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Pesquisa aponta que acreano não quer salvador da pátria Eleitor não pretende embarcar em aventura e dá demonstração de maturidade política |
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Há 17 anos, em 1989, a Rede Globo de Televisão produziu uma novela intitulada “O Salvador da Pátria”, cuja trama girava em torno da trajetória de Sassá Mutema, personagem interpretado com maestria pelo veterano ator Lima Duarte. Sassá era um bóia-fria inocente e analfabeto que, depois de ficar famoso por ter seu nome envolvido num duplo assassinato, foi convencido a concorrer a prefeito. Com grande apoio e clamor popular, venceu. A cidade a ser administrada por Sassá Mutema, Tangará, era marcada pelo caos e a corrupção e servia como rota de narcotráfico. Naquele cenário, ele, mesmo sem a devida experiência, tornou-se o salvador da pátria. Curiosamente, o folhetim foi ao ar no mesmo período em que o país se preparava para eleger, pelo voto direto, seu primeiro presidente da República, depois de mais de 20 anos de ditadura militar. Não se sabe se influenciado pela trama ou não, o brasileiro foi às urnas e elegeu o alagoano Fernando Collor de Mello, que contava com o apoio explicito da emissora. Mas, vitimado pelo tsunami da corrupção, Collor sofreu impeachment e saiu pelas portas do fundo da história. Nesses anos todos, os erros e acertos na democracia permitiram ao eleitor se tornar mais exigente na hora de dar seu voto, principalmente nas eleições majoritárias. Na hora da escolha da pessoa que irá gerir e cuidar do patrimônio público, a população acabou ficando um pouco mais conservadora e receosa. Candidatos com promessas mirabolantes, que não têm clareza de como nem onde buscar as condições políticas e financeiras para concretizar seus planos, passaram a ser vistos com desconfiança. Felizmente, esse sentimento parece estar bastante fortalecido no eleitorado acreano. Isso fica claro na recente pesquisa realizada pelo Instituto Data Control e publicada pelo jornal A Tribuna. Os números apurados na pesquisa são a demonstração inequívoca de que não há espaço para salvadores da pátria no Acre por um motivo simples: o Estado vive seu melhor momento em nível econômico, político, administrativo e social. Está longe de ser a fictícia Tangará. Ao conferir a vantagem percentual ao candidato da Frente Popular, Binho Marques, o acreano também está transferindo o sentimento de aprovação que tem pelo governador Jorge Viana, que herdou um Estado desmontado e sem credibilidade em nível local, nacional e internacional. Querer fomentar o discurso de que o Acre de hoje não experimenta melhoras substanciais é o principal erro do candidato da oposição Marcio Bittar (PPS). Também é falha mortal vender a idéia de que o Estado transpira corrupção em todos os segmentos. A população não acredita. O que se vê é que, cansados de seguidas administrações que confundiam o público com o privado, os acreanos não querem saber de salvadores da pátria. Quem não oferecer garantias de que vai continuar o trabalho iniciado por Jorge Viana está fadado ao fracasso nas urnas. Por que Binho cresceu e Marcio caiu Qualquer pesquisa para o governo realizada nos primeiros meses do ano necessariamente apontaria Marcio Bittar em primeiro lugar. Esse seria um fato normal - e explicável - porque o pepessista vem disputando sucessivas eleições nos últimos 12 anos, sempre procurando galgar cargos maiores. Em apenas quatro anos - de 2002 a 2006 -, Bittar entrou em três disputas majoritárias - Senado, prefeitura de Rio Branco e agora para o governo. Por ter seu nome consolidado entre os eleitores, é compreensível que seja lembrado em todos os levantamentos. Foi isso que aconteceu em maio, quando o Instituto Laser, de Porto Velho, colocou-o com 46,8% contra 24,3% de Binho Marques. Longe de comemoração, naquela pesquisa a luz vermelha começou a ser acesa na coordenação de campanha do principal candidato da oposição. Em maio, o candidato petista ainda era um mero desconhecido do eleitor, mesmo assim apareceu com mais de 20% na preferência do eleitorado. A preocupação de maio ficou maior com o início oficial da campanha. No primeiro levantamento feito em Rio Branco, principal colégio eleitoral do Estado com 193.559 num universo de 412.841 votantes, Binho aparece com 39,7 e Marcio, com 34,8%. A diferença aumenta entre os candidatos quando o eleitor é chamado a revelar seu voto de forma espontânea - Binho tem 27,7% contra 19% de Bittar. Nesse caso, o que chama a atenção é o percentual de 43% de indecisos. Os mais apressados devem ficar se perguntando o motivo de uma mudança no quadro tão rápida, já que Bittar tem o nome mais conhecido do eleitorado, tendo disputado várias eleições, e Binho era conhecido apenas com um técnico competente, sem nunca ter sido testado nas urnas. O motivo para que mudança tenha acontecido é apenas um: Binho Marques e a Frente Popular transmitem mais confiança. Com a possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reeleger, o acreano compreende que também são maiores as garantias de que os investimentos federais continuarão vindo com mais facilidade, graças à relação estreita que lideranças como Jorge Viana, Tião Viana e Marina Silva têm em nível nacional e até mundial. Bittar errou desde o início quando apostou que o discurso de rondonização do Acre iria convencer os eleitores a embarcar nas suas propostas. Não levou em consideração a luta histórica do povo em defesa das suas florestas. Ele peca quando permite que os aliados ocupem todos os seus espaços, e tempo, para atacar e agredir Jorge Viana, um governador que tem 92% de aceitação nos critérios ótimo, bom e regular. Essa aceitação de Jorge Viana está tendo um duplo efeito eleitoral: consegue levar