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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 9 de abril de 2003

Bem ou mal

O Brasil vai bem, ou não tão bem assim? Essa pode ser a mais nova polêmica do governo Lula, desta vez, dividindo presidente e vice-presidente; ou apenas duas formas de ver o mesmo país. Relativamente ao que estava há seis meses, o Brasil está muito bem nos indicadores conjunturais. Mas os juros ainda são altos; a inflação, perigosa; o crescimento pequeno e as reformas nem começaram.

Independentemente do que o vice José Alencar quis dizer com “o Brasil não vai tão bem”, esta é, de um certo ponto de vista, a absoluta verdade. A inflação precisa cair mais fortemente; para que os juros possam cair. Nesta ordem e em nenhuma outra. O vice-presidente, em algumas declarações, exibe a convicção de que o começo da solução é a queda das taxas de juros, quando, na verdade, elas só podem cair depois de criadas as condições para isso, como outras pessoas do governo felizmente já entenderam.

Mas o fato é: a economia está muito fria e mostrando que sente os efeitos do aperto monetário dado nos últimos seis meses para conter a escalada inflacionária. O desemprego subiu no começo do ano, coisa que sazonalmente acontece, mas permanece num nível muito alto. O crescimento da produção industrial e do emprego só acontecem em segmentos ou empresas voltadas para a exportação. A renda tem caído há quatro anos. A dívida pública é alta e o déficit público tem que ser neutralizado por fortes doses de superávit primário. Em resumo, não vai muito bem.

Por outro lado, o que está sendo comemorado agora é a melhora nos indicadores financeiros, nos dados conjunturais. A inflação caiu um pouco, mas continua inspirando cuidados. Veja-se, por exemplo, este gráfico abaixo, que mostra que, em todos os grupos, a inflação medida pelo novo índice quadrissemanal da FGV está subindo ou parando de cair na última verificação. Como o dólar já está em queda, esta é a época da safra e os juros estão elevados, era para ter havido uma queda mais forte. Como as curvas mostram, a inflação parou de cair, o que é um sinal ruim. A taxa prevista para o ano entre 12% e 13% e a meta em 8,5% não permitem muitas comemorações.

O que realmente desabou — a despeito da pequena alta de ontem — foi o risco-país, o dólar, o pessimismo em relação ao Brasil. De país perto do default à situação atual, o Brasil cumpriu um caminho que justifica o pensamento positivo e o alívio que se sente agora. Além do mais, o que puxou a melhora dos indicadores foi não apenas uma avaliação subjetiva, mas também fatos concretos: aumento do superávit comercial e redução do déficit em transações correntes. Neste aspecto, o Brasil vai sim muito bem, mas o risco é o governo se acomodar diante desta vitória achando que está tudo garantido.

Nada está garantido num país que tem uma dívida pública de 60% do PIB, um déficit público nominal de 5,11% do PIB, taxas de juros de 26,5%. Nada está garantido para um governo que não formou uma coalizão majoritária no Congresso e precisa começar a mudar a estrutura do gasto público com reformas constitucionais que exigem duplas votações com quorum qualificado.

A produção industrial cresceu em fevereiro apenas 0,7% , mas cresceu. Houve números positivos em dez dos vinte setores pesquisados e este é o nono resultado positivo na comparação com o mês anterior. No entanto, os dados mostram que os setores mais dinâmicos são os voltados para exportação e não para o mercado interno. Resultados como esses, que autorizam a considerar que o Brasil vai bem, mas não tão bem, saem diariamente. O país tem muito o que fazer para pavimentar um crescimento sustentável. Parte deste material de pavimentação terá que ser fornecido pelo Congresso Nacional em reformas que vão doer em alguns setores muito bem organizados. Ontem, o presidente Lula disse que a reforma da Previdência não prejudicará ninguém. Não se faz reforma mantendo todos os privilégios. Este tipo de promessa é boa para palanque e para período de oposição. Mas no governo, como o PT tem aprendido em tempo recorde, não há espaço para bravatas.

paneco@oglobo.com.br
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