| OPINIÃO | ||
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Maria Regina Canhos Vicentin * |
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| Gestação: castigo ou benção? O título é sugestivo e tem o objetivo de chamar a atenção para um assunto polêmico, porém pouco discutido em função de preconceitos com relação ao tema. A visão das mulheres é contraditória, embora poucas tenham coragem de admitir isso. Propaga-se a idéia de que a maternidade e, consequentemente a gestação, são extremamente gratificantes para a mulher e que ela deveria sentir-se abençoada pelo fato de poder carregar por nove meses um bebê em seu ventre. O apelo para esse lado sublime é tão grande que, quando a gestação é sentida como desconfortável, a mãe é vista como desnaturada. Ora, mas o que é isso? Maternidade e gestação são duas coisas completamente diferentes. Maternidade se refere à qualidade de mãe, a quem possui um filho. Gestação é o fenômeno de desenvolvimento do produto da fecundação dentro do útero. É necessário separar esses dois eventos, até porquê eles possuem implicações diversas. A maioria das mulheres que quer ter filhos assume de bom grado a maternidade, podendo se sentir cansadas, porém compensadas em seu desejo de ser mãe, principalmente com o desenrolar dos dias, após se familiarizarem às funções maternas, desempenhando-as com segurança. A gestação, entretanto, é vivenciada de maneira diversa entre as futuras mamães, existindo um verdadeiro tabu em torno disso, uma vez que as gestantes que apontam esse período como desagradável são confundidas e, não raras vezes rotuladas, como mães que rejeitam seus bebês. Isso é um verdadeiro absurdo! A gestação não ocorre de igual forma para todas as mães. A nível emocional, algumas experimentam a sensação de onipotência, sentindo-se encorajadas e fortes; enquanto outras vivenciam uma sensação de profunda fragilidade e dependência, acovardando-se diante de tarefas insignificantes. Além disso, fisicamente a coisa também ocorre de forma diversa. Enquanto algumas relatam desconforto mínimo ou inexistente e, muitas vezes restrito aos três primeiros meses de gravidez, outras padecem os nove meses com dores, azia, falta de ar, cansaço excessivo, cãibras, irritabilidade, labilidade de humor, excesso de peso, alteração na pressão arterial e inchaço, entre outras possibilidades, que um médico ginecologista poderia elencar com maior propriedade. Ora, é muito difícil uma gestante que enfrenta tamanho incômodo, andar sorrindo pelos quatro cantos durante os nove meses de gravidez. Mas, é aí que está o porém. Ai dela se alardear suas dificuldades e sofrimentos. Vai amargar a reprimenda de 90% das mulheres de plantão. Até daquelas que passaram igual situação e já se esqueceram ou não querem remar contra a maré, pois a hipocrisia reina solta quando o assunto é manter o caráter sublime do “ser mãe”. Como mencionei, tem-se dificuldade em separar maternidade de gestação, então, se você abrir a boca para reclamar que seu pequeno bebê a está chutando muito, não faltará quem lhe diga que o está rejeitando ainda dentro de seu útero. Acreditar nisso, entretanto, só lhe trará um profundo sentimento de culpa totalmente desnecessário, e fundado em motivos irreais. Quer um conselho? Deixe “entrar por um ouvido e sair por outro” esses comentários ridículos de quem não sabe o que você está passando física e emocionalmente. Não vá piorar seu estado desconfortável com observações que em nada edificam, apenas refletem o preceito social de que “ser mãe é padecer no paraíso”. Você já imaginou alguém “padecer no paraíso”? Ao que parece, padecer está mais pra inferno do que pra paraíso, não é mesmo? Então, não se abale com esses comentários. Enfrente sua gestação com paciência, pois logo logo tudo isso vai passar e você vai experimentar um grande alívio. Mais leve, mais calma, e mais confortável com o seu corpo e com você mesma, tudo terá um aspecto mais favorável. Você perceberá que sempre amou seu bebê, e que a rejeição de que tanto lhe falavam, relacionava-se tão somente ao mal estar experimentado durante a gravidez. Fique tranqüila! Você não é a única a se sentir assim. Outras também sentiram, mas preferem calar ou mentir por falta de coragem. É difícil enfrentar o desconforto, mas mais difícil que isso é enfrentar o preconceito da maioria. Deixe isso pra lá e seja feliz, mamãe! * Psicóloga e autora dos livros: Sementes de Esperança e do lançamento: Temas do Cotidiano, ambos da Editora Santuário. Nas melhores livrarias do país ou ligue grátis: 0800-160004. |
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