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Rio Branco - Acre, terça-feira, 11 de março de 2003
Eletricitários, uni-vos!

José Cláudio Mota Porfiro *

Questão íntima me liga aos funcionários da Eletronorte. Há algum tempo, o Jorgeney, meu falecido irmão, era militante das causas da categoria. Mas os anos se foram... Hoje restam sólidas amizades mantidas desde aquele verão amargo de 1993.

No início deste ano, participei de uma reunião da bancada do Acre, em Brasília. Lá estavam alguns defensores das causas dos eletricitários acreanos ligados, é claro, ao Partido dos Trabalhadores. Porém, lá se faziam presentes, também, alguns políticos que, por serem empresários e aliados a grupos empresariais que lhes financiam as campanhas, não apenas deixaram de defender os pleitos mais justos dos sindicalistas ligados à Eletronorte, mas passaram a fazer por onde muitas portas fossem fechadas e as reivindicações obscurecidas, em vista de argumentos ladinos prejudiciais aos reclamantes.

A argumentação dos representantes empresariais no Congresso pregava que não seria necessária tamanha preocupação com apenas cento e vinte funcionários que seriam demitidos. Esses cidadãos seriam pagadores de impostos de somenas importância. Suas famílias não mereceriam nenhuma consideração, tendo em vista a pouca influência na vida social e no cenário político do Acre. Segundo um dos deputados, “que eles fossem às favas!”

Se o ser humano deixa de ter importância, quem a terá? É claro que as grandes jogadas e os acordos dos capitalistas ficarão muito acima das vidas de pacatos cidadãos, que jamais burlariam o imposto de renda, por serem humildes. Na realidade, pobre gosta de pagar dívida. Quem gosta de sonegar o fisco são os mais abastados, inclusive, alguns apaniguados políticos de direita. Estes estão escondidos sob o manto da impunidade, que destitui de qualquer senso de responsabilidade social o parlamento brasileiro. Estes são os párias encastelados e os circundantes ao redor do poder. Imorais!

Na reunião de Brasília, então, segundo o representante da Presidência da Eletronorte, os servidores em causa podiam ficar muito tranqüilos. O Presidente da República assegurara que, enquanto estivesse no poder, ninguém seria demitido. Ora bolas! É uma pilhéria! Praticamente, o mandato de Fernando Henrique já findou. Então, a partir de primeiro de janeiro de 2003 - se Deus nos livre o Zé Serra seja eleito - não apenas funcionários da Eletronorte perderão o emprego, mais também estarão condenados à indignidade outros milhares de servidores, como os das universidades públicas que hoje se encontram em petição de miséria.

Por outro lado, a argumentação dos inimigos dos eletricitários passa pela possibilidade de transferir todos para unidades geradoras de energia nos municípios acreanos, ou para outros estados da Amazônia. Mais uma vez, a vida do pagador de impostos não é levada em consideração. Mais uma vez, a família do pacato cidadão deve ser jogada ao sabor dos ventos da nossa democracia apequenada pela desfaçatez dos representantes do povo.

A pouca sensibilidade dos ricos deputados não os deixa avaliar o tamanho das dificuldades que significa a transferência de uma família para uma outra cidade. São vidas que se estruturaram, em Rio Branco, depois de muitos anos de esforço. São famílias que verão separados pelas distâncias os seus membros. São crianças que serão prejudicadas e sofrerão bastante com a transferência escolar, e com uma realidade diferente que lhe é imposta por quem jamais pensou em soluções para os problemas dos mais humildes.

Fiquei realmente estupefacto ante a falta de escrúpulo dos mentirosos do povo. É mais uma enganação o argumento segundo o qual ficaria mais barata para o consumidor acreano a energia a gás vinda de Urucum, no Amazonas, por meio do linhão, que passa antes por Porto Velho.

Em nenhum momento da história da sociedade moderna um empreendimento capitalista surgiu para benefício do povo. É sempre o mero pagador de impostos que fica com o ônus da patifaria nacional patrocinada em Brasília. Senão vejamos o caso das teles. Senão vejamos o caso das distribuidoras de energia do Rio e São Paulo. As contas dos consumidores ficariam mais baratas, segundo os negociadores nacionais e estrangeiros em conluio contra esta nação de deserdados. O que aconteceu foi exatamente o contrário. Hoje paga-se pelo telefonema que não existiu e pela energia que não foi gasta, porque a intenção não é fornecer bons serviços, mas tão somente lucrar através do roubo levado a efeito nas contas dos consumidores.

Mas há muitas outras historinhas escabrosas do Planalto a contar...

Ademais, resta um recado singelo aos eletricitários do Acre... A resposta das urnas deverá ser dada da forma mais veemente possível. Os traidores das causas trabalhistas devem ser cassados através do voto. Ou nós fazemos isto, ou eles cumprirão o velho desejo de jogar por terra conquistas antigas como as férias, o décimo terceiro, o FGTS e a aposentadoria.

Morte aos corvos!

* Doutor em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP. Assessor Especial da PRAC/UFAC.

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