COTIDIANO

Projeto estimula cadeia produtiva

Sebrae avalia implantação de projeto de copaíba e unha-de-gato no Vale do Juruá


Manoel Bezerra aprendeu
a fazer sabão com a mãe


Sandra Assunção

Copaíba, unha-de-gato, andiroba, açaí, patoá e buriti. Para as populações tradicionais das florestas e beiras de rios, os produtos são velhos conhecidos, seja para a alimentação ou fabricação de remédios naturais. Agora a maioria é cobiçada pelas indústrias de medicamentos e cosméticos. Mas como fazer para que a riqueza das matas sirva ao povo que mora nela sem que a natureza seja prejudicada? É possível desenvolver projeto em que os produtos florestais não madeireiros, como as resinas e os óleos, sejam a matéria prima de centenas de mini indústrias na floresta?

Para responder a estas perguntas e decidir pela implantação do projeto de produtos madeireiros não florestais na região do Vale do Juruá, técnicos do Sebrae estiveram na região fazendo estudo sobre a produção da unha-de-gato e do óleo da copaíba. De acordo com levantamento a região do Juruá tem uma das maiores concentrações de árvores de copaíba da Amazônia. Enquanto nas demais regiões, são encontradas duas árvores de copaíba por cada 10 hectares , aqui são seis árvores em 10 hectares . A unha-de-gato, um cipó, que lembra a forma da unha dos felinos, também é abundante. De acordo com a Associação dos trabalhadores do Projeto de Assentamento Vitória, em Porto Valter, 2004 a 2005, foram comercializados cerca de 300 toneladas deste cipó.

De acordo com Carolina Gaia, gerente de atendimento coletivo e indústria do Sebrae, os estudos serão analisados pela diretoria da instituição, que dará a palavra final sobre a execução de fato do projeto dos produtos florestais não madeireiros.“Se já há um ciclo econômico em torno do óleo de copaíba e uma de gato, o Sebrae poderá atuar com agente de fomento e com isso potencializar as iniciativas. Se a direção do Sebrae der o sinal verde, vamos desenhar o projeto junto com as comunidades que vai nos dizer sua capacidade e necessidade real”, relata Carolina Gaia.

Se executado o projeto, o Sebrae vai estimular toda a cadeia produtiva, desde coleta e o processamento adequados, a prospecção de novos canais de mercados que paguem pelo diferencial dos produtos ambientalmente corretos e socialmente justos, além de buscar parceiros para investimentos em mini indústrias de óleos, ou de higiene e limpeza.

Empreendedores da floresta

Muitos ribeirinhos, ex-seringueiros e agricultores aprenderam a extrair resinas e óleos das espécies na mata e fazer sabão, sabonete e outros itens para as tarefas domésticas. Outros transformam os produtos em negócio, tornando-se pequenos empreendedores. Seu Manoel Bezerra de Souza, que mora em Mâncio Lima, há 50 quilômetros de Cruzeiro do Sul, é um deles. Seu Manoel conta que desde pequeno via a mãe fazendo sabão para suprir as necessidades domésticas. Passou a fazer experiências com o patoá, buriti, açaí, andiroba e a copaíba.

Não parou nas próprias experiências: foi em busca de especialização em Rio Branco. Fez oficinas na Fundação de Tecnologia do Acre, Funtac e na Universidade Federal do Acre, onde aprendeu a dominar a arte de retirar os óleos sem danificar a natureza e confeccionar os sabonetes e sabão. “Antes dos cursos para retirar o óleo da copaíba, derrubávamos a árvore inteira. Agora retiramos o óleo e a árvore fica na floresta para novas extrações”, explica seu Manoel.

Fábrica no fundo do quintal

Hoje, no fundo quintal de cas,a em Mâncio Lima, o empreendedor tem uma pequena fábrica de sabão e sabonete. Fabrica e vende cerca de 700 unidades por mês e cada sabonete custa R$ 2,50. A fábrica já gera três empregos diretos. “Além disso, compro toda a matéria-prima (copaíba, buriti, açaí, patoá) de famílias que vivem na floresta ao redor da minha casa e são os coletores. Já é uma pequena renda para eles. Muita coisa que se perderia na mata hoje sustenta várias famílias”, relata Manoel.

Recentemente em um novo curso da Funtac, Manoel aprendeu a fazer óleos de banho bifásico e trifásico e xampu em barra. Além do talento para as essências, seu Manoel é também inventor. Muitos dos equipamentos da fábrica foram feitos por ele, como a depolpadeira de buriti. E os ensinamentos que adquiriu, seu Manoel Bezerra, repassa. Já ministrou oficina de extração de óleo para os índios Poianawa da aldeia Barão e para os Katukina, na Br 364. Na segunda semana de abril, vai ministrar curso de confecção de sabão e sabonete para prefeitura de Mâncio lima.

 

 
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Rio Branco-AC, 31 de março de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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