ESPECIAL
   ENTREVISTA

‘Não renuncio porque não sou um político profissional’


SecomTião Maia De Cruzeiro do Sul

Hoje, 31 de março, 44 anos depois do levante militar que impingiria ao país uma ditadura que por mais de duas décadas tolheu a liberdade e limitou a democracia em relação ao voto popular, de Norte a Sul do país, políticos ocupantes de cargos no Executivo, de todos os matizes ideológicos, vivem um dia de angústia. É que hoje é o prazo limite para as desincompatibilizações de cargos para quem deseja concorrer às eleições de outubro, daqui a exatos seis meses.

Para quem ainda tinha dúvidas sobre a permanência ou não de Jorge Viana no governo até o fim do mandato, o próprio governador veio ontem, em Cruzeiro do Sul, para dizer que vai permanecer no cargo e que não teme ficar sem mandato pelos próximos anos, ainda que reconheça os riscos, inclusive a sua vida. Mais do que ninguém, Jorge Viana sabe que vespeiros e nichos de corrupção teve que combater para devolver ao Estado um mínimo da dignidade que a população acreana hoje experimenta. Na entrevista a seguir, o governador fala dos riscos de ficar sem mandato, das obras que pretende concluir e outras que pretende lançar até o fim do ano, da confiança na vitória de Binho Marques como seu sucessor e da luta que vem travando com o mais duro dos inimigos enfrentados até aqui no Juruá: o mosquito transmissor da malária. Eis a entrevista

Governador, o senhor não renuncia o mandato hoje, como vão fazer em todo o país centenas de governadores, prefeitos, ministros e outros políticos?

Jorge Viana – Não renuncio. O que, para alguns, é o último dia de trabalho, para nós é mais um início de mês, início de mais uma etapa, na qual estamos mais uma vez pondo as nossas energias para levarmos cada vez mais à frente tudo que estamos fazendo em busca de melhoria de vida para o nosso povo. No caso, aqui em Cruzeiro do Sul, estamos fazendo mais uma viagem de trabalho para sabermos em que podemos ajudar ainda mais no combate à malária, esse mal que tanto vem afligindo o nosso povo.

Ao que tudo indica, a malária tem sido de fato o grande calcanhar de Aquiles do governo nesta região do Juruá. O mosquito transmissor da doença continua a levar vantagem nesse jogo?

Jorge Viana – Não está levando. O governo tem feito tudo que tem estado ao nosso alcance, fazendo o possível e buscando até o impossível para combater a doença. Graças a esse esforço, os números da doença já começam a mudar favoravelmente, mas ainda há muito trabalho pela frente. Assim que cheguei a Cruzeiro do Sul, fiz de imediato uma reunião com os coordenadores locais do programa de combate às endemias e fui informado de que em muitos lugares da região a comunidade tem ajudado, mas há locais onde não há ajuda alguma aos borrifadores e outros funcionários. Inclusive há informações de que houve até um episódio de agressão das pessoas em relação aos servidores da Saúde por parte de cidadãos que não querem ter suas casas borrifadas. Quero dizer que o governo vai agir para garantir a realização do trabalho, que é fundamental para que a gente consiga diminuir a malária. É preciso ficar claro que a população do Juruá e da Amazônia inteira está passando por um momento difícil, com dramas daqui até Belém do Pará, por causa da malária, mas aqui estamos, graças a Deus, encontrando o caminho do controle, conseguindo diminuir pela metade o número de casos da doença. Mas ainda está longe dos níveis que a gente quer.

Há então resistência das pessoas em relação às ações de combate aà doença?

