
Jorge Viana
“Acre é espelho da economia florestal na Amazônia”
ALTINO MACHADO
O governador Jorge Viana saiu muito animado ontem da reunião que teve com o comitê executivo da Organização Internacional de Madeiras Tropicais.
Engenheiro florestal, Jorge Viana deu garantias de que o desenvolvimento da economia florestal será a marca do segundo mandato.
O Acre está a um passo de oferecer ao mercado, apenas com a exploração manejada da Floresta Estadual do Antimay, 80 mil m³ de madeira.
Jorge Viana disse que a exploração dos recursos florestais será feita sem agressão ao meio-ambiente e prometeu apertar o cerco contra quem se envolver com a exploração florestal ilícita.
Ele revelou detalhes da agenda do encontro que o presidente Luís Inácio Lula da Silva terá no Acre com os governadores da Região Norte e da disposição para erradicar o analfabetismo no Estado.
O governador está articulando a logística para a proposta de conclusão da BR-364 até Cruzeiro do Sul. “Mesmo que haja um montão de dinheiro, a estrada não sai sem logística de construção”, afirmou.
Leia os melhores trechos da entrevista.
Qual o horizonte do desenvolvimento durável no Acre?
Estamos entrando numa nova fase. Vamos fazer no Governo da Floresta, a partir de agora, com a casa arrumada, a economia da floresta. Vamos ver o Acre se consolidar com uma economia à parte do governo. O projeto da Floresta Estadual do Antimary é um embrião, onde acumulamos uma experiência que ultrapassa 10 anos. Ele agora passa a ser um modelo para a criação de novas florestas estaduais.
Qual a decisão de governo para o setor florestal que o senhor comunicou ao comitê diretor da ITTO?
Comuniquei que é uma decisão de governo explorar de forma manejada, sem agressão à floresta, toda a área estudada do projeto Antimary. Isso implica oferecer ao mercado 80 mil metros cúbicos de madeira manejada e, se possível, certificada ainda neste ano. Esse volume de madeira corresponde a mais de um terço do que o mercado movimenta atualmente. Observe que esse aporte tão significativo será resultante da exploração de apenas uma área, de um projeto.
Qual a base desse projeto?
A base dele é o uso múltiplo da floresta. Teremos duas fábricas de castanha em funcionamento neste ano em Xapuri e Brasiléia. Não para beneficiar a castanha do Antimary, mas a que é produzida no Alto Acre. Também teremos, dentro de dois meses, uma indústria de borracha funcionando aqui em Rio Branco, ainda com uma capacidade reduzida de 30 toneladas ao mês. Mas isso é muito importante.
Podem surgir entraves que exijam uma ação firme do governo para que prevaleça o interesse público?
Sou contrário a que fiquemos, na área da floresta e da agricultura, apenas criando proibições. Não só dizer que não pode. Nós temos que construir o como pode. Com essa oferta de madeira manejada e com o início do manejo certificado das áreas comunitárias no seringal Cachoeira e na reserva Porto Dias, a gente começa a ofertar uma produção legalizada a quem quer trabalhar dentro da legalidade. Com isso a gente ganha força para combater a ilegalidade com mais veemência. Não vamos aceitar que alguns façam a opção pelo que é ilícito.
É por isso que o senhor declarou ao comitê da ITTO que o Acre não ficará refém de quem atua na ilegalidade?
Por ter tido a ousadia de construir caminhos alternativos que hoje são modelos reconhecidos como positivos para o Brasil e o mundo, o Acre terá condições de intensificar o combate a qualquer exploração florestal ilegal, que destrói o meio-ambiente e, conseqüentemente, o interesse da sociedade.
As coisas importantes só começam a acontecer realmente depois do Carnaval no país. O que vai acontecer no Estado a partir da Quarta-feira de Cinzas?
Nós estamos concluindo o trabalho de planejamento, de definição de muita coisa realmente importante para o Acre. Eu devo, a partir da próxima semana, percorrer novamente todos os municípios acreanos para dialogar com a sociedade sobre esse novo modelo de gestão que desenhamos para o Acre. A partir de abril, deveremos anunciar para a sociedade o fruto desse trabalho e pactuando as metas, ações e desafios que teremos pela frente.
