OPINIÃO
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Josué Fernandes

 

Histórias contadas pra Regina

Política e Verdade são valores indissolúveis, uma espécie de composto que só funciona na exatidão do tempo. Como dizia Fernando Pessoa, tudo ao seu tempo! Após julgar ter concluído a caminhada que iniciei precocemente por caminhos e veredas nem sempre fáceis de trafegar ora por trechos bons e plainos, ora por trechos de pedregulhos, tabocais e muitos pântanos, alguns fétidos, repletos de piranhas e jacarés, senti-me estropiado. Ufa!

Concordo com uma das máximas de Dom Helder Câmara que ensina (...) “Começar bem é uma graça divina, graça maior é persistir na caminhada, podendo ou não podendo ir até o fim” (...) Pronto. Eu tinha sido batuta, chegara ao final.

Mas o bom mesmo é que a vida ensina que o final estabelece um novo começo. Mas não é fácil começar, nem recomeçar. Haja imaginação. Para mim tornaram-se imperiosa duas coisas: o auto-exílio e o silêncio. Explico: aprendi que no exílio o homem purifica enormemente a alma. Aristóteles, Victor Hugo, Napoleão encontraram no exílio o mais alto grau da razão. Mas porque ir tão longe se tem no Brasil nomes não menos ilustres como Pedro II, Juscelino K. de Oliveira, Leonel Brizola, Caetano Veloso, e tantos outros que encontraram no exílio um sentido maior para suas vidas. Aqui mesmo no Acre, o jovem governador José Augusto de Araújo, excluído e proscrito no Rio de Janeiro terminou seus dias coberto pelos valores mais sublimes da vida humana: a honra e o amor.

Por isso, os caminhos da vida me levaram ao “exílio” não do tipo e das circunstâncias idênticas daqueles já citados, porém, igual na sua essência. E isso só é possível se houver silêncio para permitir, de forma combinada, a compreensão concreta da aparência e da essência. É como se estivéssemos dentro de um observatório olhando tudo e todos com os sentidos bem apurados.

Assim, fiquei restrito a sala de aula e dali para o meu “casulo” no ramal Guarani - Quinarí. Devorei livros. Fiz verdadeiras “viagens” no tempo, sempre com o pé no chão. Fiz novas amizades com a vizinhança camponesa, apaguei lembranças de serpentes peçonhentas, lembrei-me vivamente de pessoas decentes que um dia me ajudaram a caminhar bem.

Aí o silêncio que não era “obsequioso” fora quebrado, de forma “lenta e gradual”. Escrevi uma espécie de manifesto explicando a decisão de deixar o Partido e concedi três entrevistas temáticas a estudantes de Jornalismo e Ciências Sociais. Senti aprovação de minha atitude.

Quando a gente chega ao cume de uma ruptura já não sente dor, mas a sensação de alívio capaz de aflorar os bons pensamentos e as lembranças também. E a gente não pode prendê-las. É Como água procurando curso.

Então, desandei a desarquivar histórias pra Regina. Muitas, elas já sabia, outras não. Contei amiúde àquelas que estavam cuidadosamente guardadas. Eis uma:

Em 1973, em pleno tempo de chumbo, resolvi casar. Comprei um terreno e me preparei para construir um barraco de 6 x 4. E comecei num dia de segunda-feira, os carpinteiros começavam marcar o esqueleto da casa, quando chegou um homenzinho branco, óculos de aro, posto debaixo do braço.

- Quem vai morar aqui? Indagou.

- Eu, respondi. E completei: vou casar.

- Ih! Não vai dar não, rapaz.

- Numa casinha desse tamanho? E os teus filhos ficarão como? Às vezes sou construtor. Tô construindo um teatro na Estação Experimental. Passa lá.

Aí se acocorou, riscou num papel uma planta indicando o tamanho real de uma casa para mim: 6m x 8m.

- O senhor tá louco?

- Amanhã, passe lá na obra. Adiantei a pauta do jornal que trabalhava e cheguei às 10h30minh da manhã. Vi poucos operários e o homenzinho no meio deles trabalhando. Quando me viu, veio logo.

- Aqui está a idéia da sua casa. Olhei e não entendi nada.

- Explico rápido: sala de visita, área, sala de jantar, quarto com suíte p/ casal, cozinha, dois quartos, um pequeno escritório, e nesse cantinho do terreno terá uma pequena piscina para seus filhos brincar.

- O senhor tá doido? Estourei.

