
Archibaldo Antunes
Conheceram-se por acaso numa lanchonete quando ela pediu o catchup e ele lhe passou a maionese. Riram do engano, trocaram algumas palavras, afinal se apresentaram. Ela era secretária e ele, promotor de vendas. Nada mais foi dito até o dia seguinte, quando se encontraram novamente. Dessa vez ele não se enganou, o frasco de catchup na mão.
Passaram a se ver todos os dias, mais ou menos à mesma hora, como se aqueles encontros fossem ocasionais. Ao cabo de dois meses marcaram o primeiro encontro, que se repetiu. A coisa então foi ganhando ares de namoro, ele apressadinho pra fazer as coisas. Ela, porém, não permitia, recatada. Em breve ele era convidado a uma festa na casa dos pais dela, o que selou o compromisso. Tempos depois dormiam juntos pela primeira vez.
Naquela noite haviam jantado sob uma aura romântica de cinema, o apartamento enfeitado de flores e com cheiro de água de colônia, que ele havia espargido pelos cantos. Na hora do amor ele estava elétrico, esfuziante, cheio de desejos. Ela, porém, não se moveu, não soltou um único gemido. Esteve todo tempo ali impávida, rosto meio virado pro lado, até que ele terminou. Ela então se virou e dormiu.
Ele agora se sentia impotente. Fumou um cigarro na sacada, olhando as luzes da cidade. Achava-se culpado por não ter dado o que ela merecia. Queria realizar-lhe as fantasias, levar a namorada aos píncaros do prazer.
No dia seguinte, escondido dos colegas, navegou pela Internet em busca de informações sobre o Kama Sutra. Comprou livro e DVD, estudou-os com afinco por uma semana. No domingo, ambos na cama, estava preparado pra lhe mostrar o nirvana sexual. Propôs que fizessem uma posição diferente que o livro ensinava por meio de gravuras. Ela, porém, só conseguiu rir da cara que ele fazia enquanto tentava plantar bananeira no colchão.
A saída, pensou, era um sex shop. Pretendia mexer com os sentimentos mais recônditos que ela possuía, instigar aquela fera que toda mulher carrega dentro de si. Entrou envergonhado, não sabia onde pôr as mãos, e quando a dona da loja veio perguntar “pois não?”, ele estava parado em frente à estante de sadomasoquismo. Afastou-se, embaraçado. Quis explicar por que estava ali, engasgou, não conseguiu articular uma única frase coerente. Afinal perguntou qual daquelas coisas deixava a dona da loja excitada.
A mulher não entendeu direito, achou que ele estava com gracejos, exigiu respeito, ameaçou chamar o marido. Ele então se assustou, quis explicar-se, mas se limitou a apanhar um vibrador dizendo que aquilo bastava.
Em casa, largou o embrulho sobre a estante e foi pra sacada. Quando ela chegou e viu o que ele havia comprado, olhou-o com desconfiança.
– Não é nada disso que você está pensando! – afirmou, categórico.
Jogou o vibrador no lixo, pediu conselho aos amigos da empresa. Cada um tinha uma maneira infalível, um toque aqui, uma linguada ali, um puxão nos cabelos de um jeito que era batata. Mas nenhuma tática se revelou útil, ela sempre com o rosto virado enquanto ele arfava sobre seu corpo imóvel.
Um dia não suportou mais a situação,
chamou-a para uma conversa. Revelou que se sentia um traste, não agüentava
mais vê-la tão impassível durante o ato sexual, precisavam
resolver aquilo de uma vez por todas. Ela então sorriu, disse que a
culpa não era dele, que ela era daquele jeito mesmo. Mas estava disposta
a mudar, fazer um tratamento.
– Sim – ele pensou. – Porque pior do que coca-cola quente,
só mulher fria.
Consultaram especialistas, afinal se decidiram.
A aplicação de hormônios durou dois meses, ela de fato se transformou. Passou a comandar a relação, liberar fantasias, acumular fetiches, determinar posições. Não havia um único dia em que não o chamasse pra cama mais de uma vez, insinuante, fogosa, insaciável. Parecia outra a mulher que o arrastava para o amor.
O relacionamento melhorou muito, ele disse aos
colegas da empresa. Só não confessou que às vezes, cansado
e infeliz, virava o rosto pra parede durante o ato sexual.
* Cronista/ark30antunes