Binho para o topo da pesquisa e empurra Bittar ladeira abaixo. Embora se apresente como candidato novo, Bittar é visto como representante da velha forma de fazer política. É encarado como uma roupagem nova de Flaviano Melo, Narciso Mendes, Nabor Júnior, Alércio Dias e tantos outros políticos que durante anos administraram de forma equivocada o Estado. Por mais paradoxal que parece, o novo é Binho Marques, que pela primeira vez enfrenta uma disputa eleitoral. Ele se enquadra nesse perfil também pelas suas práticas, ao procurar ouvir e valorizar as opiniões dos vários segmentos da sociedade. Uma outra diferença entre o candidato petista e o pepessista é que Binho tem realizações e pode fazer campanha olhando para o retrovisor, a fim de fazer projeções para o futuro. Bittar, ao contrário, não tem nada de importante para mostrar na hora que começar a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Alianças jogam papel decisivo A aceitação favorável de Jorge Viana é fundamental para que o eleitor enxergue em Binho Marques capacidade para dar continuidade ao projeto de governo implementado pela Frente Popular a partir de 1999. Mas isso, por si só, não garante a vitória. É preciso que o candidato tenha uma aliança forte, capaz de levar sua campanha aos locais mais distantes com garra, força e compromisso. Esse é um dos trunfos do petista. A prática de entrar na disputa cercado por um leque amplo de partidos foi inaugurada no Acre a partir de 1990, quando Jorge Viana disputou pela primeira vez o governo. Como se mostrou vitoriosa, essa experiência vem sendo repetida a cada eleição. Agora, em 2006, Binho não conta apenas com partidos. Tem também a força e o empenho de 18 prefeitos dos 22 existentes no Estado. Esse é um capital político que começou a ser construído com as parcerias realizadas entre o governo e as prefeituras, o que levou à adesão dos gestores municipais ao projeto da Frente Popular. Mesmo estando hegemonicamente no poder há um bom tempo, os dirigentes da Frente Popular não fecharam as portas para potenciais novos aliados. A unidade e a amplitude sempre foram marcas da coligação. Eis a explicação para as alianças formalizadas este ano com o PL e o PP. Enquanto Binho Marques e seus aliados apostam na política da junção de forças, seu adversário direto segue a política de espalhar, o que impossibilitou, por exemplo, que ele fosse um candidato único da oposição. Por inocência, ou por arrogância, Marcio Bittar perdeu aliados importantes ao longo da sua caminhada. Além de vários membros do partido sem mandato, o PPS perdeu deputado federal - Júnior Betão - e prefeitos - Celso Ribeiro (Senador Guiomard) e Ruy Coelho (Porto Acre). Os três foram para o PL. Mas uma das perdas mais importantes foi a do ex-prefeito de Cruzeiro do Sul César Messias, que retornou para o PP após ter sido impedido de concorrer à reeleição com o vice que queria nas eleições de 2002. Marcio Bittar, para analistas, irá perder as eleições porque está no momento errado, na hora errada e no Acre errado. Ele tenta apresentar um Estado para a população que não combina com a realidade vivida pelos acreanos. Não há clima de caos. O que vigora é a esperança e perspectiva de futuro melhor. Juntos para fazer mais Jorge Viana tem 92% de aprovação entre ótimo, bom e regular. Raimundo Angelim não fica atrás e aparece com 83%. A avaliação feita pelo rio-branquense demonstra que ele está gostando e aprovando as ações feitas de forma conjunta pelo governo e a prefeitura em praticamente toda a cidade. Durante anos, a população de Rio Branco optou, nas urnas, por ter um governador trabalhando para um lado e o prefeito, quando trabalhava, para outro. Pagou caro por isso. A cidade ficou praticamente abandonada, principalmente no período de 1997 a 2004. Depois de oito anos, o eleitor de Rio Branco acreditou que Angelim e Jorge Viana poderiam, desde que trabalhassem juntos, fazer mais. Os números revelam que o eleitorado está satisfeito com os resultados alcançados. E esse é outro trunfo importante para a candidatura de Binho Marques ao governo. Por ter sido realizada em Rio Branco, a pesquisa deixa claro que o morador da capital não quer mais governo e prefeitura andando de costas um para o outro. Esse retrato complica a situação de Marcio Bittar, que não faz apenas oposição ao governador e ao prefeito. Também é opositor e crítico ferrenho do presidente Lula, apesar de ter exercido cargo de chefia durante dois anos no Ministério da Integração Regional, na gestão de Ciro Gomes. Massacre na disputa para o Senado Há oito anos, quando disputou o Senado, o médico Tião Viana tinha uma parada dura pela frente. Testado nas urnas em 1994, quando concorreu ao governo, o petista teria que enfrentar quatro anos depois o então senador Flaviano Melo (PMDB), que antes tinha sido prefeito de Rio Branco e governador do Estado. Parecia improvável, mas Tião Viana pôs dianteira no seu adversário desde que foram divulgadas as primeiras pesquisas. A previsão se confirmou quando as urnas foram abertas e os votos, contados. O petista obteve 103.559 votos contra 56.857 do peemedebista. Em terceiro lugar ficou a então deputada federal Célia Mendes, com 35.233 votos. A vitória esmagadora de 1998 tende a ser considerada pequena se os prognósticos para este ano se confirmarem. Tião Viana conta com 71% da preferência eleitoral. Seu adversário mais próximo, o professor universitário Airton Rocha (PDT), aparece com minguados 5,7%. Chagas Freitas (PFL) e Núcia Canizo (PSOL) têm 3,7% cada. Com a vitória praticamente assegurada, Tião Viana poderá empregar suas energias para ajudar na eleição do companheiro de chapa Binho Marques, o que é mais um capital político a ser explorado nos próximos meses. |
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