Não caia antes de ser empurrado
Ainda outro dia recebi correspondência eletrônica com uma dezena de provérbios oriundos de várias culturas mundo afora. Com pequenas variações, nós aqui temos correspondentes para quase todos.
Um deles, inglês, que está no título deste artigo, me fez pensar na situação pela qual passam hoje os jornais norte-americanos, que amargam resultados ruins, com perda de leitores e anúncios e, conseqüentemente, de valor de mercado.
No Brasil, festejamos seguidos anos de crescimento de circulação, de faturamento e, o mais surpreendente, aumento da participação do nosso meio no chamado “bolo publicitário”, a verba destinada pelos anunciantes aos diversos meios de comunicação.
Surpreendente, sim, pois o crescimento da base de assinantes da TV paga e dos usuários da internet no Brasil fez com que analistas previssem que aconteceria aqui o mesmo fenômeno que preocupa acionistas e executivos da mídia impressa norte-americana.
Uma rápida análise do que está acontecendo por aqui mostra o impressionante crescimento dos chamados “jornais populares”, com preço baixo e conteúdo dirigido à classe C, já chamada a “classe dominante” no país.
“Extra” (Rio), “Diário Gaúcho” (Rio Grande do Sul), “Super Notícia” (Minas Gerais), “Agora” e “Jornal da Tarde” (São Paulo) batem seguidos recordes de circulação. Iniciativas em Vitória (ES) e Campinas (SP) surpreendem os criadores de jornais populares por atingirem resultados muito superiores aos esperados nos seus planos de negócio.
Preço baixo, estratégia de distribuição, promoções e, sobretudo, matérias produzidas e apresentadas de acordo com o gosto do novo leitor fazem a receita desse enorme sucesso. Fica claro que estamos assistindo ao processo de formação de novos leitores que, em breve, procurarão análises mais refinadas, textos mais profundos e anúncios de produtos de maior valor agregado e migrarão para os jornais que ofereçam esse serviço.
Os grandes jornais inovam com novos cadernos, reformas gráficas e revistas, além de terem feito reestruturações nas suas organizações de modo a ganhar agilidade na percepção das novas tendências do mercado leitor e do mercado publicitário.
Ao mesmo tempo em que anunciam a revolução que a internet traz ao seu próprio negócio, os jornais têm seus cadernos de informática, que propagam as conquistas desse seu ferrenho concorrente. E assim também aconteceu quando da chegada da TV digital, quando foram servidos ao público cadernos especiais apresentando essa nova maneira de competição pelo tempo do consumidor.
E assim se preparam para essa nova realidade, em que sua missão não é mais trazer novidades aos leitores, mas sim ajudá-los a compreender o mundo, mais complexo sob qualquer ponto de vista, inclusive apontando a melhor maneira de escolher e comprar um produto ou um serviço.
Tabelas de preço de publicidade se tornaram mais simples, e equipes de vendas, mais preparadas para mostrar a anunciantes e agências de propaganda as vantagens de anunciar em jornal, não só como mídia eficiente, mas como veículo capaz de emprestar sua extraordinária capacidade de relacionamento com o seu leitor ao anúncio nele veiculado.
Nada como o prazer de ler “o meu jornal”!
É impressionante como mesmo os pequenos diários do interior do país estão na web fazendo valer a força de suas marcas, se dedicando ao chamado “hiperlocalismo”, a promover eventos, enfim, a reagir aos movimentos de leitores dos mais diversos perfis e a oferecer a anunciantes novas formas de se relacionar com eles.
Os jornais brasileiros têm vantagens importantes sobre os americanos que os fazem viver realidades inteiramente diferentes neste instante.
Podem acompanhar o que ocorre por lá e se preparar para enfrentar as dificuldades e evitar o “eu sou você amanhã”. Além disso, não estão submetidos à pressão de resultados que o mercado impõe às sociedades de capital aberto. Os empresários daqui fizeram o possível para enfrentar as dificuldades do final do século e do início desta década sem baixar a qualidade do seu produto. Amargaram reduções importantes nas suas margens e colhem agora os frutos dessa decisão.
Minha impressão é que os jornais americanos se preocuparam demais com a chegada dos concorrentes eletrônicos, não fizeram seu dever de casa para entender a nova situação e se entregaram a um derrotismo antecipado. Caíram antes de serem empurrados.
* Engenheiro, é diretor-executivo da ANJ (Associação Nacional de Jornais). Foi executivo sênior da Rede Globo, Gobosat/NET Brasil, Globopar, Rede Bandeirantes e SBT. Trabalhou como consultor da Telefónica para projetos de TV na América Latina e para o Grupo Abril.
Cana-de-açúcar para biocombustíveis na
Amazônia: uma dor para nós todos
DIONES ASSIS SALLA *
No Centro de Raízes e Amidos Tropicais da Universidade Estadual Paulista (CERAT/UNESP), em Botucatu (SP), encontra-se em execução um projeto visando o desenvolvimento de destilarias para a produção de etanol, a partir da mandioca. Paralelamente, corroborando com essa iniciativa, em fase de conclusão, está uma pesquisa que analisa o custo energético nas etapas de produção agronômica e de processamento industrial das matérias-primas mandioca, cana-de-açúcar e milho para a produção de bioenergias.
