
Archibaldo Antunes
O Andrezinho ficou superfeliz quando soube durante o jantar que tinha um avô. Em sua imaginação de menino germinou um sujeito muito velho e alquebrado, cabelos brancos e algo rabugento, que não parava de andar pela casa esbarrando nos móveis. Ao ouvir que o avô passaria uns dias com a família, animou-se ainda mais com a possibilidade de transformá-lo em atração para os amigos que todos os sábados vinham disputar as partidas do Campeonato Mundial de Botão Acreano.
Andrezinho mal podia conter o segredo na escola, mas se revelasse a novidade o velho deixaria de ser uma surpresa. Tencionava mostrá-lo à turma quando ele estivesse babando na camisa por ocasião de uma soneca na cadeira de balanço, o que fatalmente provocaria um efeito maior. Podiam esconder sua bengala (ele provavelmente teria uma), ou a dentadura que ficaria dentro de um copo com água. Ou os óculos, sem os quais o avô se tornaria a cabra-cega da vez.
A mãe do Andrezinho, que não conhecia o pai do marido, fez o que pôde para deixar a casa o mais agradável possível, ainda que o Nogueira dissesse que aquilo era inteiramente desnecessário.
- Ele não se importa com isso, Ana Rita, você está se preocupando a toa.
Mas ela não lhe dava ouvidos - e se esmerava na decoração.
Quando o dia chegou afinal, os três foram para o aeroporto esperar o "velho", como falava o Nogueira, ou o "seu" Abelardo, como corrigia Ana Rita. Andrezinho não dizia nada, pois só conseguia pensar nas alegrias que o velho Abelardo lhe daria.
Ao contrário, porém, do sujeito caquético que o menino tinha imaginado, desceu do avião um homem ainda enxuto para os seus sessenta e oito anos de idade. Caminhava com desenvoltura ao lado de uma senhora ruiva, da qual se despediu no saguão do aeroporto com um "hasta la vista, baby", e o telefone dela devidamente anotado num papel.
Em casa, para decepção de Ana Rita, Abelardo não reparou nas flores de plástico. Levado ao quarto, logo voltaria com uns embrulhos - presentes para a família. Andrezinho, porém, estava visivelmente decepcionado, sobretudo porque o avô não usava bengala. A surpresa maior estaria reservada para o sábado, quando Abelardo apareceria no quarto do neto com o seu próprio jogo de botão.
- Abram espaço pro Fluminense - disse ele, para espanto dos sete meninos que participavam do Campeonato. Andrezinho ainda tentou protestar:
- Mas aqui só tem time paulista, vô.
- A gente então faz o Rio-São Paulo, bobão.
O menino não gostou de ser chamado de bobão na frente dos amigos, que ainda por cima riram. E ficou mais irritado ante a destreza do avô, que ia eliminando os adversários a cada rodada.
- Sou o Pelé do botão! - dizia o velho depois de ter disparado um tiro certeiro no ângulo adversário.
Um avô que conduzia tão bem os botões e gostava de assistir desenho animado comendo paçoca era mesmo uma novidade. E assim Abelardo se transformou na sensação da garotada. Ganhava praticamente todos os jogos, e quando estes eram disputados em dupla, quase havia briga pra decidir quem ficaria ao lado do "seu" Abelardo.
Andrezinho não gostava daquilo, quis suspender o Campeonato, mas o único que deixou de comparecer aos jogos foi ele. Afastou-se dos amigos, andou emburrado. E só voltaria ao normal - para alívio dos pais, que já estavam preocupados com o comportamento dele - quando o avô regressou a Nova Friburgo, no Rio.
- Sujeito cacete! - disse aos amigos, que não concordavam, mas que também haviam combinado não contrariá-lo.
Pois Andrezinho andara tão esquisito que eles jamais contaram que numa tarde "seu" Abelardo os havia chamado pra ver o neto babando, enquanto dormia.
Cronista/ark30antunes@bol.com.br