Jorge Viana - Infelizmente. Há quem ache que a borrifação nas casas não resolve o problema e muitos chegam a tratar mal os borrifadores e se negam a abrir suas casas. O que eu peço é que essas pessoas nos ajudem para fazer com que a gente trabalhe dentro de cada casa e também para quem estiver fazendo tratamento não abandone e não deixe de tomar os remédios. O maior problema que vem acontecendo é que as pessoas começam o tratamento, tomam as primeiras doses de remédio, quando a febre passa elas abandonam o tratamento. O apelo que faço é para evitar isso, que as pessoas sejam esclarecidas de que o tratamento é importante e eficaz e que um suspeito de ter a doença, onde quer que esteja, seja imediatamente indicado ao serviço de combate à doença. A cura da malária só depende disso: borrifação e tratamento imediato dos pacientes porque uma pessoa doente, num só num dia, é capaz de transmitir e infectar outras dez. Mas, apesar das dificuldades, temos o que comemorar porque, nesse período de inverno, a malária costuma subir e agora está é caindo. O senador Tião Viana, que é médico, chega amanhã [hoje] ao Juruá para ajudar no combate à doença. A cada 15 dias ele está vindo aqui e é graças ao trabalho e a dedicação dele que a gente está conseguindo diminuir os índices da doença. Mas isso é pouco ainda. Nós temos que fazer mais.

Mas o Juruá não vive só de notícias ruins, não é? O que o senhor vai anunciar em relação à educação aqui na região?

Jorge Viana - Eu estou no Juruá acompanhado do reitor da nossa Universidade Federal do Acre (Ufac), professor Jonas Filho, e do deputado federal Henrique Afonso (PT-AC), esse nosso companheiro de sonhos e grande batalhador, junto com a senadora e ministra Marina Silva, para a implantação da Universidade da Floresta. Estou muito feliz de poder dizer que, fruto de um trabalho do nosso vice-governador e secretário de Educação, Arnóbio Marques - que, aliás, está saindo da secretaria hoje, uma vez que foi indicado pelo PT e pela Frente Popular para ser candidato à minha sucessão -, estou podendo anunciar que estamos aqui para a aula inaugural da Universidade da Floresta.

Como se deu o trabalho de implantação dessa universidade?

Jorge Viana – Foi graças ao trabalho do Binho Marques como secretário de Educação. Não fosse ele nós não teríamos o que temos hoje na área de educação. Não teríamos, por exemplo, esse trabalho lindo dos professores rurais todos tendo a oportunidade de fazer uma faculdade nos seus próprios municípios, inclusive nos lugares mais isolados do Juruá. Não teríamos as pessoas de municípios como Taumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves e Mâncio Lima com a universidade implantada lá. Nesses municípios, quando assumimos, quando o Binho assumiu comigo como secretário de Educação, não havia sequer o segundo grau, o chamado ensino médio. Agora, nós temos até faculdade funcionando nesses municípios. Graças à parceria do governo com a nossa Ufac, estamos fazendo uma verdadeira revolução na educação. E isso tudo foi operado pelo Binho Marques. E não é só isso: basta olharmos as escolas públicas de todo o Estado que a gente se orgulha. Em todo o Acre é isso. É a ele, que foi secretário de Educação quando fui prefeito de Rio Branco e secretário de Educação nos meus dois mandatos como governador, a quem eu devo muito porque a maior mudança social que um governo pode fazer e a maior herança que um pai pode deixar para um filho é o conhecimento, é a educação. É por isso que a maior prioridade do mundo desenvolvido é a educação e nós aqui no Acre, graças ao professor Binho Marques, estamos fazendo da educação a nossa maior prioridade. Mas nós estamos só no começo do trabalho e temos que fazer mais. Penso que, se nada mais acontecer, mas se a educação se desenvolver, o resto acontece e se desenvolve. Eu me sinto honrado de ter tido o Binho como nosso vice-governador e secretário de Educação. Tenho que agradecer muito por tudo que ele fez em me dar as condições de fazer um grande trabalho na área de educação.

O professor Binho Marques, como o senhor sabe, não é muito conhecido, principalmente aqui no Vale do Juruá. O que o senhor diria à população desta região em relação a ele? O que a população do Juruá pode esperar de um eventual governo do professor Binho Marques?

