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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 9 de abril de 2003

Areia no pirão

Na reunião do dia 16, em vez de churrasco o presidente Lula e os governadores vão degustar uma moqueca capixaba a ser feita na Granja do Torto por um cozinheiro que atende pelo apelido metonímico de Pirão. Será enviado, juntamente com o robalo e demais ingredientes, pelo governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. Alguma areia, entretanto, ameaça entrar no pirão do entendimento.

E não só aquela decorrente das dificuldades naturais da reforma tributária, entre as quais se destaca a divergência entre os estados sobre o local de cobrança do ICMS. Outros problemas que estão surgindo podem minar a boa vontade geral dos governadores em relação às reformas e a outras questões gerais que exigirão um pacto permanente entre os entes federativos

Esta advertência foi feita ontem ao próprio ministro Antônio Palocci pelo governador de Minas, Aécio Neves, em nome dos 18 governadores envolvidos no chamado “acordo das estradas”, pelo qual seus estados recebem recursos federais juntamente com a responsabilidade pela conservação de estradas do antigo DNER. Eles não aceitam que o governo suprima, no Senado, o artigo da medida provisória que trata do assunto, no qual está expresso que os recursos recebidos não serão considerados receitas correntes. Sobre elas, incide o percentual (geralmente de 13%) mensalmente comprometido com o pagamento da dívida do estado. Se forem engordadas pela transferência excepcional, negociada ainda na transição entre o governo FH e o de Lula, produzirão um aumento da amortização que os governadores consideram indevido.

De fato ontem no Senado discutia-se a supressão do artigo por orientação do ministro da Fazenda, segundo senadores da base governista. Mais do que dando com uma mão e tirando com a outra, diz Aécio, os governadores entendem que a equipe econômica, com esta iniciativa, demonstra visão unilateral. Enxerga o dinheiro transferido mas não o encargo de conservar as estradas, muitas em estado lastimável, que também exigirá gastos por parte dos estados.

Este é um ponto coletivo. O outro protesto de Aécio junto a Palocci foi individual, relacionado com a continuada cobrança da parcela mensal (R$ 6 milhões) de uma multa de R$ 36 milhões aplicada a Minas por não ter o estado alcançado a meta de superávit primário acertada para 2002 (último ano da gestão Itamar Franco).

— A meu pedido o ministro mandou técnicos do Tesouro a Minas confirmar a extensão do ajuste que estamos fazendo. Já nem estou pedido ajuda do governo federal, peço apenas que não torne as coisas piores. Esta multa agrava a nossa situação em particular, e a tentativa de alterar a medida das estradas pode azedar um relacionamento que até agora vem sendo construtivo.

Há outros atritos no ar, além dos mencionados. Entre eles, a recusa de alguns governadores a aceitar presos e presídios federais em seus estados. À receptividade imediata e contrastante de Paulo Hartung, o Planalto tem demonstrado reconhecimento não apenas na escolha da moqueca como prato do dia 16.

Lula decide se opera a bursite

A última crise da bursite presidencial recolocou em pauta a questão da cirurgia, discutida pelos médicos com o presidente Lula no fim de semana em São Paulo. Segundo fontes do Planalto, ele ainda não se decidiu se a fará ou não, mas se tiver de enfrentá-la será na próxima semana, antes dos feriados da Páscoa. Na segunda-feira, dia 21, Lula deve ir a Ouro Preto prestigiar a celebração anual da Inconfidência e, no dia seguinte, a Vitória, para a assinatura do primeiro termo de adesão de um estado ao chamado plano único de segurança. Segundo as mesmas fontes, já estaria recuperado e poderia cumprir esta agenda.

O ortopedista Paulo César Rondinelli, do Hospital de Traumato-Ortopedia, no Rio, diz que a bursite é convencionalmente tratada com antiinflamatórios, fisioterapia, mesoterapia (infiltração de medicamentos diretamente na área afetada) e aplicação de ultra-som. Em casos muito complicados recomenda-se a cirurgia. Nada disso teria dado resultado com Lula, que já recorreu também à acupuntura.

A cirurgia é feita por artroscopia, técnica que usa uma microcâmera para chegar ao ponto de inflamação, permitindo que o paciente retome suas atividades em 48 horas. Entretanto, o banco de dados Medline, dos mais prestigiados do mundo científico, registrava ontem 220 artigos científicos sobre complicações decorrentes de artroscopia do ombro e 22 artigos sobre insucessos da cirurgia.

ADORÁVEL COMUNISTA. O título faz jus ao biografado de Antonio Risério, o ex-deputado pelo PCB (e mais tarde pelo PMDB) Fernando Sant’Anna, baiano que mistura a malícia de Vadinho com o idealismo de Vitor, personagens de Jorge Amado em “Dona Flor” e “Subterrâneos da liberdade”, respectivamente. Prestes, Vargas, Marighela, Giocondo Dias e

Tereza Cruvinel


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