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Fundador do CDI diz como é sonhar e viver a realidade da informática no Brasil “O que se busca é que as comunidades interfiram na internet, pois a proposta é preservar os valores dos povos da floresta” |
![]() Rodrigo Baggio |
Rodrigo Baggio é um dos grandes empreendedores sociais do Brasil. Fundador do Comitê Para Democratização da Informática (CDI), ele alimenta o sonho e a esperança de milhares de pessoas –e o seu próprio –de um dia todos terem acesso ao que a tecnologia da informação oferece de melhor, usando-a como instrumento de transformação do mundo individual e coletivo. Desde seu escritório no Rio de Janeiro, onde vive o corre-corre de administrar o sonho que virou realidade, Baggio concedeu a seguinte entrevista: Desde que o senhor decidiu colocar um sonho em prática fundando o CDI, o que mudou para a juventude e a população brasileira de um modo geral? Baggio - Em 12 anos de atuação, quase 600 mil brasileiros foram beneficiados pela ação do CDI, sobretudo jovens. Mas acredito que nossa principal contribuição está na forma como viabilizamos a inclusão digital. O CDI trabalha com uma proposta político-pedagógica — com base em conceitos do educador Paulo freire — que enxerga o computador como uma ferramenta cidadã. Ou seja, consideramos a tecnologia um poderoso meio de conhecimento e transformação da realidade, desde que indivíduos conscientes e empreendedores estejam à frente desse processo. Por isso, nas escolas do CDI, inclusão digital é a soma de educação, tecnologia, cidadania e empreendedorismo, e há uma participação ativa de educandos e educadores nos conteúdos ministrados. Como o senhor vê a democratização da informática e os processos de inclusão digital no País e na Amazônia? Baggio - Hoje existem mais de 100 iniciativas distintas em inclusão digital, abrangendo praticamente todos os estados, mas ainda nos falta uma verdadeira política pública na área. Recentemente, o governo federal decidiu criar uma comissão para coordenar e gerir melhor os seus próprios projetos, mas só isso não dá conta da pulverização de esforços e recursos ao longo dos anos. A sociedade civil precisa ser chamada a participar das discussões e decisões, precisa ser consultada, pois há muitas experiências bem-sucedidas no terceiro e no segundo setor que podem servir de parâmetro para o governo. Além disso, temos uma série de questões estratégicas a serem postas na mesa, como as formas e os custos de conexão à Internet; a deficiente infra-estrutura da maioria dos municípios do País; a situação precária das escolas públicas e a falta de capacitação para o uso da tecnologia. Não há maneira de enfrentar tamanhos desafios sem diálogo e ações convergentes. Por isso, é importante desenhar parcerias entre todos os setores da sociedade. Fale sobre o Acre nesse contexto: as Escolas de Informática e Florestania, quais informações tem sobre elas? Baggio - As EICs indígenas do Acre, conhecidas como Escolas de Informática e Florestania, são parte do projeto Rede Povos da Floresta. É um movimento social criado em 2003, que envolve diversas comunidades tradicionais da floresta - e grupos de apoio a essas culturas. O projeto nasceu como um programa especial do CDI, da ACMA (Associação de Cultura e Meio Ambiente), do Núcleo de Cultura Indígena, do Conselho Intertribal e da Comissão Pró-índio do Acre, em parceria com a empresa de tecnologia Star One (da Embratel) e apoiado pela Comissão Pró-Índio do Acre. Em um segundo momento, houve também o apoio da União Européia. Sua proposta inicial era interligar as aldeias indígenas e conectá-las à Internet, como forma de defender e preservar a cultura dessas comunidades. Faziam parte do projeto as populações Ashaninka (AC), Yawanawa (AC); Guarani (RJ) e Xakriabá (MG). Hoje, o objetivo da Rede Povos da Floresta vai além de promover o acesso às tecnologias da informação e comunicação. A alfabetização digital vem acompanhada de outras formações, como produtos e serviços sustentáveis, educação e gestão ambiental, reciclagem e metareciclagem(apropriação de tecnologia em busca de transformação social) e a rádio-escola. Desta forma, as comunidades formarão uma verdadeira