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Rio Branco - Acre, terça-feira, 11 de março de 2003

Luzanira Belém

História de violência e fé

Rose Farias

A agricultora Luzanira Belém, 28, condenada a seis anos e oito meses de prisão em regime semi-aberto como co-autora do assassinato do marido - acusada por um dos assassinos, Cristiano Costa do Carmo, na época menor -, nega sua participação no crime.

Luzanira relata jamais ter imaginado que um dia fosse passar por tanta humilhação. Durante o julgamento, comandado pela juíza substituta da comarca de Senador Guiomar Luana Cláudia, na última sexta-feira, a agricultora foi tratada pelo promotor Efraim Mendonza como “vagabunda”, “santinha-do-pau-oco” e “sem-vergonha”.

Para Luzanira, o difícil é compreender por que a Justiça não acredita em sua versão, mas na versão de Cristiano, sustentada pelo testemunho da própria irmã. O menor a estuprou após o crime e está em liberdade.

Mãe de Janaína,14, Marcialdo,10, e de Kesia, 5, Luzanira Belém, durante a entrevista, demonstrou medo e tristeza. Ela disse ter esperança de que a presença da reportagem seria de grande ajuda para protegê-la e a seus filhos. “Nós corremos risco de vida”, admitiu.

O menino Marcialdo presenciou o assassinato do pai e o estupro da mãe. Ele tremia e suava com a presença da reportagem. “Ele fica assim todas as vezes em que vem gente aqui. Ele tem medo de tudo depois do que aconteceu”, disse a mãe. Marcialdo surpreendeu a equipe ao abraçar o repórter fotográfico Marcos Vicentti. Parecia pedir carinho e proteção.

O defensor público Valdir Perrazzo acredita na inocência de Luzanira. “O caso de Luzanira é semelhante à situação das mulheres muçulmanas, que depois de estupradas são sujeitas a penalização”, declarou.

Depois de ter perdido o marido, ser estuprada por um dos assassinos na presença de dois filhos, passar um ano na cadeia e finalmente ser condenada a seis anos e oito meses de prisão, Luzanira Belém ainda tem força para confiar na Justiça. “A verdade virá à tona.” Leia a entrevista.

A senhora poderia relatar o que aconteceu do dia 11 de agosto de 2000?

Eu estava cortando as unhas do meu marido, lá em casa, na colônia do assentamento Caquetá. Ele disse que vira um vulto na moita, levantou pegou a espingarda e se dirigiu para o lugar. Logo o tiro foi disparado e atingiu ele, que caiu. Eram três homens encapuzados. Fui raptada junto com meus dois filhos por um deles, o Cristiano, que me levou para a casa dele.

A senhora poderia dizer o que ocorreu na casa do Cristiano?

Ele prendeu a gente no quarto e ficou nos ameaçando. Caso eu não fizesse o que ele queria aconteceria o mesmo comigo e os meus filhos.

A senhora foi estuprada por ele?

Fui. Na presença dos meus dois filhos. Na época o Marcialdo estava com 7 anos e a Kesia com 2. O menino até hoje não está bem. É nervoso, chora à toa, tem medo de tudo. Fora que eles sentem falta do pai. Os três sofrem com o que aconteceu e está acontecendo.

Como a senhora conseguiu escapar do Cristiano?

Fingi tudo, até que estava gostando, para poupar a vida dos meus filhos, que ele ameaçava. Logo depois ele me soltou me ameaçando se contasse algo. Vim para a casa de meus pais, no Bujari, e fui presa depois, acusada de co-autoria.

A senhora deu parte na delegacia? Fez exame de corpo delito?

Dei. Logo que cheguei à casa dos meus pais, fui com o meu irmão à delegacia. Não fiz exame, porque o delegado Mardilson Vitorino disse que não precisava porque ele estava vendo tudo.

Como é? Dá para a senhora explicar melhor?

Dei parte e no outro dia o delegado apareceu na minha casa dizendo que tinha colhido todos os depoimentos até da família do Cristiano e dos outros que participaram do assassinato do meu marido. Disse que era para eu ir com ele. Fui achando que estava tudo resolvido, sem advogado, e eles com advogado. Quando falei para o delegado que estava cheia de hematomas, que tinha que fazer o exame, ele disse que não precisava, que estava “vendo tudo”. No outro dia chegou a ordem de prisão. Fiquei um ano no presídio Francisco de Oliveira Conde por algo que não cometi.

O que passou pela sua cabeça naquele momento?

Que tinha sido enganada, que tudo estava sendo injusto. O delegado Mardilson tentou comprar até meu filho de 7 anos na época. Foi na minha casa chamou o menino do outro lado da rua e ofereceu dinheiro para que ele não contasse o que tinha visto.

E o seu filho?

Ele não disse mais nada. Tremia e chorava. Depois se calou. Morria de medo só de ouvir falar no nome dele.

O que a senhora está falando é muito sério...

Sei, mas depois de tudo que passei e ainda passo, acho que posso falar. Preciso ser feliz, sou uma mãe e preciso criar meus meninos.

Como a senhora entende tudo isso que está acontecendo na sua vida?

É uma injustiça muito grande, não é nada agradável. Sou inocente, mas como sou uma mulher simples, fui enganada.

E o ano em que a senhora passou presa? Como enfrentou?

Tendo Jesus no coração. Mas foi péssimo. Acordava, escovava os dentes, tomava café e não fazia mais nada. E ficava pensando em meus filhos, no meu marido, na minha família. Chorava muito. Teve dia em que pensei em me matar.

Recebia visitas?

Só a minha mãe, que enfrentava uma fila grande para me ver todas as vezes de visita.

A senhora foi julgada na última sexta-feira e condenada a seis anos e meio em regime semi-aberto. Como está enfrentando a condenção?

Por tudo que já aconteceu, achei que poderia ou não ser condenada. Não sei por que a Justiça não acredita no meu depoimento e prefere acreditar nas palavras de um assassino. Só Deus me segurou, pois minha filha, que estava lá, até desmaiou quando começaram a debochar de mim.

Quem debochou?

O Efraim. Ele me chamou de vagabunda, santinha-do-pau-oco, sem-vergonha, sonsa e outras coisas. O pior momento não foi ouvir a sentença, mas vê-lo debochando de mim. Teve uma hora que ele disse coisas horríveis, até que eu andava de calcinha e sutiã para mostrar aos homens. Aquilo foi horrível para minha família. Meu pai tem quase 80 anos. Nem uma prostituta merecia aquilo.

O que a senhora espera agora?

Justiça e proteção para minha família. Quero punição para os culpados. Sou a principal vítima e estou me arriscando, porque quem cometeu o crime, que é um bandido, está solto. Deus é o advogado dos advogados, mas ainda acredito na Justiça terrena e que a verdade há de chegar.

A senhora tem medo de represálias?

Muito. Porque o Cristiano está solto e todos sabem onde eu moro. Preciso que vocês da imprensa me ajudem a proteger minha família e meus meninos. Preciso de um canto. Sei que vocês vão me ajudar. Acredito em Deus.

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