OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


A Rainha de Búzios

Ouvi do Mestre Foba e reproduzo com a fidelidade possível. Contou-me que num verão passado esteve no Rio de Janeiro, com os parceiros Charles e Ron-Ron. Encontraram o amigo Bigode. Foram todos a Búzios e a Angra dos Reis. Por lá, muito sol, água de coco, cerveja gelada, areias e moquecas quentes. Água a perder de vista, férias a aproveitar, algum dinheiro no bolso, limpar a vista, algo novo para viver e contar.

Com tanta água, naquele mar sem tamanho, depois de uns dias, viram que precisavam de um barco. Na praia, preocupados com a cotação do dólar, discutiam sobre aluguel de barcos, modelos, preços, modo e período de locação, dependendo da oferta e dos tamanhos. O piloto seria o Mestre, entendido em ondas e arrecifes, mecânico profissional e contador de estórias diplomado. O Charles entraria com a verba, auxiliado pelo Bigode, se este resolvesse ir na primeira viagem. O Bigode tecia considerações sobre a segurança de estar em terra firme, enjôos e acomodação. O Ron-Ron entraria com a mão-de-obra, na assistência, nos serviços gerais. Ainda de manhã, concluíram que seriam naquele dia, até o pôr-do-sol, os passeios de barco. No dia seguinte voltariam para o Rio. Coisas como opções e disponibilidade de caixa.

Se é pra hoje, qual será o barco? Rápido como só ele, o Mestre apontou para um barco que por ali passava, beirando a praia, quase parando, trazendo dizeres sugestivos: “vende-se ou aluga-se”, e disse: “Este é o nosso barco”. Todos olharam extasiados para A Rainha de Búzios, que deslizava sobre as águas, entregando-se, oferecendo-se, quase ao alcance das mãos. Todos os olhos já a possuíam, mesmo desconfiados de que tal prazer custaria muito caro. A Rainha estacionou e o barulho da âncora foi ouvido pelos súditos.

O Mestre tomou a iniciativa. Nadou até A Rainha, de costas, para não demonstrar muito interesse. Do convés, uma saudação e um convite: “Olá, pode subir...”. A Rainha transformou-se numa deusa. Mas o Mestre não podia revelar suas intenções de passear e gastar o mínimo. Se possível, nada gastar, exceto conversa mole. Falava pouco, mas foi ao ponto: “quanto custa o barco?” indagou ao tripulante, que identificou-se como dono. “Treze mil dólares, a vista”, respondeu o proprietário da Rainha, tornando a convidar o Mestre para subir. Este respondeu que conhecia barcos, já havia examinado a estrutura, a pintura, disse saber o ano de fabricação do barco ...e coisa e tal ...mas o preço...

Era o Mestre, já quase subindo, arranjando algum defeito, para baixar o preço, algum motivo para testar A Rainha. Não era marinheiro de primeira viagem. Dizia que em água doce, no Acre, barcos duram mais, e prosseguia indagando, qual é o motor, é marca tal, não é? E a potência? Tem vazamento? As revisões? Isso pra lá, aquilo pra cá etc e tal, sempre demonstrando conhecimento sobre barcos, motores e negócios em geral.

Já no convés, o Mestre afirmou que tinha alguns barcos no Acre, mas pretendia adquirir outros, dependendo do preço e do aval do sócio, que estava bem ali. “Convide-o para dar umas voltas”, disse o dono da Rainha . “Não é necessário”, redargüiu o Mestre, já verificando o nível do combustível do tanque. Estava com três quartos. Dava para bons passeios, mas era preciso calma, nada de entregar as intenções. A bacia hidrográfica acreana é muito extensa, explicava o comprador, por isso usavam tantos barcos, ele e o sócio Charles, que também era grande fazendeiro. Trabalhavam com o banco tal, preferiam pagar a vista, caso terminassem de fazer o negócio, que estava já de vento em popa . O vendedor insistia que fossem dar uma volta. O Mestre planejava várias.

Chamaram o Charles, que foi recebido “como um lorde” ou, adaptando, como um rei do gado, como um príncipe da navegação, senhor dos ventos. Era o homem da verba. Também o Charles achou caro o preço da Rainha. Gostou, desgostou, aquele vai-e-vem das ondas. Se o sócio aprovasse.... Dinheiro não era problema, mas e o preço? O Mestre, então, afirmou: “o amigo aqui vai fazer por onze mil”, e abraçou o vendedor, a quem chamava de “carioca”. O vendedor retrucou com os olhos, com gestos indecisos, pensou no dinheiro. O Charles deixou por conta do Mestre Foba. Era preciso negociar, os “cariocas” são espertos, dizia o Mestre, e o barco precisava ser testado.

Foram dar a primeira volta. Gastaram um quarto do tanque. Não bastou. Era preciso maior tempo de avaliação, submeter o barco à prova, sentir a potência, “chamar nas catracas”. Partiram para longe daquela praia, visitaram várias outras, corria a tarde, o tanque já não tinha sequer um quarto, o Mestre aprovou o barco, por dez mil, a vista, ficando o frete por conta do “carioca” de Angra. Ou seria de Búzios? O dono da Rainha marcou um encontro para concretizar o negócio, que já estava resolvido. A Rainha mudaria de ares e eles comeriam uma moqueca, cortesia do anfitrião, Por enquanto, despediram-se na praia. O tanque estava na reserva.

Sob a aprovação dos parceiros, o Mestre decidiu retornar logo para o Rio. Os ares estavam mudados. Estava com saudades de Ipanema. Havia prenúncio de mal tempo. Esqueceram do jantar, mas não do passeio grátis e da própria artimanha. Deixaram A Rainha ancorada, quase sem combustível e já sem a placa de venda. Não estava disponível sequer para aluguel, estava prometida para os acreanos. Corria a noite. Enquanto a lua percorria sua trilha, o Mestre e os parceiros já seguiam pela estrada, alegres e bronzeados. Seguiam comentando como A Rainha de Búzios era uma verdadeira deusa. Do jeito que cortava as ondas, imaginem os banzeiros! Se não fosse o preço... Corriam na noite e seguia com eles uma brisa refrescante, com um cheiro delicioso de moqueca a carioca.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 31 de julho de 2005
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
P E S Q U I S A