malha digital de monitoramento, vigilância e educação. Com o auxílio de meios eletrônicos, a Rede Povos da Floresta busca reeditar a experiência da Aliança dos Povos da Floresta, fundada nos anos 80 por Chico Mendes e tantos outros que continuam a luta pelo desenvolvimento sustentável. O acesso à Internet é fundamental nesse processo, mas o que se busca é que as comunidades interfiram na Internet e não ao contrário, pois a proposta é justamente preservar os valores dos povos da floresta e suas tradições. Segundo lideranças indígenas, a Internet tem sido uma aliada dos povos indígenas na conquista e garantia de seus direitos.O CDI continua vinculado ao projeto, participando de suas ações e eventos e prestando todo o apoio necessário. Quais os exemplos de experiências bem-sucedidas de inclusão digital no âmbito do CDI? Baggio - Temos inúmeras experiências de êxito na Rede CDI nascidas a partir de alunos e educadores de nossas Escolas de Informática e Cidadania, e envolvendo a comunidade. Posso citar a criação de cooperativas de trabalho, seja na área de tecnologia, agrícola, de artesanato, de reciclagem e outras; a realização de campanhas e ações em favor do meio ambiente, como reflorestamentos; e o desenvolvimento de projetos envolvendo mídias, como rádios comunitárias e vídeos digitais. Já no plano pessoal, constatamos um ganho de auto-estima, conquista de oportunidades profissionais, a retomada dos estudos e, principalmente, a capacidade de voltar a sonhar com o futuro. Na área social, quando você muda a vida de uma única pessoa já está fazendo a sua parte, já está ajudando a melhorar o mundo. E exemplos de iniciativas que conseguiram superar as dificuldades próprias dos governos? Baggio - Gerir e acompanhar projetos de diferentes ministérios, e que se estendem a vastas áreas do território nacional, são obstáculos para o estabelecimento de prioridades e também para um desempenho mais qualitativo por parte dos governos no campo da inclusão digital. Já organizações do terceiro setor e empresas atuam por outros caminhos, amadurecendo melhor o formato de seus projetos, aprendendo com seus erros, discutindo suas práticas, democratizando suas decisões e trocando informações para aperfeiçoar o trabalho que executam. Mas uns e outros têm tanto a ensinar quanto a aprender; por isso, precisamos sempre pensar em termos de soluções construídas colaborativamente.Não cabe, aqui, citar iniciativas específicas, mas fazer menção à existência de inúmeras instituições e empresas brasileiras que implementam ou apóiam programas muito interessantes de inclusão digital. É uma forma de colocar o Brasil no cenário da modernidade e, no caso das empresas, de exercer a responsabilidade social. Por região brasileira, quem mais fala de inclusão digital é/são... Baggio - Os grandes debates quase sempre começam pelo Sudeste e pelo Sul e acabam alimentando o restante do País. Mas, hoje, o tema da inclusão digital está na ordem do dia e os fóruns de discussão se multiplicam e se ampliam cada vez mais. A sociedade parece compreender melhor a importância dessa causa, que agora se estende às universidades, às pesquisas, à mídia e às salas de aula em geral.Já é possível considerar que uma parte da população percebe o papel da tecnologia no seu dia-a-dia e na sua qualidade de vida; e faz o link entre computador e aquisição de conhecimento, rede de relacionamentos, integração à sociedade da informação... Como os políticos do mundo, e em especial os brasileiros, têm agido para promoção da inclusão digital? Baggio - Eu diria que há políticos nossos preocupados com a inclusão digital, o que se manifesta através de projetos de lei, apoio a programas e discursos, mas os avanços nessa área são muito mais frutos de ações e atitudes da sociedade civil organizada. Uma sociedade que se organiza consegue, aos poucos, se articular de tal forma que não existe jogo político-partidário ou até mesmo poder público que não a respeite e a reconheça. As ONGs, em particular, principalmente nos países menos favorecidos, vêm ocupando espaços que o poder público não consegue preencher e causando um significativo impacto social. |
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