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Neoextrativismo

Tradição somada à tecnologia

Juracy Xangai
Estradas são essenciais para melhorar
as condições de vida dos seringueiros
e índios, mas também pode
facilitar a devastação da floresta


Juracy Xangai

O conceito do neoextrativismo está baseado no sobreviver utilizando os mais diversos recursos da floresta sem renunciar ao conforto da modernidade manejando a floresta de modo sustentável.

É, portanto, uma proposta de desenvolvimento alternativo que considera tanto os fatores ambientais quanto os culturais e econômicos, renovando o modo de produção tradicional e acrescentando tecnologia para adaptar-se aos novos tempos.

Esse foi o tema do trabalho apresentado pelo geógrafo Jorge da Silva Freitas durante o Encontro Nacional de Geógrafos, com o título “Neoextrativismo no Acre: um Novo Modelo de Desenvolvimento e Organização do Extrativismo no Estado”.

Criado no seringal, veio adolescente à cidade para estudar, trabalhou na Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (Caex) antes de fazer geografia, especializou-se em organização comunitária e produção florestal e desde 1999 trabalha com borracha, sendo atualmente o gerente da produção de látex para a fábrica de preservativos masculinos que deve entrar em funcionamento ainda neste mês, em Xapuri.

Mudança de conceitos

Com a queda do preço da borracha, a castanha tornou-se o produto mais lucrativo, mas o homem da floresta manteve sua identidade seringueira e sofria com o fato de trabalhar limitado ao corte da borracha, coleta da castanha e venda da madeira.

“O marreteiro, tido como vilão, ainda que explorasse o seringueiro, era o único que os atendia. Garantiu assim o crescimento do movimento de resistência, que nos anos 70 lutava pela posse da terra, mas com o Chico aprendeu que mais importante era a floresta em si, para garantir seu meio de produção e a sobrevivência de seu modo de vida. Isso deu origem às reservas extrativistas e projetos de assentamento extrativista”, esclarece Jorge.

Nesse tempo o seringueiro ainda derrubava açaizeiros para colher um cacho, abria rombos a machado no tronco de uma copaibeira para atender uma encomenda de óleo e assim matava a árvore. O tradicional carecia de tecnologia, como usar um trado para perfurar a copaíba, extrair o óleo e fechar de novo, a fim de poder fazer outras colheitas sempre que fosse necessário.

“No sistema tradicional, os seringueiros trabalhavam com um pequeno número de produtos e que tinham um baixo preço. Dentro do novo sistema que estamos trabalhando agora, há um número muito maior de produtos. Organizados em associações e cooperativas, eles organizaram a produção e com novas tecnologias oferecem produtos com melhor qualidade, por isso alcançam preços mais altos e melhoram suas condições de vida”, garante Jorge Freitas.

Chave do sucesso

Debates à parte, segundo o próprio Jorge, o segredo da sustentabilidade do neoextrativismo está mesmo na variedade da produção e na agregação de tecnologias que, embora já existissem, não chegavam até o seringueiro para que ele conseguisse ter uma produtividades mais competitiva para entrar no mercado.

“Muitos seringueiros hoje já dividem sua colocação em taliões que são explorados de acordo com a época do ano cortando borracha, catando castanha, extraindo sementes, madeira e ervas medicinais. Hoje tiram uma média de R$ 2.300 por ano com a borracha, outros R$ 3 mil com a castanha e entre R$ 1.500 e 2.000 com outros produtos. Pode não parecer muito, mas o valor de um real no seringal é diferente da cidade, pois lá ele busca na mata ou no roçado a maioria do que precisa.”

O manejo florestal e a industrialização de produtos como a castanha, as sementes, a borracha e outros derivados da floresta como o óleo de copaíba, a andiróba e o açaí esboçam o que vem por aí. “O que ainda nos falta é termos um sistema de produção suficientemente organizado para poder abastecer a indústria na quantidade e regularidade de que ela necessita. Mas a tendência daqui para frente é a verticalização, ou seja, a industrialização dos produtos da floresta agregando a eles cada vez mais valor para que ela continue gerando, ocupação, renda e desenvolvimento. Isso é só o começo.”

Duas visões de um mesmo mundo

“Floresta: Conceitos, Usos e Recursos em Disputa”. Esse foi o tema de debates de uma das mesas-redondas mais concorridas durante o Encontro de Geógrafos. Nela o sindicalista Osmarino Amâncio reclamou do processo de utilização da floresta que vem sendo aplicado no Acre e que se estende por toda a Amazônia. Já o seringueiro e geógrafo Paulo Assis Scarin rebateu as críticas e enumerou as vantagens do sistema em andamento.

“O movimento hoje sofre um corte violento em suas propostas originais diante da obediência dos governos e de lideranças do próprio movimento aos interesses das grandes empresas. Por isso, nesse momento, o movimento está retomando sua luta contra o Estado e as empresas”, afirmou Osmarino, discordando da forma como foram concebidas as florestas públicas e da maneira como vem sendo processado o manejo florestal e de uso dos demais recursos que não estariam dando o devido recurso aos seringueiros.

Assis rebateu a crítica “Tanto o manejo quanto das demais atividades vem sendo debatido exaustivamente com a comunidade que aceita ou não as propostas. A sustentabilidade da floresta também significa que o seringueiro precisa de dinheiro para comprar o que necessita melhorar suas condições de vida. Afinal de contas, não é justo que a gente seja condenado a continuar vivendo como há 50 anos atrás”.

Ele esclareceu que, na verdade, o manejo comunitário vem trazendo lucro aos seringueiros, que assim estão podendo melhorar suas moradias. A certificação da madeira e da castanha valorizou os produtos, e as obras que o governo vem realizando na cidade e na zona rural refletem positivamente em suas vidas. “Lutamos pela preservação de nossa cultura, mas o mundo está se transformando e nós estamos no mundo.”