Jorge Viana – O professor Binho Marques, que será o candidato indicado pela Frente Popular, é a pessoa que montou o plano de educação executado por nosso governo. E eu pergunto: qual foi programa de governo mais importante executado aqui no Juruá? Não tenho dúvida de que foi na área de educação. Eu duvido que tenha havido um programa mais importante do que esse na área de educação. As pessoas dos municípios próximos aqui, se quisessem que seus filhos e filhas continuassem a estudar, tinham que fazê-los servir de empregados domésticos aqui em Cruzeiro do Sul. Eram pessoas apartadas das famílias. E agora temos o segundo grau em Foz do Breu, em Restauração, as localidades mais isoladas aqui do Juruá. Esse é o trabalho do professor Binho. Tem gente que nem o conhece pessoalmente, mas o trabalho dele e de sua equipe está presente em cada rua deste Estado, em cada ponto deste Acre. O que se pode esperar de um homem que dedica sua vida à causa da educação? Muito trabalho na busca de melhoria de vida das pessoas. Não tenho dúvida de que, na próxima campanha, nós vamos ter, de um lado, os políticos profissionais, aqueles que já foram de tudo no Acre e nunca fizeram nada por este Estado, e, do outro, um administrador responsável e capaz. Aliás, eu posso dizer que não conheço no Acre um administrador melhor do que o Binho Marques. É isso que a população do Acre pode esperar: o trabalho de um excelente técnico, de um administrador absolutamente capaz.

Governador, aqui no Juruá o assunto sempre presente na ordem do dia é a ligação da região com o resto do Estado através de estrada. Com sua permanência no governo, o que a população da região pode esperar em relação a esse projeto?

Jorge Viana – A população do Juruá sabe que nós, mesmo não tendo prometido fazer a estrada, estamos trabalhando e buscando fazer a estrada. Quem conhece a nossa luta sabe o quanto é difícil e quanto eu, particularmente, tenho sofrido na tentativa de executar essa tarefa. Mas, apesar do sacrifício, nós conseguimos avançar e estamos com as pontes, mesmo aquelas mais complicadas, daqui a Feijó, todas prontas ou em fase de conclusão. Aliás, a soma dessas pontes é cinco vezes mais daquilo que a gente tem de ponte em Rio Branco ou em todo o Vale do Acre. Isso significa muito dinheiro e muito sacrifício, já que na região não há pedra e muitas vezes tivemos que ir buscar materiais de locais muito distantes. A parte mais dura e difícil daqui ate a Feijó já está pronta. Este ano é o ano em que a gente quer trabalhar com muito asfalto entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá. Aliás, quero anunciar que já estão começando a chegar as balsas com pedras, cimento, óleo diesel e asfalto para a gente começar o trabalho. Agora, com o presidente Lula ajudando, tenho muita esperança de que a gente vai avançar muito ainda nesta área para deixarmos o Juruá totalmente integrado.

Como é que o senhor recebe as críticas em relação ao trabalho nessa área das estradas?

Jorge Viana - Não são críticas. São agressões. Eu tenho recebido muitas agressões de gente que vem aqui no Juruá, que fala nas rádios e nas emissoras de TV, sempre me agredindo. Mas são, como todos sabem, pessoas que só aparecem aqui em época de eleição. Só vêm aqui atrás do eleitor, só para enganar as pessoas. São políticos que eu conheço bem, políticos que já foram tudo no Acre e nunca fizeram nada pelo nosso povo. Como o nosso governo vem fazendo e se esforça muito para fazer mais, esses políticos só sabem me agredir e atacar. São políticos que nunca deram um prego numa barra de sabão para ajudar a gente a ter a estrada. E eu, com a ajuda dos senadores Sibá Machado e Tião Viana e da nossa bancada federal, do presidente Lula, da nossa ministra Marina e dos nossos deputados estaduais, estou me matando de trabalhar para a gente vencer, como está vencendo, mais esse desafio de trabalhar pela realização do asfaltamento de Cruzeiro do Sul a Rio Branco. E estamos fazendo daqui no rumo de lá, o que é mais difícil ainda. Eu pergunto: do que adiantaria vir com o asfalto de Sena Madurai para cá? De que adiantaria fazer isso se o isolamento permaneceria? Por isso trabalhamos de forma que o nosso trabalho dê resultado, que é deixar o Juruá todo interligado. Graças a isso, este ano a gente já vai poder utilizar a estrada de Cruzeiro até Feijó, criando uma nova unidade econômica na região e melhorando a vida das pessoas.

O senhor acha então que a estrada ainda servirá de plataforma eleitoral na próxima campanha?

