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Rio Branco - Acre, domingo, 9 de março de 2003
O Carnaval de Bush filho

Archibaldo Antunes

Carnaval, pra mim, só é bom quando termina. O leitor que sobreviveu ao delírio das lantejoulas e aos milhões de litros de cerveja, eu sei, não vai querer ouvir falar de nada que apague a picardia dos blocos carnavalescos, que perdura mesmo depois da quarta-feira de cinzas. Mas se os olhos dos foliões ainda cintilam com as lembranças das noites passadas em branco (ou em colorido, o que seria mais apropriado), Bush filho (da p.) teima em invadir o Iraque.

Há entre o Carnaval e a guerra do Iraque - porque vai haver guerra, sim, não se enganem - mais coisas do que pode supor nossa vã filosofia. Pois se a guerra é, entre outras coisas, uma catarse dos poderosos, um expurgo do que neles existe de pior, o Carnaval serve para que alguns liberem o que há de mais vil na personalidade, aquela sujeira que desde a infância foi sendo varrida pra debaixo do tapete.

Por falar em infância, os tempos atuais andam tão conturbados que vi outro dia uns meninos brincando de "guerra do Iraque", o que me espantou. Pois no meu tempo a gente gostava de bang-bang, uns sendo índios e outros, caubóis. As armas eram revólveres e arcos e flechas de brinquedo, que alguns de nós ganhavam de Natal e outros, os mais pobres, improvisavam com pedaços de qualquer coisa. Os cavalos eram cabos de vassoura e a gente dava mais "tiro" do que o Rambo no Vietnã.

Na brincadeira dos meninos que vi não havia armas indígenas ou de fogo, mas apenas referências a mísseis scuds, bombas atômicas e, pasmem!, um carregamento de Antrax - o que me fez crer que eles andam (perigosamente) acompanhando o noticiário.

Os diálogos eram mais ou menos assim:

"Tu tem que se render, Saddam, senão vou jogar uma bomba atômica no teu palácio".

O outro menino, bem menor do aquele que se dizia George Bush, respondia:

"O terror vai dominar! O terror vai dominar!".

E ambos se atracavam, aos tapas e repelões, com Saddam, claro, levando a pior até naquela brincadeira de criança.

Um terceiro garoto, que parecia fazer ali o papel de Tony Blair, gritava "dá nele, Bush, dá nele!".

Fiquei observando o teatrinho infantil entre divertido e intrigado, imaginando que os tempos, definitivamente, são outros. A globalização encurtou horizontes para nos impor uma nova ordem mundial, que consolida o domínio absoluto dos mais fortes - e que também já começa a afetar até mesmo as brincadeiras de criança.

E aqui volto ao Carnaval como alegoria de uma sociedade que se permite, em quatro dias, fazer o que nos outros 361 seria uma afronta aos bons costumes. Em outras palavras: enquanto o mundo lamentava a guerra inevitável, você, leitor machão, extravasava as frustrações vestido de mulher.

*Cronista/ark30antunes@bol.com.br

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