- Não, você vai precisar. Isso será feito devagar e o pagamento é de acordo com os módulos, você nem vai sentir. Deixe comigo, rapaz.

A planta é essa, vá à prefeitura e cuide dos papéis, ordenou.

Incrédulo, com o miolo ardendo, obedeci, legalizei a planta e uma semana depois o serviço começou. Fiquei animado, minhas idas à obra da Estação Experimental ficaram freqüentes, onde ele falava com entusiasmo contagiante sobre o Teatro Horta, obra social iluminada para aqueles tempos trevas. A classe dominante da época achava que teatro era coisa de subversivo e vagabundo. Tanto que ninguém quis construí-lo. O dinheiro disponibilizado para fazê-lo era pouquinho mesmo assim seu Arnóbio topou fazê-lo com o carinho de um artesão refinado. Passei a escrever sobre a função social da Horta.

“Escreva aí dizia: aqui a meninada terá oportunidade para desenvolver talentos”. Um dia o teatro ficou pronto e as atividades eram intensas. Palestras, peças, musicais, tudo mais se desenvolvia ali. No dia da inauguração do T.H., seu Arnóbio ficou lá no meio do povo. Era tímido, porém feliz. Na semana seguinte escrevi: construtor social não obtém lucro. E não obtém mesmo, o lucro estava no sonho de boa parte da juventude, daquela época autoritária. Por ali passaram palestrando Glauber Rocha, Guarnieri, Augusto Boal e Márcio de Souza.

Antes do final daquele ano, minha casa ficava pronta, uma mansão por assim dizer. Como já havia pagado boas parcelas, o restante quitei no ano seguinte, aproveitando gorda indenização do jornal que trabalhava.

Ali, Regina, na Rua São Paulo, 586 nasceram meus filhos: Áurea, Wagner, Fábio, Fabiola, e Vladimir, e cresceram brincando na piscina e na rua. Até que um dia o progresso sem planejamento a destruiu, só restando hoje escombros da obra do artesão Arnóbio e do seu mestre de obras, Odilon.

Os muitos caminhos da vida me fizeram perdê-lo de vista.

Tempos depois esses caminhos me fizeram conhecer outro Arnóbio, o filho. Igualmente como o outro. A mesma estrutura, óculos de grau, também artesão. O vi muitas vezes no teatro trabalhando nos eventos que nem uma formiguinha.

A ficha caiu logo: aquele menino só pode ser filho do meu construtor. Acertei.

Não passou muito tempo, o encontrei nos corredores da UFAC na condição de calouro.

Aí vieram os grandes projetos de pesquisas: História do Acre, Hanseníase e Migração e Ocupação da Terra do Acre, coordenados no inicio pelo prof. Rômulo de Andrade e finalizado pelo prof. Valdir Calixto. Virei Pesquisador das fontes primárias e secundárias desses projetos. Redigi os principais capítulos do projeto Acre: Uma História em Construção, com a orientação zelosa do prof. Valdir Calixto.

O aluno Arnóbio, como o Valdir chamava-o, classificou-se para bolsista do Ocupação da Terra do Acre. As Andanças foram imensas nas praças de Manaus, Belém e municípios do Acre, nos arquivos comerciais, públicos e pessoais.

Cursos de preparação e aperfeiçoamento, nas áreas de pesquisas, metodologia, planejamento de fichamento e técnica de história oral. As aulas eram ministradas por grandes nomes nacionais como Ciro Flamariom Cardoso, Eulália Lobo, Eunice Canabrava, Bessa e outros bambas do momento. E o aluno Arnóbio participando que nem um artesão.

Desenvolveu um paciente método de fichamento que consistia em pedaços grandes de papéis com resumos em espaços bem esquadrinhados, de modo que na hora de apresentar os resultados ele manejava aquilo tudo com a calma de um ourives ou relojoeiro montando pequenas peças, um perfeito artesão. Assim ninguém era excluído, ou ficava sem tarefa.

Naquele momento lembrei que o Arnóbio era comparável ao jogador de futebol Mário Jorge Lobo Zagallo. O “formiguinha” de ouro do Botafogo e da seleção Brasileira de 1958 e 1962. Construía o tempo todo. Um dia disse isso a ele.

Ai já não tinha domínio do mapa geográfico dos caminhos. Deixei a pesquisa e os jornais e entrei de cabeça no magistério e na lida administrativa da educação. Assumi a pasta da educação com os olhos voltados no belo trabalho deixado pela professora Íris Célia Cabanellas.

