Almeida, de 76 anos. Ex-sindicalista com destacada atuação em Xapuri e ex-assessor de Chico Mendes na época do enfrentamento entre seringueiros e fazendeiros, Gomercindo Rodrigues usou parte o tempo destinado pelo juiz Anastácio Lima de Menezes Filho para a acusação (quatro horas e meia, o mesmo tempo para a defesa), tentando sensibilizar o corpo de jurados composto por quatro homens e três mulheres, contando a história daqueles anos de chumbo.
“É a primeira vez que atuo na acusação. Sempre estive na defesa, mas hoje estou aqui para devolver um pouco do que aprendi com os trabalhadores de Xapuri, para tentar buscar um pouco de justiça para o Ivair”, disse Gomercindo. “Não é porque passou tanto tempo que não se pode fazer justiça. É exatamente por isso que se deve fazer justiça para Ivair”, disser Gomercindo, sem saber que não seria atendido pelos jurados. Assim que o conselho de sentença foi formado, surgiram informações de que, entre o corpo de jurados, cujos integrantes não puderam ser fotografados nem ter os nomes divulgados por decisão do juiz, havia amigos e até compadres dos acusados.
“Só isso poderia explicar essa decisão de que meu filho foi morto apenas pelo Oloci. Como é que uma só pessoa mata outra com oito tiros usando duas armas diferentes?”, indagou, perplexo, o ancião José Higino de Almeida. De fato, Ivair Higino foi assassinado com oito tiros - dois de espingarda e seis de revólver calibre 38 - na manhã do dia 18 de 1988, no curral da pequena propriedade em que vivia com a família - os pais e mais cinco irmãos e irmãs, a esposa e um filho de 28 dias de nascido. O crime ocorreu no momento em que ele se preparava para tirar leite de uma vaca para alimentar o filho recém-nascido. O vasilhame de alumínio em que ele deveria trazer o leite acabou totalmente perfurado de balas, o que aponta para o detalhe de que Ivair Higino tentou proteger-se por instinto utilizando a vasilha como escudo, revelando que o crime foi cometido sem que a vítima tivesse a mínima chance de defesa. De acordo com a acusação, isso caracterizaria que o crime foi cometido mediante tocaia, um agravante que o Tribunal do Júri não reconheceu. Desconheceu também a acusação de que o crime foi cometido mediante pagamento.
Segundo a acusação, a intenção dos assassinos era também dar cabo ao pai de Ivair, José Higino, que o acompanhava todos os dias na tarefa de tirar o leite das poucas vacas da propriedade. Naquela manhã, porém, Ivair dirigiu-se sozinho ao curral porque seu pai foi acometido de uma dor de barriga. Do banheiro, ele pôde ouvir os oito tiros que abateram seu filho.
A acusação se baseou, principalmente, no depoimento de Genésio Barbosa da Silva, na época em que o então cunhado de Oloci, ainda menino, era criado na Fazenda Paraná para se tornar pistoleiro da família Alves, cujo depoimento, no caso do assassinato de Chico Mendes, acabou por detonar o esquema de terror e dos matadores de Xapuri. A história do assassinato de Ivair Higino, assim como o atentado cometido contra trabalhadores acampados na sede do IDDF, em maio de 1988, surgiu como o ensaio do que ocorreria em relação a Chico Mendes, no fim daquele ano. “Para eles, não bastava apenas matar uma vez. Tinham que mostrar quem e como fizeram”, disse Gomercindo Rodrigues, ao reafirmar que os oito tiros contra Ivair Higino foram feito spor mais de uma pessoa.
De acordo com o processo, além de Oloci, Gentil Alves e Cícero Tenório, outras quatro pessoas teriam envolvimento com o crime - os peões da Fazenda Paraná identificados como “Cearazão” e “Cearazim’, além de Darci Alves, filho de Darli, e Alvarino Alves. Os dois peões sumiram sem deixar pistas e tanto Darci como Alvarino foram impronunciados no caso porque, à época do crime, o filho de Darci era menor de idade e Alvarino superara os 70 anos, ficando inimputável. O pagamento a Oloci pelo assassinato, segundo a acusação, foi feito por Cícero Tenório, através de oito cabeças de gado.
A motivação do crime seria, além da forte ligação política entre Ivair Higino e Chico Mendes, inimigo fidagal da família Alves, a aceitação de uma candidatura a vereador nas eleições daquele ano pelo PT contra a candidatura de Cícero Tenório, pelo PMDB. “Juntaram-se os interesses dos Alves com o medo de Cícero Tenório perder a eleição para Ivair Higino”, disse Gomercindo Rodrigues.
Na defesa, atuaram os advogados Sérgio Batista Quintanilha, Heitor Andrade de Macedo e Francisco Valadares Neto, cada um com um acusado diferente. Valadares Neto defendeu Cícero Tenório, Quintanilha a Gentil Alves, e a Heitor Andrade de Macedo coube a defesa do único condenado. Mesmo assim, embora tenha anunciado que recorreria da decisão, o advogado voltou atrás ao saber que seu cliente, mesmo assim, permanecerá em liberdade.
Os advogados conseguiram convencer os jurados de que as acusações de Genésio não poderiam ser consideradas porque a testemunha, hoje maior de idade e vivendo em Brasiléia, é alcoólatra e viciada em drogas.
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