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Rio Branco - Acre, sábado, 1 de março de 2003

Monografia analisa embrião da economia sustentável praticada no Acre

Ciclos de borracha e pecuária entremeados por “empates” de terras criaram terreno fértil para o novo modelo social

Josafá Batista

Apresentada ao curso de graduação em Economia pela Universidade Federal do Acre (Ufac) a monografia “Ambientalismo e desenvolvimento sustentável: o caso da borracha e da pecuária no Acre”, de Fernando Farias Sevá, faz uma análise crítica dos fatores que precederam o chamado “modelo de desenvolvimento sustentável”, a coqueluche do momento, cuja definição mais popular mais clara é “uma forma de desenvolver as cidades sem agredir o meio-ambiente”.

O estudo de Fernando busca fatores históricos, sociais e econômicos do passado acreano para definir as condições que geraram esse movimento. A intenção é montar uma definição mais próxima, inteligível e abrangente. A sustentabilidade, como é abreviada, é o bastião do atual governo estadual. É um movimento tão revolucionário quanto amplo e pouco aberto a explicações. Vem, por exemplo, cravejada de expressões inovadoras e ousadas - como o termo “florestania”, substituto de “cidadania” - que simplesmente aderiram ao modo de dizer e ser do acreano, sem explicações prévias.

“Os ciclos da borracha e os movimentos libertários que evitaram, entre outras coisas, uma dominação hispânica irresponsável e uma exploração norte-americana capitalista, nos aproximam da real dimensão da ‘sustentabilidade’ apregoada hoje. É um movimento que obedece a uma dinâmica de transformações sociais locais, mas também está em sintonia com os maiores conglomerados internacionais que combatem, hoje, o capitalismo selvagem, um predador dos recursos naturais”, explica Fernando Sevá.

ECONOMIA - O estudo também pretende oferecer subsídios técnicos para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à verdadeira vocação do povo acreano. Pecuária, extrativismo e agricultura podem, segundo Fernando, conviver numa economia que tende à auto-suficiência - desde que a abundância de recursos naturais não se transforme em trampolim para o endividamento estatal, como aconteceu em diversos Estados brasileiros.

Pecuária assimilada pela cultura seringueira

De acordo com o estudo, a criação de bovinos no Acre sempre foi uma atividade de subsistência para a população rural, tanto que nas épocas em que a produção de borracha estava em plena atividade (início e meados do século 20) essa e outras atividades rurais eram relegadas a um segundo plano, na verdade sendo proibida pelos seringalistas, que determinavam que o seringueiro deveria manter-se ocupado apenas como a extração da borracha.

“Nesse mesmo período a carne bovina era importada da Bolívia para suprir a demanda local. Isso se dava em razão de que, desde que foram implantados, os seringais acreanos sempre necessitaram de um abastecimento regular de carne fresca. A alimentação baseada somente em enlatados que vinham da Europa industrial para alimentar as correntes de dependência econômica da borracha provocava a debilidade orgânica dos seringueiros, com diminuição de sua produtividade. Por isso, era necessário fornecer-lhes carne fresca, fosse através da caça ou do gado de corte, que só podia ser obtido, naquela época, nos campos bolivianos”, explica o estudo.

Depois da década de 50, com a nova queda na produção da borracha, depois de malsucedidas tentativas de retomada da produção da borracha e sucessivas crises no setor gomífero, os seringais foram sendo abandonados e os seringueiros que permaneceram nas suas colocações começaram a desenvolver atividades agrícolas e pequenas criações de animais.

Sustentabilidade: sonho mundial, realidade local

Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo viveria uma segunda fase de grande crescimento da produção e também de estabelecimentos agressivos de uso de seus recursos naturais. Porém, a partir da segunda metade da década de 60, surgem as primeiras propostas de proteção ao meio-ambiente, pois a sociedade começava a perceber ainda que lentamente que os recursos naturais eram em sua maior parte finitos (ou renováveis a uma taxa muito lenta).

A própria sobrevivência do capitalismo estava condicionada a suas relações com o meio ambiente. Os industriários, a sociedade civil organizada e até chefes de Estado começaram a por em pauta o meio-ambiente, já que em uma sociedade capitalista, a escassez dos fatores de produção para o capital é um fator determinante para o seu insucesso.

Considerada a maior manifestação dessa preocupação mundial, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio-Ambiente e Desenvolvimento (RIO 92) propôs políticas práticas de desenvolvimento “sustentável”, isto é, sem a predação dos recursos naturais praticada até então. Seu maior documento, a Agenda 21, foi dissecada na formulação de políticas públicas pelo governo do Estado do Acre, a partir da segunda metade da década passada.

A experiência foi melhorada pela criação, em 1990, de quatro reservas extrativistas, que totalizavam uma área de 2.165.899 hectares, sendo duas delas no Acre: a Reserva Extrativista Chico Mendes, com 976.570 hectares e a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 503.186 hectares.

Seringais e fazendas disputam um mesmo espaço

No início da década de 70 havia os empresários, fazendeiros e especuladores recém-chegados às terras que haviam comprado ou grilado, de um lado. De outro, os seringueiros e posseiros que mesmo com todas as condições adversas permaneceram em suas colocações ou posses com o intuito de dar continuidade ao “roçado”, às “criações” e à extração da borracha.

Os novos donos das terras, porém, estavam ávidos por desocupá-las, afinal de contas a terra tinha que “produzir” e em alguns casos a desocupação servia apenas para facilitar novas transações, como revende-la integralmente ou em lotes. A área precisava estar “limpa”, a presença indesejável dos seringueiros e posseiros consistiria num grande empecilho, tanto para os que queriam desenvolver atividades agropecuárias, quanto para os que queriam apenas especular com a terra.

Os antigos ocupantes não foram considerados quando da compra ou grilagem da terra, pouco importava qual seria o destino deles, sua cultura ou sobrevivência. E aqueles homens, que durante muito tempo estiveram presos ao sistema de aviamento e às mais severas condições de trabalho durante o período em que os seringalistas ainda coexistiam com eles, estariam tendo sua recente liberdade tolhida por interesses escusos.

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