| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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Correnteza A vida, a gente vai levando, andando, ela vai passando, quase alheia, a gente pensa que está notando, passou, pouco ficou. É para seguir em frente, não pense, não pare. A vida é para gastar, alguém entende? É preciso seguir, é bom sentir. Mas nem sempre é possível. Aqui, uma mão, minha mão, irmão, tudo isso é só um modo de dizer, a vida não vive disso, não diz, não sente frio, passa. É ela que nos leva. Do passado, grita uma ou outra saudade, sente-se alguma vontade. Mas a vida não quer saber disso, segue passando. Seguir em frente, como um rio, com chegada, com paradas, seguir é um conceito, a ida é indiferente, passa do que se imagina, define, repassa, como se passar chegasse em algum destino. Como se o rio, seguindo, deixasse de estar. Querer entender, mostrar. Será? Amanhã, não se sabe. Vou, não vou. Algo ri atrás do que penso e eu ainda nem disse ou fiz. Há todo o ontem, antes. Pra lá não dá para ir. Seguir em frente, de trás vem uma correnteza indiferente, a mão acena para o porto seguinte. Se houver depois, ontem não estará lá. É fácil cansar de não saber e não cansar de seguir. Em frente, como se existisse opção. Nada dito, pouco escutado, tudo continuaria indo, seguindo, é fácil perceber, é bom calar e olhar a vida indiferente. Mesmo agora, que o rosto sente frio. Olhar, sentir e seguir, quase tudo prossegue. Quase todos são cúmplices. Entendimentos não combinados entre pessoas e coisas que vão ficando pela vida, levadas, perdidas, encontradas, riscadas em alguma página. A viagem segue por um caminho que vai se mostrando conhecido na proporção em que o pé conclui cada passo, o remo, cada remada. É a água de um rio amazônico, que vem renovada, passando, seguindo com o rio, que durante toda sua vida vem por ali, que não pára de passar aqui, com novas águas que a terra brota. Águas que podem não conhecer o caminho do velho rio. A correnteza cruza recordações e outras águas, portos novos e boas notícias, como os olhos cruzam esta página, que logo será virada. A terra brota águas novas, que lavam olhos firmes no velho caminho. Um pouco da água vem dos olhos, do suor da testa, do beijo prometido, da chuva recebida. Hoje e amanhã são escalas, curvas e estirões. Só o acaso pode trilhar caminhos bem encontrados. Seguir, fazendo de contas que há outra coisa a fazer. Em cada íntimo, a porção do próprio sentir. Seguir, como se fosse possível não ir como o rio, roçando portos, levando tempo e águas passadas, para abastecer a correnteza indiferente. A vida é um vento frio que passa por um rosto e segue para outro, como se passar fosse caminho para algum lugar. A lua de ontem já voltou, mas vento que aqui estava já não há. E eu havia segurado a lua clara, para dar a um grande amor, que agora passou. O tempo levou tudo. Até o sol, que agora ali está chegando, indiferente. Nada disso é para movimentar, nada disso faz pensar. Sem ter para onde ir, o seguir não é caminho. Tudo isto serve de bagagem ao tempo, tudo isto é para passar. Cada um tem a sacola em que carrega suas dores e amores. Sacola para guardar beijos dados e perdidos, olhos que ficaram ou seguem sem destino, algum peito alegre, ferido, esquecido. Não há troca nem extravio de bagagem. Cada uma, só a suporta o próprio dono. Tudo vai seguindo ou quase tudo vai ficando, como se o vento tivesse asas, como se o pensamento fosse capaz de estacionar, como se o rio pudesse parar a correnteza. Essas coisas são assim mesmo. Vão ser lidas e esquecidas, bem antes de outra página virar. |
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