Jorge Viana - Nós estamos trabalhando para que a estrada não sirva mais para isso. Eu, que nunca prometi a estrada, estou fazendo para que o debate eleitoral do futuro se dê noutro sentido. Eu sei do sacrifício que estou fazendo e também do que venho sofrendo. Mas, ainda assim, se forem somar, verão que o que fizemos em relação às estradas é maior que a soma do que foi feito por todos os governos passados. E estou dizendo isso porque daqui mais alguns dias começa mais uma campanha eleitoral e os políticos “copa-do-mundo”, que só aparecem de quatro em quatro anos, em época de eleição, vão vir para cá para agredir e nos caluniar dizendo que estão fazendo caravana de cidadania e de democracia. Na verdade, são caravanas de véspera de eleição, caravana eleitoral atrás de eleitor. Note o eleitor que esses políticos não vieram o ano passado e também não vieram nos anos anteriores. Não vieram porque não havia eleição. E eu nunca saí daqui. Venho com freqüência ao Juruá porque gosto do povo daqui, porque aqui sou bem tratado e também porque aqui a gente tem muito trabalho e muitas obras importantes, como é o caso do Hospital Regional, que está praticamente pronto e com os equipamentos já a caminho. Também estamos com as obras da avenida Mâncio Lima em andamento e o programa “Luz para Todos”, que vai chegar a todos os municípios da região, e já estamos prontos também para assinar a ordem de serviço para as obras do novo aeroporto de Cruzeiro do Sul.

Para completar essas obras, o senhor fica no mandato até o fim. Não sendo candidato, claro, vai ficar sem mandato pelos próximos anos. E é aqui que mora o perigo, lembram seus amigos. O senhor não teme ficar sem mandato?

Jorge Viana - Não, não temo. Não nasci com mandato e definitivamente não sou um político profissional, incapaz de sobreviver fora da política ou fora do mandato. Eu sei que um mandato é importante. Muita gente já veio falar disso comigo. Dizem: “Jorge, durante seu governo, você mexeu em muitos vespeiros, foi quando foi desmontado o esquadrão da morte, esse pessoal pode te pegar depois porque você sem mandato fica uma presa fácil”. Tem muita gente que fala isso pesando em mim, na minha proteção, na minha vida. Mas eu repito: não sou um político profissional. Ser deputado federal ou senador seria importante, mas eu agora estou deixando de lado o que seria bom para mim para o que pode ser bom para todo mundo. Sei que ficando no governo e trabalhando para que o companheiro Binho Marques chegue ao governo para dar continuidade ao trabalho é melhor que entrar outro governo e destruir tudo que fizemos. Digo porque tenho experiência disso: quando deixamos a prefeitura de Rio Branco, entregamos com 16 mil alunos na rede municipal. Oito anos depois, quando ganhamos a prefeitura com o Angelim, havia 12 mil alunos na rede municipal, quatro mil a menos do que a gente deixou. Então eu temo que eles venham destruir tudo que a gente fez. Na prefeitura de Rio Branco, há oito anos, estava essa mesma turma que hoje quer tomar o governo da gente. Essa mesma tropa de políticos que só viaja para o interior em ano de eleição, que vêm aqui me agredir e me xingar, em oito anos que ficaram na prefeitura destruíram tudo aquilo que fizemos. São pessoas que, quando tiveram a chance de fazer alguma coisa pelo povo, dedicaram-se as suas políticas individuais, meteram a mão no dinheiro público e agora vêm aqui, com suas conversas bonitas, tentando enganar os índios, os ribeirinhos, as donas de casa. Tudo que nós estamos fazendo é para melhorar o Acre e acho que o Acre tem que melhorar mais. Se Deus quiser, a gente vai ter continuidade desse trabalho para poder mudar mais o Acre. Eu sei que teria chance de ter um mandato. Tem muita gente que reconhece o meu trabalho e até votaria em mim para um mandato de deputado federal ou de senador. Mas eu acho que é bom que o Tião Viana seja o senador, com o Binho governador, e eu fico sem mandato, ainda que correndo riscos, mas tranqüilo por ter botado em primeiro lugar não o melhor para mim, mas o melhor para todo o povo do Acre.

 

 
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Rio Branco-AC, 31 de março de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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