
Algum sinal de impaciência, entre o vermelho e o amarelo, parece ter sido captado pelo PT. O presidente do partido, José Genoino, apareceu na maioria das inserções televisivas da propaganda partidária pedindo compreensão com o ritmo das mudanças e explicando as dificuldades que o governo enfrenta. O presidente Lula, segundo auxiliares, está apertando seus ministros.
Se a ortodoxia econômica agora é inevitável, os sinais de mudança têm que vir de outras áreas, sejam eles concretos ou simbólicos. Daqui para a frente o encantamento começa a ser tisnado pela dureza do cotidiano e as críticas da oposição — empenhada em dizer que o governo Lula é a continuação do de Fernando Henrique — ganharão ressonância crescente. Exemplo dos sinais concretos de mudança pedidos por Lula, o grito do ministro Miro Teixeira com as empresas de telefonia, às quais não concederá o reajuste de tarifas contratado pelo IGP-DI, que bateria em mais de 36%. E a ação federal no Rio, mas essa foi uma imposição dos fatos, não uma deliberação. Exemplo de mudança simbólica, a iniciativa do PT de encaminhar à Mesa do Senado denúncias contra o senador Antonio Carlos Magalhães no caso dos grampos. A indulgência petista nesse caso já vinha incomodando as próprias bases. Genoino orientou os presidentes dos diretórios estaduais a também usarem o tempo de propaganda regional em defesa do governo.
Para depois do carnaval, Lula pediu a imediata execução das medidas que anunciou com o aumento da meta de superávit e o corte de R$ 14 bilhões no Orçamento. Vêm aí o seguro-safra, o dinheiro para financiar a safrinha de milho, os novos quiosques de internet dos Correios, por exemplo. Ainda este ano Lula quer ver funcionando algumas farmácias populares e implantado em alguns estados o programa de erradicação do analfabetismo adulto.
As pesquisas qualitativas foram um instrumento estratégico de Duda Mendonça na campanha de Lula, ajudando-o a sintonizar o discurso do candidato com o anseio de mudança da população. Não há pesquisa nova e até aqui, garante Marcus Flora, secretário-adjunto de Comunicação, os sinais de impaciência e as cobranças partem apenas da imprensa, de segmentos voluntaristas do partido e naturalmente da oposição. A população, pelo contrário, tem externado grande compreensão das dificuldades e nunca esperou mudanças bruscas, até porque o presidente foi franco a esse respeito na campanha, diz ele.
Mesmo assim, o PT e seus estrategistas, políticos ou de marketing, sabem o quanto é volátil a popularidade e administram cuidosamente as expectativas deste ano, cuja travessia não será fácil. Será de comer o angu quente, como disse Lula.
No Brasil, o carnaval marca também o início efetivo do ano político, com o Congresso entrando em ação e o governo corrigindo a rota dos primeiros 60 dias. Neste carnaval, a eleição de Lula e as emoções da mudança ainda terão eco nos desfiles das escolas de samba. Depois dele, o país embarcará na realidade.
Inclusão digital, um passo
Até 2004, as 3.890 agências dos Correios terão em seus quiosques 5.690 terminais de computador com acesso à internet à disposição da grande maioria “desplugada” da população. As estatísticas, pouco seguras a esse respeito, dizem que uma minoria de 6% a 10% tem acesso à rede. Este ano, o presidente Lula quer ver instalados pelo menos mais 500 terminais. A Unisys, vencedora da licitação para fornecer os equipamentos e dar manutenção à rede, está tomando providências para cumprir a meta antecipada.
O programa dos quiosques, o E-Post, permitirá a qualquer usuário ter seu e-mail permanente e oferecerá dez minutos de navegação gratuita no portal Rede Governo e nos sites dos Correios. Para navegar em outros sites da internet, imprimir páginas, escanear documentos e transferir arquivos, será preciso comprar um cartão nos guichês. Os neófitos poderão pedir o auxílio de orientadores. Um passo dentro de um grande desafio.
Uma voz da direita
Aldo Rebelo, líder do governo, Nelson Pellegrino, líder do PT, seus vice-líderes e líderes de partidos aliados mantêm um plantão permanente na Câmara para responder aos ataques da oposição, que agora está mostrando as garras. Ontem, sexta-feira morta, descuidaram. O deputado ultradireitista Alberto Fraga (PMDB-DF) disse cobras e lagartos do governo. Entre outras barbaridades, afirmou que o governo Lula declara ser parceiro político das Farcs colombianas, além de ter uma aliança com Muamar Kadafi, “esse traficante de mulheres”.
O deputado é obscuro, mas o pronunciamento, como todos, foi transmitido ao vivo pela TV Câmara.
A COMISSÃO especial da reforma política examinará proposta curiosa do deputado estreante Bernardo Ariston (PSB-RJ). Através de emenda constitucional, ele propõe que tenham assento na Câmara os candidatos a presidente que tenham obtido, na eleição, mais de 10% dos votos válidos. Acha que a experiência desses políticos, que no mínimo estudaram os problemas do país, seria de grande utilidade no Congresso, não devendo ser desperdiçada. Caso tal regra existisse, estaria beneficiando José Serra, Anthony Garotinho e Ciro Gomes, o único que tem no momento função pública, porque se tornou ministro de Lula. Ministro cuja compreensão e disciplina os petistas não se cansam de elogiar.
Tereza Cruvinel