Os dados disponibilizados permitem fazer algumas reflexões sobre os cultivos amiláceos e já são suficientes para fundamentar novos debates, desconstruir alguns conceitos tidos como inquestionáveis e promover uma reperspectivação nas políticas públicas do meio agrícola, especialmente àquelas praticadas na Amazônia.
O Estado do Acre, em benefício de alguns, vem estruturando a produção de biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar, adotando os mesmos procedimentos praticados no estado de São Paulo, ou seja, arrendamento de terras para o aumento das áreas contínuas de cultivo e exclusão da participação dos agricultores. Não vai demorar muito para que essa atividade, que modela o ecossistema aos seus princípios e objetivos, se estenda para outras áreas da Amazônia.
A pretensão não é atrapalhar. Entretanto, em lugar da cana-de-açúcar, exemplo de monocultivo, antagônica à manutenção da biodiversidade e competidora pelos mesmos espaços utilizados à produção de alimentos, pode-se utilizar a mandioca que já é alimento, ou mais do que isso é o registro da historia alimentar das populações amazônicas.
Apenas para citar uma das inúmeras vantagens desse cultivo é que durante os primeiros três ou quatro meses após o plantio, a mandioca ainda apresenta uma baixa densidade de folhas, criando com isso espaços na área de cultivo que permanecem ociosos durante todo esse período, permitindo que se cultivem juntos o arroz, o feijão, o milho e outras espécies alimentares, sem prejuízos para a primeira. Assim, com o aumento da área plantada com a mandioca para a produção de biocombustíveis, ao contrário do que ocorre com o monocultivo da cana-de-açúcar, ampliam-se os espaços e as oportunidades para a produção de mais alimentos.
Esse modo de uso da terra por sistemas, praticado secularmente na Amazônia, também desmobiliza as criticas internacionais recentemente proferidas pela ONU, a qual acusa os biocombustíveis como os responsáveis pela redução das áreas cultivadas com alimentos, o que em parte é verdadeiro e pelo aumento da fome no mundo, o que de todo é um exagero. Sabe-se que a falta ou a elevação do custo dos alimentos é conseqüência de várias causas, entre elas os subsídios agrícolas que a Europa e os Estados Unidos concedem aos seus agricultores.
De qualquer modo é preciso analisar com mais cuidado o que está sendo dito, já que os dados sobre a produção de alimentos no Brasil são insuficientes para que se faça uma analise dos deslocamentos produtivos e se tenha uma visão de conjunto dessas ocorrências, uma vez que as áreas de pecuária substituídas pelo avanço da cana-de-açúcar na região Sudeste são compensadas pelo avanço do desmatamento para a criação de gado na região Norte. No caso da produção de grãos, quem faz a compensação ou torna imperceptível essa redução na produção de alimentos de um determinado lugar é a utilização gradativa do cerrado brasileiro, que aos poucos está sendo substituído pelo avanço de lavouras agrícolas.
Além dessas indagações é preciso compreender que a produção de etanol, a partir da mandioca, não tem mais os mesmos entraves existentes no período do Proálcool, onde as enzimas e as leveduras não apresentavam a mesma eficiência que possuem hoje. Além do mais, na década de 70 o Brasil importava a maior parte dos insumos utilizados na hidrolise e na fermentação. Hoje não é mais assim, pois toda essa tecnologia necessária à produção de etanol é produzida no país. É imprescindível também descondicionar-se dos argumentos desse período, infelizmente ainda presentes nos dias de hoje e servem apenas para ofuscar os potenciais produtivos e os atributos de sociabilidade e de sustentabilidade que são intrínsecos ao cultivo da mandioca para produção de bioenergias.
Apesar dos comentários não tenho a intenção de impor, convencer, converter alguém ou ainda dificultar o avanço dos plantios de cana-de-açúcar instituídos no Acre para produção de biocombustíveis. No entanto, procuro defender com veemência a análise racional científica e não conservo a ilusão de que o que escrevo esteja sempre de algum modo totalmente isento e nem mesmo que seja capaz fazer alguma diferença. No entanto, procuro disponibilizar informações aos gestores e aos dirigentes públicos da Amazônica, ajudando-os a reconhecer os potenciais energéticos da mandioca, a combater com argumentos as investidas exploratórias sobre esse ecossistema frágil e a dispensar a presença da cana-de-açúcar dos propósitos energéticos da Amazônia.
Não se trata apenas de crise de discernimento da gestão pública. É uma dor para nós todos. Por tudo isso, conservo a ilusão de que promover iniciativas agroindustriais a partir da mandioca é desenvolver “tecnologias de sintonia” com as dimensões socioculturais, socioambientais e socioeconômicas do espaço amazônico.
É preciso ter em mente que as iniciativas tecnológicas quando desenvolvidas a partir dos potenciais locais adquirem as credenciais para compor programas de expansão, a exemplo da mandioca que encontra ressonância nas comunidades menos favorecidas do Acre e demais regiões da Amazônia.
* Trabalha atualmente no CERAT/UNESP. Conhece o Acre e já trabalhou neste Estado, para onde pretende um dia retornar |