
Carnaval que enriquece a alma
A matéria sobre o Carnaval de antigamente publicada ontem por este diário, com texto da repórter Tatiana Campos, é uma lição de alegria compartilhada e de um sentimento moldado no que há de melhor da história secular dos acreanos. Lembra um passado que precisa ser resgatado no presente e copiado no futuro.
As boas coisas se eternizam quando mantemos o coração aberto para guardá-las na memória. Um Carnaval tão bom como o que lembraram as garotas dos anos sessenta Acirema, Maria Celeste e Zelita Rodrigues pode ser revivido no Carnaval da Gameleira pelos jovens de hoje. Por que não?
Ali estão os mesmos ingredientes: a Gameleira, a rua da frente do Segundo Distrito restaurada, a proximidade do clube Tentamen e até as simpáticas senhoras carnavalescas de antigamente, que descreveram a alegria do seu tempo. Se dispusessem de mais tempo e espaço, certamente, iriam cantarolar para a repórter a marchinha dos compositores carnavalescos locais: “O Carnaval/ no Acre é de abafar/ Tem morenas/ pra sambar...” Era tão boa quanto as que importavam do Rio de Janeiro. Já o hino do Clube Rio Branco: “Viva o Zé Pereira/ Viva o Carnaval” dava o toque do sonho derramado.
Nas ruas, os “sujos” e os “mascarados” faziam a criatividade aflorar. Viravam personagens bufos que ajudavam a empurrar brincantes ou não para a fantasia coletiva. Nem os hóspedes do Hotel Chui, administrado pelo Governo, resistiam à tentação de sair com uma lata na cabeça reclamando da falta d’água no prédio. E as críticas eram respeitosas, quase ingênuas. Alguém podia identificar-se com um “Dr. Sá” escrito nas costas e carregar uma cana no ombro. A carapuça cabia em muita gente e fazia rir.
Não havia estupros, assassinatos, furtos, acidentes de trânsito, Aids, mortes por overdose, empurrões ou agressões naqueles tempos. Na quarta-feira de cinzas, o que se via era muita serpentina e confetes enfeitando a cidade e restos de fantasia pelas calçadas. Tudo sinalizando para uma saudade enorme da felicidade que chegara ao fim.