OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

O que é o sucesso?

O que é ter sucesso? É ser considerado bem sucedido? É se considerar dessa forma? Ou seja, o sucesso depende da opinião dos outros e de si mesmo ou de ambos? Com grande freqüência, entretanto, ambas as formas de considerar se mostram equivocadas. O sucesso imediato frente à opinião pública tem por base o sucesso material, o prestígio, o poder demonstrado pela pessoa, sua obra e rede de relações em alcançar uma condição onde as pessoas gostariam de se encontrar. O sucesso geral exibe algo do caráter modelar que é esperado, pelo grande público, das posições que “devem” ser invejadas e, dessa forma, se relaciona mais com uma ilusão e sedução geral exercida na imaginação de uma maioria. Mas é possível que a própria pessoa, quando se considera com sucesso, possa se colocar de fora daquela situação geral? Ela é apenas, na maioria das vezes, apenas a encarnação individual daqueles anseios gerais.

Quando vemos diariamente veiculadas as condições degradantes e pouco sedutoras da docência de forma geral, deveríamos perguntar pelo motivo de tal desqualificação. Porque é a verdade, diriam vocês. Mas todas as profissões têm uma maioria de indivíduos que ganha mal e trabalha muito: quando se fala e veicula a profissão de médico, se enfatiza os que ganham bem; os publicitários, os jornalistas, os advogados e muitos outros têm uma situação parecida, mas, quando se evoca essas profissões, elas estão envoltas numa malha de sedução e não de detração. Existem muitos professores que ganham bem e essa é uma profissão que pode ter um retorno tão bom quanto qualquer outra, mas isso parece que não deve se tornar público...

Mas a filosofia nos ensina que não devemos nos deixar levar por aspectos psicológicos, ou seja, as considerações em relação aos sentimentos do ator, do espectador e de ambos não podem servir de parâmetro. As melhores e mais influentes coisas de uma época são geralmente aquelas que não exercem nenhum fascínio sobre o desejo dessa época. Aquilo que a própria época considera como melhor não é com certeza o aspecto pelo qual ela será lembrada. As maiores qualidades de um povo, época ou mesmo pessoa são invisíveis para elas mesmas. Mas o sucesso em alcançar algo dependerá sempre da percepção daqueles que a julgam como tal. Não há nenhum critério absoluto para o sucesso, mas cada época procura nas outras a encarnação daquilo que mais lhe falta. Por isso há sempre muito saudosismo atávico nas considerações sobre o passado, pois essa retomada tem mais a ver com um ideal que não se pode alcançar no momento, que não era ideal quando existia, mas que é resgatado como forma de atacar o presente. Dessa forma o passado é sempre mais moral, íntegro, belo e verás do que o presente, pois essa retomada diz respeito ao ataque em relação ao aqui e agora e não a uma consideração essencial.

Mas o passado é sempre feito no futuro. Ele é reconstruído através de uma idealização às avessas, onde procuramos, num tempo que não existe mais, os fatos que não podem acontecer no presente. Assim o paraíso é sempre perdido e o passado é sempre uma fantasia em relação a uma impotência do presente. As maiores idealizações se relacionam, então, mais com uma negação do presente do que com uma afirmação do passado.

A nossa necessidade de ideais se relaciona, em grande parte, com uma grande insatisfação em relação ao presente. Hoje as expectativas são infladas pela mídia a um ponto em que nada pode ser suficiente para satisfazer um desejo tão grande e contraditório. É comum ouvir dizer que nós hoje não temos ideais. Mas isso é verdadeiro? Ou o nosso mundo se tornou tão abstrato e onírico que nenhum passado, nenhum futuro, nada que não seja a realização imediata e sensual das necessidades criadas em nós pela nossa época, pode satisfazer? Mistura estranha e insistente! Quanto mais abstrata é a percepção que temos do mundo, mais sensual se torna essa abstração. Por isso o que nos seduz no passado é justamente aquilo não tinha prestígio ou valor para eles. Gostamos do sossego, da qualidade de vida, da sensualidade de boa consciência que atribuímos ao passado. Mas o passado, muito freqüentemente, operava uma inversão em relação ao que nós somos, ou seja, quanto mais concreta era a percepção do mundo mais abstrata ela se tornava. O prazer sensual é, portanto, a contrapartida de uma época em que nada mais parece convencer a não ser os dados mais sensoriais, da mesma forma que, Deus seria o ideal de uma época tão concreta e objetiva que apenas a superação supramundana dessas condições podia seduzir.

Por tudo isso, costumamos erigir como modelar apenas o que era considerado sem nenhuma possibilidade de sedução. Toda a sensualidade que estava confinada nos estratos mais baixos da escala de valores de outra época é o que mais nos seduz, da mesma forma, que os valores que eles idealizavam se encontram na nossa escala mais baixa. Mas quem tem olhos para isso?

Parece que a filosofia muita vezes exerceu exatamente essa função atemporal que não era visível para sua época. Ela foi buscar na superação dos valores de sua época o seu melhor e mais insistente “foco de visão”. Por isso é freqüente a referência ao fato de que um filósofo precisa de muito tempo para atingir a compreensão generalizada daquilo que ele considerava como a sua verdade mais essencial. Visto dessa forma, todo o sucesso é apenas a falsificação de uma grandeza e a verdadeira grandeza se parece mais com um fracasso. Por isso a filosofia, nas suas mais altas expressões, é na verdade o trajeto que vai na contramão dos valores da sua época e faz da negação desses valores e de si mesma o seu ideal. Na verdade, não existe risco maior do que esse “ir no sentido contrário”, pois assim o abismo se coloca como a meta e a metodologia para esse fim como temeridade. Mas para a sua época tanto a meta como a metodologia parecem como ausência, caos ou mesmo um nada almejado patologicamente. Por isso a filosofia só tem chance de não ser essa auto-destruição quando ela irrompe já na velhice, quando já se aprendeu toda a estratégia do disfarce.

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 30 de julho de 2006
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