Ciência e tecnologia para dar sustentabilidade à Amazônia

Primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Ciências, a geógrafa Berta Beker defende que a ciência e a tecnologia têm um papel fundamental para garantir o desenvolvimento sustentável da Amazônia dentro de um mundo cada vez mais globalizado. Esse novo tempo traz novos problemas e agrava os antigos, exigindo soluções urgentes.

Esse será o instrumento que garantirá o uso responsável da diversidade biológica e dos demais recursos naturais da última grande floresta tropical do mundo. A biotecnologia identificando produtos medicinais e industriais permitirá a criação de patentes e a geração de royalties (pagamento de direitos) que trarão muito dinheiro para as comunidades locais.

“Nosso maior desafio está em promover a inclusão social da Amazônia, que é rica em recursos naturais, ao mesmo tempo em que tem uma população muito pobre. O dilema é usarmos sabedoria suficiente para criar ocupação e renda para que toda essa gente consiga ter uma melhor qualidade de vida sem que para isso seja necessário destruir a floresta”, afirma Berta. “Não existe sustentabilidade sem dinheiro, portanto, as pessoas que vivem na floresta precisam ganhar dinheiro para satisfazer suas necessidades de desenvolvimento porque têm direitos iguais aos nossos.”

Nisso, o primeiro ponto essencial está na responsabilidade pela inclusão social dessas populações respeitando as diferenças culturais e geográficas das muitas “Amazônias” que coabitam dentro da grande Amazônia. O sucesso disso depende de diversos fatores, mas o ideal seria começando a dividir a Amazônia em sub-regiões de acordo com suas diferentes populações, potencialidades e vocações.

Ameaça da internacionalização

Uma tensão cada vez mais constante e que tende a se consolidar de maneira disfarçada é o interesse das grandes potências de ter o controle sobre a Amazônia, desrespeitando a soberania nacional brasileira e os direitos fundamentais da própria população que aqui vive.

“A Agência Internacional de Ajuda dos Estados Unidos (US Aid) reuniu sua equipe em Washington e montou um plano sobre como devem ser geridos os recursos naturais da Amazônia, especialmente a água. Propõe esse projeto de acordo com os interesses dele sem perguntar o que nos interessa”, denuncia Berta Beckler.

Ela adverte: “Nós, brasileiros, precisamos estar conscientes de que somos detentores da maior parte da maior floresta tropical do planeta, do maior recurso de água doce do planeta, assim é natural que o mundo inteiro esteja de olho nisso”.

Jogo de interesses ameaça povos da floresta

Amigo de primeira hora de Chico Mendes, sendo um dos que ajudou o sindicalista a sistematizar sua idéia para a criação das reservas extrativistas que hoje estão sendo criadas em todo o mundo segundo os princípios surgidos no Acre, o professor Carlos Walter Porto Gonçalvez, da Universidade Fluminense, é um dos geógrafos mais respeitados do Brasil.

Fazendo um releitura dos problemas que vêm sendo enfrentados pelo movimento dos povos da floresta, ele nota que os princípios propostos por Chico Mendes estão sendo distorcidos pelo interesse do grande capital financeiro dentro de um panorama de uma América Latina a serviço do mercado internacional.

Ele recorda que o princípio fundamental que faz a proposta das reservas extrativistas aplicáveis em qualquer lugar do planeta está no uso comunitário da terra, ou seja, na negação da propriedade privada, mas pelo direito de uso do meio de produção. O respeito aos usos e costumes que formam a cultura de cada povo, por fim, a comunidade é quem administra a reserva através de um plano de uso múltiplo dos recursos que contém.

“Meu contato com Orlando Valverde, Chico Mendes, Osmarino Amâncio e outras pessoas do movimento me fizeram entender que eu conhecia a lógica do grande capital, mas desconhecia a visão mais abrangente daqueles que resistem à força do capital por reconhecer seus valores culturais como mais importantes que a lógica da acumulação de dinheiro. Esse foi o princípio que norteou a criação das reservas extrativistas e demais formas de preservação dessa natureza na Amazônia desde o início dos anos 80”, explicou Carlos.

Na última década, muito mudou na conjuntura mundial e sobretudo na América Latina, cada vez mais militarizada e mais à vista dos interesses internacionais pelas muitas riquezas ambientais que possui em suas florestas e jazidas minerais. “E, como se não bastasse isso, aqui também se rouba o conhecimento milenar de seringueiros e índios, o que constitui a etnopirataria. Para vencer isso é preciso ter a população participando mais das decisões coletivas, como aconteceu para a criação das reservas extrativistas.”

Em visita ao bairro da Sibéria, formado por seringueiros que deixaram a floresta para viver junto à cidade de Xapuri, Carlos Walter reviu companheiros que se identificam com essa luta da origem. Muitos deles ainda têm colocações nos seringais, mas, desempregados, obrigam-se a trabalhar na diária para os fazendeiros.

“A contribuição da geografia é dar uma visão panorâmica aos acontecimentos considerando a área geográfica, o meio ambiente e o homem. O que nos preocupa é que hoje há uma divisão causada no movimento pelos interesses econômicos que, na maioria das vezes, compromete a sobrevivência futura desse movimento construído com tanto sacrifício e com ele a preservação da própria floresta”, declarou. “Cabe ao movimento sentar, discutir e solucionar esses problemas, tomando o cuidado de não cair na dependência de outros interesses que não sejam os seus.”

 
 
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Rio Branco-AC, 30 de julho de 2006
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