Do que já está desenhado, o que o senhor destacaria como relevante para o governo e a sociedade?
Nós fizemos um trabalho muito bonito na área de educação. Devemos ter alfabetizado entre 50 e 60 mil pessoas em três anos. Ainda devemos ter no Acre próximo de 50 mil analfabetos. Conseguimos agora, com apoio do presidente Lula, do ministro da Educação Cristovam Buarque e da indústria Pirelli, firmar um pacto para erradicar o analfabetismo no Acre em três anos. Creio que seja a primeira vez na história que um Estado se impõe esse desafio. Se a gente conseguir essa proeza no prazo que estabelecemos, tenho certeza de será um feito marcante, dentro e fora do país. Vai ser algo muito importante para a terra de Chico Mendes e de Marina Silva. Acho que se a gente não fizesse mais nada, mas conseguisse erradicar o analfabetismo já seria de bom tamanho. Vejo esse desafio porque superá-lo será um marco para nossos 100 anos de história. O combate ao analfabetismo para mim é a maior e a melhor das batalhas que teremos.
Qual a sua expectativa em relação à agenda do encontro do presidente Lula com os governadores da Região Norte, previsto para acontecer no Acre?
É provável que o presidente Lula venha ao Acre no final de março ou em meados de abril. Um dos temas que estamos propondo para a agenda é a assinatura do pacto para erradicar o analfabetismo. Nessa ocasião possivelmente estaremos entregando o Hospital da Criança, inaugurando o linhão de energia e assinando o protoco para construção da fábrica de preservativos em Xapuri. Nós, governadores, estaremos conversando sobre política florestal, tendo a economia florestal como modelo.
Até pouco tempo os governadores da Amazônia concebiam o desenvolvimento da região de maneira bem diferente. O senhor acha que os governadores atuais estão afinados com a visão do desenvolvimento durável?
Essa é uma região que não pode ser administrada. Ela tem que ser cuidada. Costumo dizer que não me sinto administrando o Acre. Eu me sinto cuidando do Acre junto com meus amigos, minha equipe de governo e com os funcionários públicos. Cuidar é mais nobre porque envolve sentimento. A Amazônia precisa de cuidados. Ela é grande e majestosa, mas é formada por minúcias e partículas. Nunca tivemos um ambiente tão favorável e sei que nossa política de desenvolvimento tem enorme influência junto aos colegas governadores. O Acre é o espelho da economia florestal na Amazônia. Estou cumprindo a missão de sensibilizar os demais governadores no sentido de que também cuidem dos seus Estados como nós cuidamos.
Ainda em relação à presença do presidente Lula, a construção da BR-364, ligando Rio Branco a Cruzeiro do Sul, estará na agenda do encontro?
Com certeza. Essa é uma questão prioritária. Já estive em Brasília tratando disso.
O que o senhor já tratou com o governo federal em relação à estrada?
O que está sendo tratado é que temos que montar uma logística para a proposta de conclusão da estrada. Mesmo que haja um montão de dinheiro, a estrada não sai sem logística de construção. Na região só é possível trabalhar numa obra dessa durante cinco meses por ano. Parte do material tem que ser transportado de balsa. Certos materiais têm que ser comprados no inverno para ser usados no verão. O cimento vira pedra se não for usado a tempo. Existe um monte de complicação que precisa ser contornado. Essa logística está sendo preparada pela nossa equipe.
Plano de logística para uma obra dessa não é comum na vida pública e por isso muitos recursos são desperdiçados. Existem regras que precisam ser mudadas para viabilizar a obra?
Sim, algumas regras precisam ser mudadas. Se o dinheiro for liberado para a obra como é liberado para o resto do Brasil, a chance de conclusão dessa estrada se torna menor. No Brasil, a sistemática é aquela de primeiro executar a obra para depois receber o pagamento. Aqui, temos que comprar insumos num período, executar noutro período e dar a conclusão num terceiro. Não dá para construir uma estrada ótima na Amazônia. O máximo é a construção de uma estrada boa. Chove muito, os rios estão em formação. No fundo, no fundo, a rodovia não é adequada para o nosso ambiente. Estamos fazendo por pura necessidade. Outros modelos deveriam ser pensados, como o de hidrovias e ferrovias.