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Rio Branco - Acre, sábado, 1 de março de 2003
Agricultura familiar: da
subsistência ao agronegócio

Ivandir Soares Campos *

Às vezes temos a impressão que muitas pessoas ainda vêem a agricultura familiar como uma atividade de subsistência, na qual o agricultor é aquele “pobre coitado”, agarrado ao cabo da enxada, trabalhando para sobreviver a duras penas. Aliás, por mais incrível que pareça, apesar de existir um número razoável de instituições públicas e ongs atuando na zona rural e a existência de tecnologias e informações que podem ajudar a mudar essa situação, a maioria dos nossos produtores rurais são pequenos produtores, no real sentido da palavra.

Infelizmente, vivemos num mundo em que as plantas crescem e têm seu valor, os animais crescem e também têm o seu valor (por sinal, matar ou maltratar um animal parece ser mais grave do que o fazê-lo a um ser humano), mas dentre os seres humanos, que também nascem pequenos, há aqueles que, sem condições materiais e sociais, permanecem pequenos e sem perspectivas. Observamos uma ordem universal em que: para os grandes e ricos (países, estados, cidades e pessoas) todo o poder e o que há de melhor, o resto é periferia com direito apenas às sobras.

Mas, vamos voltar ao pequeno produtor rural. Seria possível transformar a agricultura familiar em agronegócio? Será que em alguma região essa atividade já não é tratada como tal? Onde os produtores, mesmo usando a mão-de-obra familiar e outros insumos existentes na propriedade, se organizam em associações e cooperativas para comercialização das suas colheitas e aquisição de produtos de suas necessidades. Sabemos que, no Acre, já existem algumas associações e cooperativas que vêm lutando para saírem do sustentado para o sustentável, mas ainda há aquelas formadas com objetivos não muito claros, que não sobrevivem por muito tempo, acarretando problemas de credibilidade para as comunidades a elas ligadas.

Por que há tanta dificuldade em se fazer com que a maioria das atividades agropecuárias e agroflorestais deslanche mais rapidamente, tornando-se, de fato sustentáveis (econômica, social e ecologicamente)? Existe apoio dos governos, existem tecnologias, existe assistência técnica, existe crédito e existem demandas por produtos, tanto em nível local como para exportação.

Acreditamos que, em certos casos, há necessidade de uma melhor organização da cadeia produtiva, com uma definição de papéis nos vários processos, sob a coordenação do Governo do Estado. Há muitas instituições públicas, privadas e ongs atuando no Estado mas, em muitos casos, de forma dispersa, em que o produto final, apesar de todos os esforços despendidos, não aparece de forma concreta, gerando o impacto esperado.

Imaginemos uma situação perfeitamente cabível no Acre em que se pretenda atender à necessidade interna do consumo de arroz, que é de aproximadamente 20 mil toneladas de arroz beneficiado. Considerando-se um consumo médio de 40kg por pessoa/ano, para uma população de 500 mil habitantes. Se considerarmos uma variedade de arroz com rendimento de 60%, para obtermos as 20 mil toneladas sem casca, necessitamos de aproximadamente 34 mil toneladas de arroz em casca. Considerando-se uma produtividade de duas toneladas por hectare, precisamos de 17 mil hectares de plantio para atender a essa demanda. Se dividirmos esse número por quatro municípios, teremos uma área com pouco menos de 4.500 hectares para cada município.

Vejamos agora um exemplo para um município com 20 mil habitantes, considerando-se o mesmo consumo por pessoa e o mesmo rendimento da variedade plantada. Seriam necessárias 800 toneladas de arroz beneficiado, que correspondem a 1.300 toneladas de arroz em casca. Da mesma forma que no exemplo anterior, considerando-se duas toneladas por hectare, seriam necessários 650 hectares para produzir esse arroz. Se envolvermos 350 produtores plantando cada um dois hectares ou 200 produtores plantando três hectares e meio cada, teremos uma área total de 700 hectares, o que é superior à necessidade apontada no exemplo.

Até aqui tudo muito simples. Porém! aí temos que analisar os poréns. Em primeiro lugar vem a seleção dos produtores, verificando as questões de ramais para escoamento da produção; acesso a crédito (se for o caso) para elaboração e encaminhamento do projeto com a devida antecedência, para que os produtores possam receber os recursos um pouco antes do início das atividades de campo; e como disponibilizar sementes de boa qualidade para que o plantio possa ser efetuado na época certa. Infelizmente, grande parte dos produtores ainda espera que o governo compre e distribua sementes, o que deve ser feito pela iniciativa privada que, talvez por medo de sofrer prejuízo oferece apenas pequenas quantidades. Faz-se necessário um acompanhamento técnico bem feito, desde o preparo da área até a colheita, embora a maioria dos produtores já conheça muito bem essa lavoura.

Outro momento que merece atenção especial é aquele depois da colheita. O que fazer com a produção: como escoar, beneficiar e comercializar? É necessário que essa infra-estrutura esteja em condições de atender à demanda, pois, do contrário, é prejuízo na certa e o produtor jamais vai querer plantar novamente. Continuará plantando apenas para o consumo da propriedade. Havendo infra-estrutura de secagem e armazenamento em condições de atender às exigências da CONAB, poderá ser adotado o Programa de Garantia de Preço Mínimo do Governo Federal, que permite ao produtor ganhar um pouco mais na entressafra. Mas, isso requer um bom planejamento e esclarecimento ao produtor sobre os custos do processo e o sistema de comercialização do produto.

No caso do milho pode-se adotar a mesma idéia. Em 2002, o preço do milho no comércio local variou de R$ 6,00, na safra, até R$ 36,00 no período de escassez. No caso de se pensar em exportação, havendo garantia de comercialização e um preço bom, é possível a recuperação de pastagem utilizando-se o milho, prática já conhecida de pecuaristas do Estado.

Outras atividades agropecuárias, agroflorestais e florestais também podem e devem ser trabalhadas com a visão de negócio, mesmo em pequena escala, pois nenhum agricultor trabalha apenas para alimentar a família. Se sua atividade não der renda, ele, fatalmente, vai mudar para outra, a exemplo da pecuarização em muitas propriedades rurais do Estado, ou vai vender a colônia e vir para a cidade. É preciso que os produtores rurais estejam organizados e orientados para exercerem as suas atividades com uma visão de negócio para não fracassarem.

Sabemos que há demanda para vários produtos da região, mas, para muitos deles, é necessário saber: Quanto se pode produzir para atender ao mercado? Onde está esse mercado? E no mercado internacional, há espaço, aceitação e preço compensador? E a qualidade do nosso produto tem condições de atender às exigências desses mercados? Temos certeza de que é possível atender à demanda interna de alguns produtos e de que poderemos ser competitivos em outros, se houver uma união de esforços em torno de algumas cadeias produtivas, sob a liderança do Governo do Estado, com atribuições definidas para os diversos atores envolvidos no processo e, o que é fundamental, o aporte de recursos materiais, humanos e financeiros em programas e projetos com foco bem definido. A sugestão é que os Programas devem ser do Estado, mas de execução municipal, com o envolvimento das diversas instituições que têm condições de atuar na cadeia produtiva.

* Eng. Agrônomo (ivandir@cpafac.embrapa.br)

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