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Presos trabalham para reconquistar a liberdade

Cada três dias de trabalho equivale a menos um no total da pena; Justiça do Acre é uma das poucas que também contabiliza os dias estudados

Regiclay Saady
Dina ensina técnicas
de artesanato no presídio


Juracy Xangai

Alguém já disse que o trabalho dignifica o homem, mas no caso de quem está preso ele vai muito além. Mais que dar dignidade, faz o detento sentir-se produtivo, assim ele deixa de estar ocioso, envolve-se em menos confusão e mantém alimentada sua esperança de reconquistar a liberdade. Até porque a cada três dias trabalhados a Justiça lhe concede um dia de perdão da pena pelo crime cometido.

Construído para abrigar 629 presos, a Unidade de Recuperação Social, Francisco d’Oliveira Conde está hoje com 1.490 detentos, dos quais pelo menos 700 estão condenados e 490 poderiam estar trabalhando. Somando-se os presídios de Rio Branco, Sena Madureira, Cruzeiro do Sul e Tarauacá, existem hoje 2,1 mil presos em todo o Estado.

Embora não haja ocupação para todos, o total de internos trabalhando é de 396 em atividades internas e externas do presídio ou órgãos públicos. Desses, 47 são beneficiados pelo regime semi-aberto, trabalham de dia na cidade e dormem na penal.

Em cada pavilhão, em cada cela, presos expressam sua vontade de trabalhar. Além da horta, cozinha, criações de porcos, peixes e galinhas, marcenaria, fábrica de bolas, artesanato, faxina dos corredores e limpeza interna dos edifícios ou trabalhando para órgãos como Embrapa e Ibama, os presos podem também aprender a ler na escola Asas da Liberdade.

Escola da libertação

A Justiça do Acre é uma das poucas do Brasil que reconhece a presença nas aulas como dia trabalhado, por isso a cada três dias de freqüência às aulas seus alunos ganham um dia de redução em suas penas.

João Cláudio de Souza da Silva, 25 anos, pais de dois filhos, está condenado a três anos de prisão. Criado num seringal de Xapuri, recorda: “Logo que a gente veio do seringal para morar no Areal da Corrente, eu tinha uns dez anos, fui dois dias para a escola, mas desisti porque a gente era muito pobre. Eu preferia engraxar sapatos para ganhar dinheiro e ajudar minha mãe. Agora faz quatro meses que estou na escola, já escrevo meu nome, conheço as letras, mas não leio. Quando sair daqui vou continuar estudando. Eu queria ser professor”.

Seu companheiro de cela é Natalino Nascimento Santiago, 29 anos, solteiro, condenado a 27 anos de prisão dos quais cumpriu quatro anos e três meses. “Nasci e fui criado numa colônia do Quinari onde não tinha escola e até agora nunca tinha entrado numa sala de aula, esta é a minha oportunidade, estou aproveitando escrevo e já leio um pouco, quando tenho dúvida pergunto pro pessoal da cela e eles me ajudam. Sei que ainda vou passar muito tempo aqui, mas quero sair de cabeça erguida. Acredito que se me esforçar eu consigo”.

Com a bola toda

Dentro de dez meses Edsol Suader, 33 anos, pai de dois filhos que já cumpriu seis anos e meio de uma condenação de 14 anos, deixará a prisão. Enquanto isso trabalha testando e dando o acabamento final na fábrica de bolas. “Gosto deste trabalho, o dinheiro dá para bancar minhas despesas, mas o melhor é a redução de pena, senão fosse por isso eu não estaria saindo daqui em poucos meses. Não há dinheiro que pague o gosto da liberdade”.

Condenado a 17 anos de prisão, Dorian Roberto Cavalcante Braga, 33 anos, pai de quatro filhos já cumpriu quatro anos e meio de sua pena e é um dos que trabalham dentro das próprias celas costurando bolas. “O trabalho distrai a gente e faz diminuir a pena, o ganho não é muito, faturo uns 30 ou 40 reais por mês, mas vale a pena.

Alessandro Augusto, 26 anos, pai de dois filhos condenado a oito anos e nove meses de prisão também costura bolas. “Trabalho não só pelo dinheiro, mas porque me sinto melhor quando estou ocupado”.

Sem trabalho

Preso há dois anos e dois meses, Ribamar Pacheco Araújo, 24 anos, pai de um filho e condenado a 21 anos de prisão, lamenta: “Desde que cheguei aqui eu ainda não consegui uma ocupação, meu dia é estar na cela, ir para o banho de sol e ficar conversando com os colegas. Isso cansa e dá um nervoso danado na gente. Eu quero trabalhar, não importa em quê, preciso fazer alguma coisa”.

Arte na cela

O jornalista peruano Carlos Leani Curioso Escalante, 33 anos, pai de três filhos e que cumpre pena de cinco anos em Rio Branco produz entalhes, desenhos e gravuras que ganharam a admiração dos colegas de presídio e até da guarda. “É muito difícil para nós conseguirmos o material que necessitamos para produzir artesanato. Na verdade existem 46 peruanos fazendo artesanato aqui dentro, mas nem todos estão cadastrados para que isso ajude a diminuir seu tempo de prisão. Gostaríamos que todos tivessem seu trabalho reconhecido”.

Alimentando milhares

Responsável pela cozinha do presídio onde trabalham 38 detentos, Natal Vieira da Silva, 30 anos, pai de dois filhos, já cumpriu oito dos 21 anos e oito meses a que está condenado. “Já trabalhei na horta, na piscicultura agora estou administrando a cozinha onde preparamos mais de 3 mil refeições por dia. É tanto trabalho que uma turma trabalha durante o dia e outra à noite para que a comida esteja pronta na hora certa e com a qualidade esperada”. Os cozinheiros são treinados e supervisionados pela equipe do restaurante Tapiri o mesmo que atende no aeroporto Internacional e abastece os aviões.

