
Mãe ensina o verdadeiro significado da Semana Santa aos filhos no Ilson Ribeiro
Para a família o mungunzá substitui os chocolates recheados durante a festa da Páscoa
Tatiana Campos
Regiane Aragão da Silva teve a primeira filha aos 13 anos, hoje ela tem 23. Casou-se aos 15, com os pai dos seus outros três filhos, e espera o quarto, com três meses de gestação. Ela não trabalha, o marido está desempregado há seis meses e sustenta a família fazendo bicos. Nem todos os dias há o que comer, e quando o alimento é pouco, os pais preferem deixar para as crianças.
Para amenizar o sofrimento a mãe, que é católica, se reúne todas as noites para rezar com as crianças. Para ela é importante os filhos aprenderem o significado da páscoa, e nesta Semana Santa eles seguirão a tradição como comer peixe e mungunzá. O peixe será pescado num açude das redondezas, e para a iguaria tradicional, Regiane diz que o marido já conseguiu milho.
A família Aragão reside no loteamento Ilson Ribeiro, no bairro Calafate, distante oito quilômetros do centro da cidade, num barraco construído com pedaços de madeira e lona preta que não mede mais que 10 metros quadrados. No interior apenas uma cama de casal, um pano esticado na parede para amenizar o efeito do sol, um quadro do flamengo e a carcaça de um fogão. Nada mais que isso. Na frente da casa, ao invés de jardim, um pequeno roçado de macaxeira, que segundo ela salva as crianças da fome.
SAGRADA - Neste domingo, enquanto algumas famílias se sentarão diante de uma mesa farta com todas as iguarias que fazem parte da Páscoa, Rafael, 3, André, 5, e Alexandre, 7, ouvirão dos pais que a data significa a ressurreição de Cristo. Eles não sabem o que é chocolate, pois nunca viram um ovo de páscoa. A mãe conta que nunca pôde comprar.
“Pra mim a Páscoa é uma data sagrada, a Semana Santa como um todo é sagrada, sempre ouvi da minha avó o significado da data, mas não sei muito bem. Tento passar pros meus filhos o pouco que eu sei. Ela dizia que não pode pentear o cabelo, arrumar a casa, essas coisas. Eu procuro seguir tudo o que ela ensinou”, comenta Regiane.
Pouca comida no fogo improvisado no quintal
Ao chegar, a reportagem do Página 20 encontrou Regiane preparando o almoço, um cardápio farto se comparado ao do dia-a-dia: macarrão e arroz. O marido de Regiane estava pescando, tentando garantir a janta das crianças. A pequena panela fervia a água em fogo lento enquanto os meninos brincavam de carrinho ao lado do barraco.
Quando o marido de Regiane está em casa é ele quem faz a comida. “Dói a minha barriga ficar acocada na beira do fogo”, explica enquanto põe o macarrão para cozinhar.
“Ganhei um fogão que não funciona da minha tia e estou esperando uma vizinha vir buscar para transformá-lo em fogão a lenha. Cozinhar no chão assim é muito ruim. A noite então, é pior ainda, ainda bem que meu marido ajuda”, disse Regiane.
Os brinquedos das crianças, na verdade pedaços de brinquedos, foram achados na rua ou doados por alguém. As roupas que a família veste também. Calçados ninguém tem, apenas Rafael, que ganhou um tênis da vizinha esta semana.
“Não sou feliz vendo meus filhos tendo necessidades”, diz a mulher lutadora
Regiane parece ser o típico retrato das pessoas a quem a vida não ofereceu oportunidades. Acreana, nascida na capital, sempre viveu em condições difíceis. Não pôde estudar, engravidou muito nova e não consegue emprego.
Com jeito humilde de quem não se contenta com a situação em que vive por acreditar que poderia ser diferente, Regiane revela que não é feliz. Tem muitas vontades reprimidas, quer ver os filhos em condições mais decentes de vida.
“Eles não passam fome mas sofrem muitas necessidades. Todas que alguém possa ter. Eles não têm nada, nem roupas, nem brinquedos, nem uma cama para dormir. Eles nem estudam porque aqui perto não tem escola, minha filha mais velha tem que morar com a avó pra estudar”, disse.
Regiane e a família moram em terreno próprio, mas uma casa melhor é um dos sonhos que fazem parte de sua vida.
“Estou no que é meu e isso é bom. Mas não sou feliz. O dinheiro muitas vezes não dá nem para o arroz, macarrão e feijão. Aqui falta água, luz, escola. Quando vejo meus filhos assim, e sei que não posso dar o que eles precisam, me desespero. Esse é o meu sonho: construir uma casa e dar tudo para as crianças. Se eu recebesse pelo menos 100 reais por mês seria maravilhoso”, afirma.
Orações procuram amenizar sofrimento
Em suas orações no início da noite, momento em que reúne toda a família, Regiane agradece a Deus pelos filhos que tem, o alimento do dia e o pouco que a vida lhe deu. Pede saúde para as crianças, para ela, sua mãe e o marido. Aproveita para pedir à Providência Divina que não falte forças ao companheiro.
“Nessas horas em que a gente conversa com Deus eu peço pra Ele não deixar faltar a coragem e a força no meu marido. Sem ele do nosso lado vai ser bem mais difícil”, conta Regiane. O pequeno André diz que não sabe pedir nada a Jesus, mas gostaria de que Deus escutasse as súplicas que sua mãe faz.
Para as famílias Regiane deixa uma mensagem para esta Páscoa: “Gostaria de que as pessoas fossem menos violentas, a violência está demais. Os homens têm que entender que eles precisam se amar mais”.