
Meio do caminho
No ano passado, a esta altura, o dólar estava em R$ 2,30, agora está em R$ 3,50; o risco-Brasil estava em 800, agora está em 1.100; a taxa de juros era oito pontos mais baixa e a inflação anualizada, metade da atual. Mas o país está melhor agora porque já passou pela transição política sem confirmar as catástrofes previstas. O quadro econômico melhorou e tem espaço para melhorar ainda mais.
Os indicadores econômicos podem estar piores agora do que há um ano, mas, durante o tenso ano de 2002, a conjuntura piorou muito e hoje o clima entre investidores e analistas é de alívio pelas previsões não confirmadas e pelas melhoras dos últimos meses.
O economista Marcelo Sperb, da Nobel, está prevendo, inclusive, uma revisão da classificação de risco-país pelas agências, e novas queda desse risco:
— Não faz sentido que a Rússia, que deu um calote há quatro anos, esteja com risco de 300 pontos; que a Turquia, que passa por crises e está de frente para o conflito, esteja com 600 pontos e o Brasil acima de 1.000 — diz Marcelo.
Ele lembra também que a classificação do risco-Brasil foi fixada pelas agências quando as perspectivas para o país ainda eram muito incertas.
Em resumo: o quadro econômico estava melhor há um ano, mas depois piorou muito e agora volta a melhorar.
Ainda assim, há dificuldades à frente, uma delas é a inflação. Nenhum especialista acha que a queda da inflação em fevereiro e a redução prevista para marco e abril possa ser considerada uma reversão de tendência.
José Roberto Mendonça de Barros acredita que uma das razões de manutenção da inflação elevada é a alta dos preços agrícolas, em parte, pela subida das commodities no mercado internacional. Isto é bom para a balança comercial, mas tem impacto na inflação doméstica.
— O gráfico mostra que, depois da entrada da safra, os preços agrícolas pararam de subir, mas não caíram — comenta José Roberto Mendonça de Barros.
Luiz Roberto Cunha, da PUC e Fecomércio-RJ, acha que, nos próximos meses, haverá a pressão de aumento de combustível.
— Em julho, vão ocorrer aumentos nas tarifas de energia, em São Paulo, e de telefonia fixa no Brasil inteiro. Se o telefone subir 25%, isso representa um aumento de 0,75 ponto percentual na inflação. E, se o reajuste de energia da Eletropaulo for de 27%, o impacto será de 0,33 ponto em julho mais um resíduo para agosto. Isto significa que, em julho, só com estes dois reajustes, a inflação pode ser de 1,08% — explica Luiz Roberto.
Ao longo do ano, a inflação vai cair; esta é a convicção geral. Hoje está em 14,5% acumulada em doze meses — há um ano estava em 7,51% —; pode subir mais um pouco, mas depois voltará a cair.
— Deve convergir para algo em torno de 10% e 11%, não acredito que se cumpra a meta — analisa José Roberto Mendonça de Barros.
Aliás, poucos acreditam que seja possível levar a inflação para 8,5% nos próximos meses.
As previsões de crescimento econômico do ano são pessimistas. Também são poucos os que acham que o país pode crescer forte este ano.
— Estou mais pessimista do que o resto do mercado e acredito que o crescimento deve ficar em 1%. A demanda está de joelhos — diz José Roberto.
O que está extraordinariamente bom é o quadro das contas externas.
Há bancos, como o Unibanco, cujo departamento de pesquisa prevê que, no ano, o déficit em transações correntes possa ficar em US$ 3 bilhões. Hoje está em R$ 6,5 bilhões. Há dois anos, no começo de 2001, era de US$ 25 bilhões. De lá para cá, o Brasil fez um tremendo ajuste. A balança comercial neste período em 2002 estava em US$ 4 bilhões no acumulado em doze meses e, agora, está em US$ 14 bilhões e deve subir mais um pouco.
— Estou achando que a balança deste ano deve ficar em US$ 16 bilhões — afirma José Roberto.
Há quem preveja US$ 18 bilhões de saldo.
Apesar disto, o mercado aguarda abril, que será um mês de concentração de vencimentos de dívida externa do setor público e privado. Ao todo, US$ 2 bilhões vencem no mês que vem. Será um importante teste para a capacidade brasileira de se financiar.
De novo, a resposta para o que vai acontecer nos próximos meses na conjuntura econômica está na política.
A persistente inflação alta impede a queda dos juros — e forçou até duas elevações das taxas. Isto acirra a discussão interna no governo sobre rumos da política econômica. Entretanto, até o momento, o grupo palaciano garante que a escolha feita é a única opção e que não se pensa em alterações, até porque não haveria alternativa.