Móveis dão alegria

A marcenaria dá ocupação a 19 presos que beneficiam a madeiras como mogno, cedro e cerejeira doados pelo Ibama. A madeira é usada na fabricação de móveis e utensílios usados aqui na penal, nas delegacias além de entidades beneficentes como a Apadeq, por exemplo.

“Fazem sete anos que eu trabalho com madeira e assim que fui preso me ofereci para trabalhar aqui na marcenaria. Sou especialista em dar acabamento em móveis, saio daqui há dois meses e já estou com emprego garantido lá fora. Gosto do que faço e isto ajudou a apressar milha libertação”. Declarou Aldemir Cordeiro Brejense, 28 anos, pai de três filhos, condenado a cinco anos de prisão dos quais já cumpriu dois anos e dois meses.

Verde esperança

Doze detentos dedicam seu tempo aos cuidados com a horta que é coordenada pelo técnico Eurico Cayres, 44, pai de dois filhos e que já cumpriu cinco anos e três meses dos onze a que está condenado. “Começamos esta horta aos poucos, mas com a dedicação de todos ela produziu recursos suficientes para que hoje tenhamos as ferramentas e dinheiro para comprar os produtos que necessitamos para sua manutenção. Fornecemos verdura para a cozinha. A Tapiri nos paga por isso e quer que a gente amplie nossa produção, o Supermercado Araújo também aceita para venda, mas também vendemos na feira do mercado todo sábado”.

A criação com mais de 120 matrizes de porcos das raças landrace, duroc, large white e piau está sob a responsabilidade do ajudante de pedreiro Juniomar Bezerra Tamborini, 28 anos, pai de três filhos e que já cumpriu sete dos 14 anos de prisão a que está condenado por isso espera sua libertação em um ano. “Nunca tinha feito nada disso, gostei muito de aprender a cuidar dos porcos. Eles são muito bonitos e a gente acaba gostando deles. Não recebo pagamento por este trabalho, mas só de não ficar na cela e conseguir a redução da pena já é muito bom”.

Solidariedade feminina

Apoiadas pelo subcomandante da Polícia Militar, coronel Célio Rocha, a acadêmica do serviço social da Iesacre, Dina, acompanhada pelas artesãs Márcia e Paixão, ensina técnicas de artesanato às presas do pavilhão feminino. A matéria-prima tem sido ofertada por lojas como os armarinhos Badate e Paiva, papelaria Marquesa, Fiat Comauto, Colégio Meta, Barriga Verde e a própria Iesacre.

Desde 13 de setembro, 20 presas estão realizando para uma série de cursos que vão da bijuteria a quadros com sementes e molduras de tala de buriti, embalagens para presentes, guirlandas e arranjos de Natal e de flores. Os trabalhos serão vendidos durante um bazar que será realizado em frente à Polícia Militar no período de 23 a 25 de novembro, das nove da manhã às cinco da tarde. “O dinheiro apurado nas vendas será aplicado na compra de mais material para que realizem outros trabalhos e uma para fazer sua festa de Natal”.

Esperando sua libertação para daqui a dez meses, a peruana Janini Bismarck Rufino, 33 anos, mãe de um filho, cumpre pena de oito anos dos quais já cumpriu três anos e quatro meses. “Durante todo esse período que estou aqui dediquei me a aprender crochê, tricô, macramé, bordado, corte e costura, detergente, sabão, cremes, tudo o que eu nunca havia aprendido na vida lá fora. Assim que sair, vou embora para os Estados Unidos e sei que tudo isso irá servir para me ajudar a recomeçar minha lá”.

Raimunda Gomes de Melo, 52 anos, mãe de dois filhos, está condenada a nove anos e quatro meses de prisão, dos quais já cumpriu quatro anos e sete meses. “Fui costureira minha vida inteira e trabalho desde o dia que cheguei aqui, por isso estou sendo libertada neste dia onze de novembro. Faço roupas, almofadas, o que encomendarem, quem pensa bem aproveita o tempo para repensar a vida. Ninguém gosta daqui”.

Recuperando homens

“Nosso trabalho é reorientar o preso para sua recuperação social a fim de que se tornem elementos produtivos”, explica Felizmar Mesquita o diretor do sistema penitenciário do Estado que tem sob sua responsabilidade os presídios de Rio Branco, Sena Madureira, Tarauacá e Cruzeiro do Sul num total de 2,1 mil detentos.

Ele esclarece que ao longo dos 70 anos (1920 a 1999) de existência de prisões no Acre a população carcerária atingiu um máximo de 500 detentos, mas agora já ultrapassa 2 mil. Considerando a população do Estado com relação aos demais, isso faz com que o Acre tenha, proporcionalmente, o maior número de presos de toda a América Latina.

Dentre os detentos pelo menos 90% já usaram ou fazem uso de drogas proibidas, poucos tem formação escolar ou qualquer qualificação profissional. “Nós fazemos o possível para oferecer trabalho para o maior número possível de presos, mas não temos para todos. Sabemos que o preso que trabalha cria muito menos problemas, relaciona-se melhor com suas famílias e tem maior chance de recuperação por isso o trabalho é essencial ao cumprimento de nossa missão de recuperar homens para a sociedade”.

 
 
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Rio Branco-AC, 31 de outubro de 2004
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