| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
||
105 anos Há duas semanas publicamos artigo relacionado aos combates da Volta da Empreza. Afinal esta semana se completam 105 anos desde que as forças revolucionárias acreanas escolheram o dia 5 de outubro de 1902 - não por acaso dia de São Plácido - para iniciar o ataque definitivo às forças bolivianas aquarteladas em Rio Branco e tornaram famoso um “corneta” do exército acreano. As primeiras chuvas de outubro chegaram, como chegam todos os anos às margens dos rios acreanos, e encontraram uma terra varrida por tempos de guerra. A ameaça do domínio estrangeiro agora era uma realidade. O sangue tingia as águas que anunciavam o inicio do inverno amazônico. Na cidade, que mais tarde seria conhecida como Rio Branco, a população assistia atemorizada ao primeiro grande combate do exército formado por centenas de seringueiros, e o resultado desse combate poderia determinar os rumos da guerra.
Uma cidade em guerra 15 de outubro de 1902. Fazia 11 dias desde que começaram as lutas na Volta da Empresa. Agora, não se tratava mais de simples emboscadas nos varadouros e barrancos do Acre. Dessa vez era guerra de verdade. Os militares bolivianos haviam derrotado, pouco menos de um mês antes, os mal armados e mal treinados seringueiros que, comandados por Plácido de Castro, se constituíam ainda num arremedo de exército. Com isso, a Volta da Empresa (Rio Branco) se tornou domínio boliviano e junto com Puerto Alonso (Porto Acre) passara a se constituir numa de suas praças fortes. Era preciso reagir logo uma vez que a notícia da derrota havia se espalhado rapidamente pelos rios acreanos e poderia levar seringalistas e seringueiros a desmobilização, pondo fim à Revolução. Por isso, o comando revolucionário do exército acreano, reunindo cerca de trezentos homens, decidiu atacar o inimigo ainda no dia 05 de outubro. A inferioridade numérica dos bolivianos, que não passavam de 180, era compensada pela presença de extensas trincheiras e pelo alambrado que protegiam o acampamento principal boliviano. Isso tornou a luta muito penosa. Os acreanos não podiam atacar diretamente as fortificações, sob pena de serem fragorosamente derrotados. A única forma de conquistar as trincheiras inimigas seria escavando trincheiras que em zigue-zague, lentamente se aproximavam das posições bolivianas. Foram dias terríveis para ambos os lados em luta. Os mortos que tombavam nas trincheiras não podiam ser removidos por causa das balas que a todo o momento cortavam o ar pesado do campo de batalha. Logo a decomposição dos corpos tornou a permanência dentro das trincheiras, meio alagadas pela chuva, insuportável. Porém, a cada dia, a vitória acreana ficava mais evidente. O grande temor boliviano era de que o boato que circulava nas linhas de combate fosse verdadeiro. Dizia-se que os acreanos, cujas posições estavam a apenas seis metros da ultima linha de trincheiras bolivianas estavam prestes a executar o ataque final, onde não utilizariam armas de fogo, mas tão somente armas brancas. E não havia boliviano que não conhecesse a terrível fama dos punhais dos cearenses, que eram manejados com extrema destreza e, em tempos de guerra, crueldade. Diante disso tudo, no dia 15 de outubro, o Coronel Rozendo Rojas, comandante das forças bolivianas, finalmente se decidiu pela rendição. Assim, a velha Volta da Empresa, hoje Rio Branco, voltou a pertencer aos acreanos e a primeira grande vitória do exército revolucionário encheu de esperança o coração daqueles homens que somente queriam o direito de ser o que eram... brasileiros.
Pio Nazário A propósito do segundo combate da Volta da Empreza um personagem, praticamente desconhecido pela maioria dos acreanos, chama a atenção por sua singularidade. Infelizmente sabemos muito pouco sobre a vida desse homem, apesar de ser até hoje nome de rua em Xapuri, do qual não possuímos qualquer imagem ou fotografia. Entretanto a participação de Pio Nazário, um negro de origem incerta, na revolução revela a grande variedade de origens e identidades dos homens que compuseram o mambembe exército revolucionário acreano, além de por em relevo a importância da participação desses homens comuns nos acontecimentos que culminaram com a anexação do Acre ao Brasil. Aparentemente Pio Nazário era um homem de Xapuri tal como o Cel. José Galdino, proprietário do Seringal Liberdade, e o Dr. Epaminondas Jácome, médico que participou da Revolução e que posteriormente se tornaria o primeiro governador do Território Federal do Acre unificado. Essa conclusão é possível devido ao fato de que a única referencia que conhecemos acerca desse personagem é fornecida pelo jornal Correio do Acre de Xapuri de 6 de novembro de 1910, ao narrar os acontecimentos do grande combate da Volta da Empreza, travado em Rio Branco entre os dias 05 e 15 de outubro de 1902. E é assim que aquele jornal descreve a participação do então famoso Pisa nas azas naquele combate. “Defendendo o barracão Leon Hirsch, do lado do varadouro de Miguel Cunha, havia uma trincheira dos bolivianos, que muito hostilizava o transito no caminho dos acreanos em volta da linha de fogo, por cuja razão, Plácido faz convergir para ela grande parte dos fogos das forças do baixo Acre, mandando atirar umas 6 flechas com sernambi inflamado sobre uma barraca próxima à trincheira inimiga para incendiá-la porem sem resultados práticos. Então o capitão Ernesto Costa (italiano) a quem pertencia a lembrança das flechas, havia preparado grandes bombas, porem era necessário haver quem entrasse no campo para atira-las, e por tal razão despertou a lembrança do coronel Plácido, que resolveu fazer a sorte; nisto um pretinho, corneta Pio Nazário, por alcunha Pisa nas azas, oferece-se para a arriscada comissão, e as nove daquela noite, precisamente determinadas, para distrair o inimigo, combinou-se lançar fogo em uma certa barraca conhecida por barraca do paradeiro, o que se fez com toda precisão, e então o bravo Pio Nazário, parte de cachimbo a boca, como se sua vida fosse invulnerável, chega ao aramado, acende a bomba, atira-a dentro da trincheira adversária e a sorrelfa volta ao lugar “Samaúma” de onde havia partido para tão arrojada empresa, sem que nada lhe acontecesse apesar de sempre ter de explicar ao coronel Plácido como havia desempenhado de tão determinada comissão, tal se a cousa mais natural houvesse ido fazer, ficou por seus companheiros conhecido por Pisa nas azas.” |
||
|
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Com Leonildo Rosas |
|
|