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O mundo se encanta com o esplendor do Império Inca

A 700 km da fronteira acreana, herança cultural mostra por que os Incas formaram um dos maiores impérios da Terra

 


Texto: Romerito Aquino
Fotos: José Diaz

O rei Inca, filho do Sol e adorador da Pachamama, a mãe Terra, mandou seus filhos Manco Cápac e Mama Oclo subir as montanhas e fundar Cuzco, a cidade sagrada de Tahuantinsuyo, nome dado ao seu império. E para essa cidade vão hoje todos aqueles que querem ver de perto a maravilhosa obra cultural deixada de presente para a humanidade pela antiga civilização Inca, uma das mais fabulosas que já passaram pelo planeta.

Foi para Cuzco que a nossa reportagem se dirigiu após sair do Acre no fim de julho passado para conhecer e relatar o mundo que há por trás da subida da fantástica Cordilheira dos Andes, situada a menos de um dia e meio da fronteira do município acreano de Assis Brasil, que passou a ser considerado o mais novo portal de entrada e saída do Brasil depois da inauguração, pelo atual governo do Estado, da chamada Rodovia do Pacífico.

Acompanhando uma equipe da TV Nacional, que foi documentar a mais nova ligação rodoviária da Amazônia com os países banhados pelo oceano Pacífico, saímos de Rio Branco no dia 26 de julho em duas caminhonetes - uma Ranger e outra Hilux. E em 20 dias percorremos mais de 5.300 quilômetros, passando pelas cidades que fazem parte da integração entre a Amazônia brasileira, o Peru e a Bolívia.

 

Nossa viagem deu origem à série de reportagem “Do Acre ao Pacifico”, cuja primeira parte foi publicada no último domingo, dia 24, retratando o percurso de 1.130 quilômetros que separam Rio Branco de Cuzco. Este encarte relata a viagem pela bela rodovia pavimentada de 1.150 km entre Cuzco e Lima, a capital peruana.

Originário da palavra “Qosqo” na língua indígena quechua, que significa “umbigo” - daí por que passou a ser conhecida mundialmente como “umbigo do mundo” -, a cidade de Cuzco é parte hoje do Patrimônio Cultural da Humanidade por ter sido sede da grande civilização Inca, oferecendo a todos que o visitam incontáveis atrativos culturais e naturais.

Podendo ser alcançada durante o verão amazônico (de junho a outubro) pela Rodovia do Pacífico, ou em menos de uma hora de vôo, a partir Puerto Maldonado, a 220 km de Assis Brasil, Cuzco é considerada hoje a quinta cidade mais visitada por turistas do mundo inteiro. Isso pode ser constatado facilmente por quem visita a sua grande e bela Praça de Armas, no centro da cidade, que concentra, durante o dia e à noite, um grande burburinho de turistas americanos, europeus, asiáticos e africanos de todas as idades e condições sociais.

Cercada de ruas de pedra por todos os lados, onde se situam as agências de viagem, bons restaurantes e hotéis para todas as classes, com diárias variando de 10 a 200 dólares (30 a 600 reais), a Praça das Armas é o local onde todos comentam as “fantásticas aventuras” vividas nas visitas aos seculares patrimônios arqueológicos e arquitetônicos da região. Eles se iniciam ao redor de Cuzco, se estendem pelas ruínas do Vale Sagrado do povo Inca e vão até o santuário histórico de Macchu Picchu, que teria sido última fortaleza em que os Incas lutaram e foram vencidos pelos espanhóis, os colonizadores da maior parte da América do Sul no século XVI.

Depois de tomar um bom mate de coca e descansar numa cama por duas horas, para evitar o demolidor soroche (mal das alturas), em Cuzco, situada a 3.400 metros acima do nível do mar, o turista pode começar desfrutando, na Praça de Armas, a beleza da catedral da cidade e da bonita Igreja da Companhia, que são edificações muito antigas. Em seguida, é só ir ao bairro de artesanatos de San Blás, passando antes para visitar o templo incaico de Koricancha.

