OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Florentina Esteves *

 

A rua da Frente

A rua que hoje se denomina Senador Eduardo Assmar, e que faz parte do conjunto do Calçadão da Gameleira, recentemente reconstruído por nosso Governo da Floresta, já se chamou rua Abunã, nos idos da revolução, e depois passou a chamar-se rua Dezessete de Novembro, em referência ao Tratado de Petrópolis. Mas para seus ex-moradores, entre os quais me incluo, ela era simplesmente “rua da Frente”. Frente ao rio Acre, certamente. Aquele que comandava a vida, naqueles tempos sem estrada e sem avião. Pois naqueles tempos o forte do comércio concentrava-se na rua da Frente. E era um comércio sortido ,e variado, geralmente exercido pelos “Turcos”, como se falava dos sírios e libaneses, na época. Era o apogeu da rua, então. Aos poucos, porém, moradores e comerciantes começaram a ser atraídos para o Primeiro Distrito, onde as terras mais altas não ensejavam alagações, e a rua da Frente, assim como o Segundo Distrito, de um modo geral, entrou em declínio. E durante muitos anos a rua foi abandonada, reduzidas a escombros as casas, antes florescentes, cujas fachadas de crepitas apenas escondiam ruínas e mato, alem de marginais. Hoje a rua da Frente foi recuperada, e as fachadas das casas oferecem-nos uma paisagem de cartão postal. A ela acorrem as pessoas, em busca de um sítio aprazível onde exercer seu lazer. E a rua criou vida. Aos poucos os comerciantes ali montaram seus negócios, e hoje ela nos oferece restaurantes, bares, casas de material de construção, de produtos veterinários, confecções etc.

Mas, infelizmente, à rua da Frente acorreram também os marginais, apesar da presença ostensiva da polícia, e, não raro, um crime ali acontece. Ainda na outra noite eu, que não moro mais na rua da Frente, mas nas proximidades, ouvi um tiro que me acordou na madrugada. Assustou-me, pois meu casarão centenário, de madeira, não seria anteparo suficiente para nos proteger de uma bala perdida. E agora?

E agora? O capricho da recuperação da rua, o carinho dos que ali montaram seu comércio, quê podem fazer diante da violência que nos assola? E assola não apenas nosso pequenino Acre, mas as grandes capitais, as grandes metrópoles. E tudo isso em razão de vários fatores, dentre os quais ressaltamos três: a desestruturação do núcleo familiar, a glamourização da violência nos filmes de ação tão em voga, e a impunidade. Sim, a impunidade que prende hoje e solta amanhã os delinqüentes. Que legislação é essa nossa que deixa livre um rapaz, em são Paulo, que após atropelar 17 pessoas e matar uma moça adolescente, na porta de uma boite, é solto? E casos semelhantes sucedem por aqui, desestimulando a polícia a prender aqueles que infringem a lei. E de um policial eu mesma ouvi “de que adianta arriscarmos nossas vidas para garantir a ordem, se logo a mesma pessoa estará de volta às ruas, praticando os mesmos delitos?” De fato. Leio diariamente o jornal, e lá vejo que fulano de tal, sobre o qual pesam inúmeros crimes impunes, cometeu o mesmo delito, que também ficará impune. E agora?

Não sabemos aonde, nos levará, essa crescente onda de violência que põe grades em nossas casas, muros altos e eletrificados, não nos permite sair sossegamente de noite, e nos aprisiona, reféns do medo. Não sabemos. ‘oS” Sabemos somente que há um caminho, porém longo, de chegar-se ao equilíbrio social, capaz de nos proteger da violência, e esse caminho se chama Educação.

É inconteste, todos os caminhos nos levar à Educação.

* Professora e Escritora

 

 
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Rio Branco-AC, 31 de outubro de 2004
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