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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 9 de abril de 2003
Espelho, espelho meu

Francisco Dandão *

É evidente que a gente não pode viver apenas entre as teias suaves do amor, das amizades a toda prova e dos afetos despretensiosos. Isso seria um sonho, parte do paraíso, somente a metade boa da maçã, gosto de infinito dissolvendo-se de encontro ao céu das nossas bocas molhadas de paixão.

É igualmente evidente que, embora criados para assemelhar-se à divindade, a gente não pode querer sequer aproximar-se dos ideais de perfeição. Isso nos tornaria a própria onipotência em forma de matéria animada, sopro ascendente, nada de decomposição, estrelas de brilho eterno.

É tudo muito evidente: a carne, o corte, a dor e o punhal que fere cada vez mais fundo e que arrasta as nossas lágrimas para um abismo na extensão longitudinal do nosso peito. Tão evidente e tão próximo que a gente acaba por não se dar conta... Ou não querendo ver (o que é bem mais grave).

Pois bem. Escrevo esse preâmbulo para lembrar hoje o fato de que está cada vez mais difícil seguir vivendo sem o escudo de um milhão de cuidados, virando-se para todos os lados antes de abrir o portão de casa e postando-se sempre contra o sol para não pegar uma rasteira da sombra.

Um passo em falso, nesses ventos que correm do oriente para o ocidente, e pronto, a pneumonia asiática já passou por todas as alfândegas dos aeroportos internacionais, baterias antiaéreas, tanques de guerra, fortalezas voadoras e porta-aviões americanóides e se instalou nos nossos pulmões.

É preciso transitar de máscara no rosto. Respirar não é seguro. Não existe mais ar puro ou água livre de bactérias canibais. Fosse um daqueles filmes caça-níqueis de verão todo mundo sairia do cinema sorrindo, achando tudo tão somente o produto de uma mente a serviço do entretenimento.

É preciso, também, saber a procedência das verduras e legumes postos à mesa do jantar (no almoço basta um fast-food, de pé diante de um balcão qualquer, que a pressa chama). Qualquer ceia pode ser a última. E sem direito a um artista que imortalize a cena ou, muito menos, à ressurreição.

Um passo em falso, nessas balas que assobiam ao redor das nossas cabeças, e pronto, já se foi para o espaço as idéias de liberdade e todas as linhas consumidas querendo saber por quais lados se esvaíram as letras do velho volume que discorria sobre a sociologia das massas oprimidas.

Não é mais possível parar para pensar. Um alvo parado é mais fácil de ser tombado. E o mergulho de cabeça no asfalto, procurando um buraco na terra para esconder o resto de um antigo homem, faz do próprio movimento um balé grotesco, seguido de esguichos tintos de plasma fresco.

É preciso, então, um colete inviolável, um automóvel blindado e uma apólice de seguro atualizada. As contas nos paraísos fiscais não valem mais. Os herdeiros certamente se perderão no meio daqueles números e letras todas e passarão do fausto à miséria. Nem flores poderão mandar ao cemitério.

Um passo em falso, um escorregão, um suspiro (beijo de língua nos lábios abertos do vírus desconhecido), uma alface transgênica, uma bala perdida, e estará desfeita a centelha que nos faz reconhecer os sentidos. Estarão transportadas para um outro plano todas as ilusões.

E assim, a um instante de ser devorado pela esfinge dados todos os argumentos presentes e ausentes neste arrazoado pleno de sentido, apesar do raciocínio enviesado pelos ruídos saídos de um aparelho de televisão bem às minhas costas, uma conclusão: viver, cada vez mais tornou-se um ato de fé.

Espelho, espelho meu (trato de terminar o texto antes de resolver encostar o cano da espingarda na boca de Ernest Hemingway, até hoje pescando seus pirarucus nas águas azuis do mar de Havana), no fundo dessa superfície lisa não pode, de jeito nenhum, ser um outro eu.

* fdandao@zipmail.com.br

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