 

Cuzco é considerado o “umbigo do mundo”

Ao redor da cidade de Cuzco, outra boa opção turística é visitar os imponentes vestígios arqueológicos e arquitetônicos de Sacsayhuaman, onde o presidente Lula esteve no ano passado participando da abertura da Festa do Sol junto com o presidente peruano Alejandro Toledo. Há também monumentos arqueológicos e arquitetônicos em Puca Pucará, Qenqo e Tambomachay, onde se pode observar as características e a precisão da arquitetura Inca. À noite, a opção em Cuzco são as dezenas de bares e clubes dançantes que se estendem pelas ruas e becos que dão acesso à Praça de Armas.

 

Numa das muitas agências de viagem da cidade, cujos endereços são facilmente encontrados no telefone do Sistema Nacional de Informação e Assistência ao Turista (00xx51-5748000), no endereço eletrônico “iperu@promperu.gob.pe” ou no site da Embaixada do Peru no Brasil (www.embperu.org.br), é possível gastar em torno de 110 dólares (pouco mais de R$ 300,00) para ir de trem confortável e passar quatro horas do dia admirando o esplendor e as energias positivas do santuário de Macchu Picchu.

Ou se preferir, o turista pode pagar um pouco mais e desfrutar, com direito a acampamentos organizados e guias para carregar mantimentos e bagagens, da fantástica e inesquecível caminhada de quatro dias pelo chamado “Caminho Inca”. Ali, ele passa quatro dias caminhando pelos topos de altas montanhas e pelas profundezas de grandes vales até chegar ao santuário de Macchu Picchu. Além das maravilhas arqueológicas, que lhe rendeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, Macchu Picchu possui uma flora exótica com mais de 180 espécies de orquídeas, visitadas por uma fauna abundante e pássaros nativos.

Outra fantástica opção turística da cidade de Cuzco, situada a apenas 730 quilômetros da fronteira entre Assis Brasil e a cidade peruana de Iñapari, é ir de carro às cidades que formam o Vale Sagrado, de onde se vai até Macchu Picchu a partir do trem ou pelo Caminho Inca. São cerca de 80 km entre Cuzco e a fortaleza sagrada de Ollantaytambo, passando pelas cidades de Pisaq, Calca, Urubamba, com opção de volta pela cidade de Chinchero, a 3.750 metros de altitude, que possui diferentes estilos de construções Inca e é um dos pontos importantes de produção agrícola do Departamento de Cuzco.

Percorrido pelo rio Vilcanota ou Rio Sangrado, o Vale também foi um dos principais centros de riqueza de Cuzco, onde se produz o melhor grão de milho, sendo preferido pelos seus antigos governantes por seu excelente clima, com temperaturas amenas durante o dia e frio à noite durante o verão na Cordilheira, que vai de abril a outubro, com temperatura média de 9 graus. No inverno, de novembro a março, chove razoavelmente na região, com a temperatura variando de 11 a 13 graus.

A 3.400 metros de altitude, a cidade de Pisac se destaca pela missa em quechua que é rezada em sua igreja principal, por sua população mestiça e por sua zona arqueológica formada por diferentes bairros, entre os quais o de Tanqanamanka, onde existe o maior cemitério pré-colombiano da América Latina. Com excelentes águas termais, Urubamba atrai turistas principalmente dos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá. A pequena cidade se encontra aos pés das montanhas nevadas de Chicón e Pumahuanca, que apresentam grandes atrações para o turismo de aventura por sua rara beleza natural.

Ollantaytambo é a única cidade Inca que se encontra intacta e seu complexo arqueológico é um dos maiores atrativos turísticos do Vale Sagrado. De sua fortaleza, composta de uma montanha de dezenas de degraus, se destacam monolitos de granito rosados. Do alto, o turista tem uma visão impressionante de todo o Vale Sagrado.

O agente de viagem César Peres, da empresa X-Treme Turbulência, de Cuzco, assinalou que a cidade recebeu no ano passado cerca de mil turistas por dia, todos interessados em fazer o Caminho Inca.