Aproveitei o que pude.

Percebi que para avançar no citado projeto carecia juntar-me ao movimento social. Xapuri, terra conflitada à época, por isso mesmo seria o local ideal para começar com o sindicato rural de lá, naquele momento querendo implantar projeto educacional para filhos de seringueiros.

Chequei lá com uma equipe técnica da SEC cuja ideologia visivelmente contraria. Estava ali em obediência ao “Comandante”, como alguns me tratavam como forma de dissimular suas discordâncias.

Quando pisei no auditório do principal colégio da cidade, o antigo Instituto Divina Providência, vi logo em primeiro plano o Arnóbio. Ai em forma de círculo fomos direto ao assunto.

O artesão tinha o esboço do projeto constando do necessário para funcionar. A equipe técnica não teve saída diante de coisa tão concreta. Deram formatação devida e em exatos trinta dias foram aprovados e liberados os recursos financeiros pela Secretaria Geral MEC.

Enquanto que a rota de implantação dessas escolas saia do Seringal Cachoeira até encostar-se à localidade da Alcobrás. Desse projeto contava trinta e duas escolas que seriam feitas com supervisão direta do sindicato, auxiliado pelos técnicos da SEC.

Dezoito delas foram construídas e funcionaram até 1990 quando deixei a SEC, com professores locais que receberam treinamentos, material escolar. O Arnóbio deu conta da tarefa que lhe coube, do mesmo jeito que o Zagallo fazia: construindo... construindo até o gol sair.

Quando a exaustiva discussão em 1987 para implantar o PCS do Magistério reposicionando direitos retroativos até a aprovação da lei Nº 14 pela Assembléia Legislativa, o artesão estava lá, discreto, construindo...

Vamos para frente. O telefone de minha casa toca. Do outro lado da linha: - o secretário está lhe convidando para receber uma homenagem da UNDIME, aqui na SEMEC.

- Ok. Obrigado.

Lá chegando estava o Arnóbio sorridente com todos os secretários Municipais de Educação do Acre, festejando a reconstrução da entidade que eu fora secretário-geral indicado pelo Fórum Nacional que a criou em 1985. Daí a homenagem. Fiquei emocionado.

Anos depois cheguei pela manhã para uma sessão no Conselho Estadual de Educação e exato naquele dia dois “jornalistas” acometidos de esquizofrenia aguda haviam-me imputado acusações que se verdadeiras e, depois de capituladas, me dariam mais de cem anos de reclusão.

Os conselheiros se reportaram à “matéria” publicada na tentativa de levantar meu animo. Mas, em poucas palavras a solidariedade mais profunda, leal e fraterna, sem desmerecer ninguém, veio do conselheiro Arnóbio Marques.

No jogo duro da política poderia ter ficado calado. Ele não. Afinal, quem estava ali era um adversário político.

Ali me senti verdadeiramente desagravado, fiquei tão leve que saí sem agradecer. Se alguém deveria me defender seriam os meus correligionários. Ficaram calados até hoje, graças a Deus. Já era tarde na noite fria de Brasília e eu precisava fechar a história pra Regina.

Então - continuei - em abril de 2005 o telefone tocou.

Do outro lado:

- Professor Josué Fernandes, aqui tem um convite e o Secretário quer lhe entregar.

O encontrei sem formalidades na porta de gabinete com o papel na mão, muito sorridente:

- Olha aqui, rapaz, que maravilha! Você merece! Falou-me numa euforia verdadeira.

Olhei, li e vi que se tratava de um prêmio ONU-UNESCO-CONSED, com solenidade, hora e data marcada no salão Villa Lobos, no teatro Nacional de Brasília. Na mesma data eu seria empossado membro efetivo do Conselho Nacional dos Secretários de Educação do Brasil.

- Rapaz, não vou não. Não posso. Reagi.

- Vai sim, você ainda pode levar um acompanhante. Tá escrito aqui, passagem, tudo. E completou. Se der errado nós pagamos.

Peguei meu filho e fui. Tudo certo, lá.

O resto, Regina, você viu: solenidade, placa, medalha, pergaminho e a foto na galeria dos presidentes do CONSED, presidido por mim no Biênio 1987 – 1989.

Aprendi de vez que história e verdade caminham juntas. Só que o fecho dessa história eu farei dia 1º de outubro. Confirmo.

 

 
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Rio Branco-AC, 30 de setembro de 2006
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