COTIDIANO

A verdadeira face das bruxas

Bruxas existem, sim. E, ao contrário do que se pensa, 31 de outubro não é o dia delas – pelo menos no Hemisfério Sul

Marcos  Vicentti
Paixão por duendes e bruxas
começa na adolescência, com
a busca pela diferenciação


Marcela Barrozo

Esqueça o constante visual dark e a fama de malvadas. Esqueça os feitiços, magias e maldições. As bruxas, que até hoje povoam o mundo – inclusive o Acre –, passam longe desses estereótipos. Na verdade, são pessoas comuns, porém com alta sensibilidade e um grande amor à natureza.

“Podemos dizer que as bruxas são grandes ecologistas. Elas sabem da importância da natureza no mundo e as conseqüências de cada ato”, define a advogada Hélida Saraiva, que é esotérica. “Não me considero uma bruxa, mas sou simpatizante desse estilo de vida”, diz.

Se não for pedir demais, esqueça também que o dia 31 de outubro é o Dia das Bruxas – pelo menos no Hemisfério Sul, onde a data de comemoração é na noite de 30 de abril para 1º de maio.

“Para nós, do [hemisfério] sul, o dia 31 de outubro não significa nada, isso é mais um exemplo do imperialismo americano. O Halloween é comemorado com a chegada do inverno que, para nós, é no primeiro semestre”, explica Maria José, professora de história e autêntica bruxa acreana.

SAMHAIN – Ela explica que a Festa dos Mortos abaixo da linha do Equador também muda de nome. Chama-se Samhain (pronuncia-se Sou-ein) e significa “Final do Verão”. “Os celtas acreditavam que no primeiro dia do inverno abria-se um canal entre o mundo dos vivos e dos mortos, e os espíritos passeavam entre os vivos”, explica a historiadora.

Ao contrário do que muita gente pensa, as bruxas são pessoas discretas e muitas não fazem a mínima questão de se revelar como tais. Mas também há uma razão para isso. “O ideal é que elas mantenham mesmo o sigilo, esse mistério. A força da magia se intensifica no segredo e se dissipa quando é divulgada”, revela Saraiva.

Segundo a advogada, isso explica por que ao revelar para muitas pessoas algo que está se planejando aumenta muito a dificuldade (ou até impossibilidade) em realizá-lo. A própria professora Maria José é um exemplo dessa discrição, não permitindo se fotografar para ilustração desta reportagem.

DESCOBERTA – A incursão da historiadora no mundo da magia se deu ainda na época da faculdade. Ela conta que nasceu numa família católica e, ao entrar para o curso de História, deixou de acreditar na Igreja. “Em 1995, li um artigo na revista Planet sobre bruxaria e gostei muito. Comprei um livro sobre o assunto e fui me aprofundando”, relata.

Em 2001, ela conheceu um bruxo canadense que esteve de passagem pelo Estado e desde então a Wicca – ou Bruxaria Moderna, que cultua a natureza – tem sido a sua religião e filosofia de vida. “Temos oito rituais por ano, que chamamos de sabbats. Todos eles são relacionados com os fenômenos da natureza, como as estações do ano, os solstícios e os equinócios”, esclarece.

DIFERENÇAS – Maria José e Hélida Saraiva são amigas. Enquanto Hélida se limita ao esoterismo e segue a religião espírita, Maria José se intitula bruxa, com todas as letras. “As pessoas têm uma imagem muito confusa das bruxas. Geralmente são mulheres que conhecem o poder das ervas, são intuitivas e com alto poder de mentalização”, explica Saraiva.

É comum o interesse por esse mundo se dar na adolescência, quando meninos e meninas buscam se diferenciar uns dos outros. Foi assim com Hélida. “A gente começa usando um cristalzinho, daí passa a estudar o poder dos cristais, astrologia. Quando vemos, já estamos nesse mundo de duendes, anjos e bruxas”.

Mas o principal para as duas amigas é desmistificar essa aura de medo em torno das bruxas. Afinal, se não fosse por elas, talvez a medicina nunca tivesse existido.

“Esta será a primeira vez que não faremos festa”

O lamento acima é do coordenador do Instituto Cultural Norte-Americano (CNA) Antônio Ferreira. Em dez anos de trajetória dessa escola de inglês no Estado, 2004 será o primeiro em que não haverá festa de Halloween (aquele celebrado no Hemisfério Norte).

“Essa é uma forma de passar a cultura inglesa e norte-americana para os alunos, mas alguns pais confundiram com religião. Resolvemos acatar o pedido de alguns em detrimento de outros”, revela Ferreira.

Geralmente uma semana antes da festa a escola era decorada com os símbolos dessa data – bruxas, abóboras, fantasmas, entre outros – para que os alunos já entrassem no clima da festa. Mas este ano nem um morcegozinho foi pendurado pelo teto.

A lembrança da data, portanto, limitou-se à sala de aula – dos alunos mais avançados – onde assuntos ligados à cultura dos povos que falam a língua inglesa possam ser estudados.

FESTAS – Outra escola de inglês, a Skill, realizou sábado uma festa na boate Summer – das 18 às 22 horas para crianças e a partir das 23 horas para pessoas acima de 16 anos. Segundo a secretária da escola, Selma da Silva, esse evento é uma tradição do colégio, que já tem 12 anos na cidade.

Hoje, na Grog’s Sub-17 (altos da Pizzaria Bolota) acontece a Halloween – A Festa, a partir das 18 horas. O evento contará com DJs, bruxas, duendes e fantasias. Mais informações pelo telefone 9994-2330. Para ir vestido a caráter, o aluguel de uma fantasia completa de bruxa custa menos de R$ 40, afirma Luciete da Costa, gerente da loja Fantasia, que aluga roupas para essas ocasiões (adulto e infantil). Mais detalhes sobre o aluguel de roupas, é só ligar para os telefones 227-8052 e 9987-4785.

O que é Halloween (ou Samhain)

Também chamado de Samhain, o Halloween (ou Hallowmas) significa, entre outras coisas, Festa dos Mortos, Véspera de Todos os Santos e Terceiro Festival da Colheita. É o mais importante de todos os sabbats do calendário wiccano e também o mais conhecido fora dessa comunidade.

ADAPTAÇÕES – Nessa data (31 de outubro no Hemisfério Norte e 30 de abril para Hemisfério Sul), comemora-se o fim do verão, mas também é o momento em que os espíritos de entes queridos já falecidos devem ser lembrados e honrados – Daí a versão cristã para o Halloween-Samhain: o Dia de Todos os Santos (1º de novembro, introduzido pelo Papa Bonifácio 4º, no século 7, substituindo o festival pagão).

Outra adaptação cristã é o Dia de Finados (2 de novembro) para suprir o Festival dos Mortos. Esse dia é considerado sagrado pela Igreja Católica Romana, destinado a preces pelas almas no purgatório. Em certas regiões da Europa pensava-se que alguns fantasmas tinham a natureza má e, para se proteger, as pessoas confeccionavam lanternas de abóboras (e nabos) com faces assustadoras e iluminadas para afastar tais espíritos.

“Mas foi nos Estados Unidos que começou a tradição de se fantasiar com essa mesma finalidade”, afirma Maria José.

 

 
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Rio Branco-AC, 31 de outubro de 2004
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