Peres reclamou, no entanto, que a demanda do turismo internacional em Cuzco só não é maior porque faltam mais hotéis, bares e restaurantes. “Cuzco desperta interesses de empresas turísticas do mundo inteiro. Mas, para comportar mais turistas, é preciso construir hotéis maiores, novos restaurantes e mais agências de viagem”, destacou.

 

Viajando por cima das grandes montanhas

A partir de Cuzco, a ligação rodoviária do Acre com o Pacífico peruano se dá mais rápido pelo trajeto de Arequipa até as cidade portuárias de Ilo e Matarani. São 520 km de estrada boa, compactada em cascalho, até Arequipa, além de mais 320 km até Ilo, por onde passa a bem sinalizada e pavimentada rodovia Panamericana.

Em vez de fazermos o trajeto Cuzco-Arequipa-Ilo, rumando para o Sul do Peru, preferimos cruzar as duas cidades sulistas voltando de Lima, para onde prosseguimos viagem depois de Cuzco. A estrada que liga Cuzco a Arequipa passa por Juliarca e prossegue depois para Puno, próximo ao Lago Titicaca, na fronteira com o Peru. Em Puno, há também um circuito turístico muito rico da cultura Inca.

Saímos de Cuzco seis dias depois, pois tivemos que esperar dois dias pela chegada da caminhonete que bateu o motor em Quince Mil, pouco antes da subida da Cordilheira, e mais quatro para que o veículo fosse concertado numa oficina especializada. Seguimos no dia seis de agosto para vencer os 1.151 quilômetros que separam Cuzco de Lima. A maior parte desse trajeto passa por sobre a Cordilheira dos Andes, onde o ponto mais alto, de 6.768 metros acima do nível do mar, fica situado na grande montanha de Huascaran, no Centro do país.

Ao longo da Cordilheira, as estações climáticas são bem definidas. A época da estiagem, mais apropriada para os passeios turísticos, ocorre entre os meses de abril e outubro, sendo caracterizada por dias ensolarados, noites muito frias e ausência de chuvas. A época chuvosa ocorre entre novembro e março, com grandes precipitações e temperaturas que variam de 24 graus até três graus abaixo de zero.

A rodovia entre Cuzco e Lima é toda pavimentada, bem sinalizada, com pouco trânsito entre uma cidade e outra. Três horas depois de sairmos de Cuzco, alcançamos a cidade de Abancay, situada num vale profundo, só alcançado depois de mais de meia hora de descida contínua de montanhas, que ali são coroadas pelo imenso cume do nevado de Ampay, a 5.228 metros de altura. Em Abancay, a equipe se dividiu porque a nossa caminhonete teve que parar numa oficina para regular o motor. A equipe da TV Nacional prosseguiu rumo a Lima.

Próximo à Abancay fica a região onde, há 10 anos, houve um desabamento de parte de uma montanha que soterrou todos os moradores do povoado de Querapatas. No lugar das pedras que rolaram montanha abaixo, ficou desenhada a figura de um santo, que passou a ser adorado pelos habitantes da cidade e dos povoados próximos. Nas montanhas de Abancay se destacam a presença de muitos cactos, chamados de Sacto Pitacuy, que são usados por curandeiros peruanos como chá relaxante, com poderes alucinógenos, em cerimônias religiosas.

Ajudados pelo casal de mecânicos Gilbert Sierra e Marta Sales, que se conheceram estudando análise de sistemas de informática na Universidade de Cuzco, onde também estudam brasileiros, prosseguimos nossa jornada por sobre as montanhas rumo à cidade de Púquio, situada a 3 mil metros de altura, onde a população se reúne na praça todos os domingos para saudar a pátria. Com suas vestes coloridas e suas lhamas de olhar majestosos, os camponeses de Púquio vêm na saudação da pátria uma forma de continuarem unidos nos plantios que fazem nas encostas das grandes montanhas que cercam a cidade.

De Púquio rumamos para Nasca. Viajando à noite por sobre as montanhas e tendo que, em dado momento, abastecer a caminhonete em meio a uma forte neblina com ventos, eu, o fotógrafo Dias e o motorista Jorge quase sofremos queimaduras devido ao grande frio que fazia no local. Calculamos que, do lado de fora da caminhonete, a temperatura beirava os 10 graus negativos. Passamos à noite por Nasca e fomos dormir na pequena cidade de Ica, já mais próximo de Pisco, vizinha de Lima, onde chegamos no dia oito de agosto.

