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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 16 de abril de 2003

Com quem será?

Dentro de 10 dias, a Argentina vai às urnas, em 40 dias terá novo presidente empossado e ainda está longe de se saber quem entrará na Casa Rosada. As pesquisas de opinião de lá têm metodologias diferentes, têm dado resultados diversos e nem todas são críveis. O peronismo tem três candidatos, que são os que estão na frente. Há cinco com chance. O povo, apático, prepara-se para outro “voto bronca”.

O primeiro turno será no dia 27. O segundo, no dia 18 de maio e a posse, no dia 25, data nacional argentina. Mas o clima continua não sendo eleitoral por lá. Nada lembra o entusiasmo com que os brasileiros viveram as eleições de 2002, que ocupou a agenda dos debates por meses a fio no ano passado.

A Argentina não tem horário eleitoral gratuito como aqui, nem as emissoras observam o cuidado de oferecer espaços iguais para os candidatos competitivos. Neste fim de semana, Carlos Menem teve um espaço generoso na entrevista com um jornalista que é considerado menemista. Imagine-se algo assim no Brasil: duas semanas antes das eleições, um jornalista abre espaço no seu programa para seu candidato? O TSE proibiria expressamente tal favorecimento.

Carlos Menem tem caído em algumas pesquisas, mas é o que mais freqüentemente aparece na frente. Isso garante apenas que ele irá para o segundo turno. Seus defensores acham que ele pode ganhar no primeiro turno porque será beneficiado pelo “voto envergonhado”: gente que vai votar em Menem, mas não tem coragem de dizer. Lá, ganha-se no primeiro turno com 45% dos votos ou com 40%, se estiver 10% na frente do segundo colocado. Menem continua como o campeão em rejeição.

Rodriguez Saá, que foi presidente por três dias entre 2001 e 2002 e conseguiu promover a maior quantidade de decisões populistas por minuto, é outro candidato possível. Se ganhar, a Argentina pode entrar num perigoso caminho da irresponsabilidade fiscal, que vai colocá-la no desvio, mais uma vez.

O candidato do governo, Nestor Kirchner, também tem chances, mas tem pouco carisma. É, em parte, beneficiado pelo relativo sucesso do seu maior defensor: o presidente Eduardo Duhalde. Afinal Duhalde pôs alguma ordem à Argentina; o país saiu da recessão, produziu um enorme superávit comercial que está derrubando o dólar — derruba porque o país permanece em moratória, o que significa que não há remessa de moeda para pagamento de juros — aumentou a arrecadação e devolveu o dinheiro que ficou preso no corralito e corralón. Atualmente, está se beneficiando dos índices de inflação que estão caindo, números que o dólar em queda ajudou a produzir, e tem adiado decisões de reajustes impopulares para o sucessor. Kirchner, Rodriguez Saá e Menem são todos do mesmo partido, de alas rivais, e todos têm chance de ganhar a eleição.

Elisa Carrió, que já foi da UCR (União Cívica Radical) e hoje fundou seu próprio partido, já teve mais chances. Caiu do quarto para o quinto lugar na maioria das pesquisas. Logo depois da posse aqui, o governo Lula fez sinais de que gostaria que Carrió ganhasse eleição, mas isso não melhorou suas possibilidades. Recentemente, o presidente Lula declarou que vai para a posse, independentemente de quem seja o eleito, e isso foi olhado como diplomaticamente mais correto do que o primeiro movimento.

Lopez Murphy é o candidato da direita. Foi aquele ministro da Economia que durou quinze dias e anunciou medidas tão ortodoxas que foi apeado do cargo. Apesar de ser um candidato nada simpático, teve um desempenho surpreendente. Há pesquisas apontando chances de ele ir para o segundo turno.

O consultor Manuel Mora y Araújo disse que Menem tem sido beneficiado pelo fato de ser escolhido por todos os outros como o candidato com o qual polarizar. Ele disse que Menem e Kirchner são os candidatos com mais chance, mas adverte “não se pode descartar nada”. Anália Del Franco, da consultoria Analogias, afirmou que a única coisa certa é que haverá segundo turno, mas “entre quem e quem é uma pergunta que vale um milhão”.

Aparentemente, só quem não tem chance é o candidato da UCR, partido do ex-presidente Fernando de la Rua: Leopoldo Moreau. Ele foi escolhido na segunda convenção partidária. Na primeira, apesar de se saber de antemão que o candidato radical não teria qualquer chance, fosse quem fosse, houve corrupção e compra de votos no processo de escolha, e ele teve que ser refeito.

Seja qual for o eleito, terá grande dificuldade de se relacionar com o Congresso. Lá, as eleições estaduais e parlamentares não são coincidentes. Lá, cada província faz eleição numa época. O novo presidente terá que permanecer em clima eleitoral para tentar fazer uma composição no Congresso que lhe dê maioria.

O FMI agregou outra incerteza. Fez um acordo curtíssimo com a Argentina, que termina em agosto. O eleito terá que iniciar imediatamente uma nova negociação com o Fundo.

A incerteza será a marca dos próximos dias. O segundo turno será dia 18, mas como lá não tem urna eletrônica, a apuração pode demorar alguns dias. E a posse será sete dias depois da eleição, sem qualquer transição. Na Argentina, tudo é muito diferente da nossa eleição, apesar de vários candidatos terem tentado, nas suas propagandas, fazer identificações com Lula, apontado nas pesquisas como o favorito dos argentinos.

Como não tem Lula Lá, é bem possível que haja uma grande porcentagem de votos nulos e em branco, num protesto que eles chamam de “voto bronca”.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão com Débora Thomé
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