Lima, a capital peruana, é a cidade dos reis

Fundada em 18 de janeiro de 1535 pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro, que a chamou de “Cidade dos Reis”, Lima, a capital do Peru, é hoje uma metrópole de mais de sete milhões de habitantes, que conserva com orgulho seus conventos, igrejas, museus e casarões de estilo colonial. A população do país ultrapassa hoje aos 27 milhões de habitantes.

Erguida sobre as terras do cacique indígena Taulichusco, Lima é uma cidade moderna em constante crescimento, que tem mantido a riqueza de seu importante Centro Histórico, também declarado pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. A importância que os peruanos de Lima dão ao seu patrimônio cultural se deve aos incomparáveis monumentos artísticos construídos ao longo dos últimos quatro séculos.

Com temperatura média anual de 19 graus, a capital peruana está situada às margens do rio Rímac e bem próxima ao oceano Pacifico. A cidade, com seus vários distritos elegantes, áreas de lazer e muitos roteiros turísticos, também guarda evidências do período pré-hispânico, sendo o mais importante o grande santuário de Pachacamac, onde se rendia culto ao rei do mesmo nome. No distrito de Miraflores, encontra-se Pucllana, o centro administrativo cultural da cidade.

A Praça Maior foi o centro da antiga cidade colonial. Nessa área, encontram-se a Catedral de Lima, os palácios do governo e da prefeitura e uma fonte de bronze que data de 1650. Entre os seus distritos, destacam-se o de San Isidro, com suas áreas verdes partilhadas por exclusivos bairros residenciais. Há também o de Miraflores, com belos parques, jardins e praias, algumas das mais visitadas, como a da Costa Verde. Miraflores também é famoso por seus cafés, pubs, restaurantes e eventos culturais, que atraem, à noite, milhares de habitantes e turistas interessadas em pintura, musicas e espetáculos.

Famosos por seus balneários, bairros boêmios e seus restaurantes, o distrito de Barranco y Chorrillos também é uma boa atração em Lima. O lugar remonta a aristocracia de Lima, conservando seus casarões e parques de estilo republicano, bastante freqüentados nos últimos anos. No distrito de Santiago de Surco, é possível encontrar modernas edificações e centros comerciais, sem deixar para trás seu passado histórico.

O distrito de Pueblo Libre é aonde o habitante de Lima costuma dizer que “dá gosto de viver”, pois a região é líder em matéria de ordem, segurança, limpeza, ornamentação e meio ambiente. O local se transformou, nos últimos tempos, num dos principais centros históricos-turísticos de Lima devido a seus museus, que mostram as diferentes etapas da história do povo peruano.

Fomos também conhecer a região do Callao, onde está situado o maior porto marítimo do Peru, que tem na pesca, na mineração, na agricultura e no turismo suas principais atividades econômicas. Foram dos antigos canhões de Calhou que o Peru derrotou o Chile na Guerra do Pacífico.

No nível político, o Peru estava passando em agosto por uma séria crise institucional envolvendo o presidente Alejandro Toledo, que junto com seus irmãos e a primeira dama, a judia francesa Eliane Karp, estava sendo acusado de desviar recursos obtidos no exterior através de organizações não-governamentais montadas pela família. Por isso, Toledo amargava na época um índice de aprovação popular de apenas 5%.

Em Lima, reencontramos a equipe da TV Nacional, que havia passado por um contratempo pelo fato de cinegrafista Josenir Melo ter tido seus documentos pessoais e do veículo roubados na chegada à capital peruana. Para continuar a viagem, a equipe teve que se socorrer à Embaixada do Brasil, que providenciou documentos provisórios.

Seguimos, então, todos juntos para a terceira etapa da viagem rumo a Arequipa e La Paz, que será relatada no próximo domingo, no terceiro e último encarte da série “Do Acre ao Pacífico”.

 
 
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Rio Branco-AC, 31 de outubro de 2004
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