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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 16 de abril de 2003

Um convite ao bom senso

Concita Maia *

Debruçar-me, reflexivamente, sobre o processo de construção dos movimentos de mulheres no Acre e na Amazônia, buscando insumos teóricos que me permitam uma melhor compreensão da história e da prática das mulheres Amazônidas, enquanto sujeitos e agentes de transformação social, tem sido nesses últimos tempos, dentre outras atividades, a que mais tem me acrescentado enquanto cidadã comprometida com os movimentos sociais amazônicos.

Nascida em uma família acreana de matriarcado, sou feminista de berço (ou quem sabe de útero!), pedagoga por opção, ambientalista pelo amor e respeito à vida, pesquisadora pela necessidade de explicações, ativista pelo desejo de mudanças.

Assim sendo, não poderia, à luz dos princípios acumulados nesses 51 anos de bem com a vida, dos quais 20 de militância nos movimentos de mulheres na Amazônia, isentar-me de contribuir com um processo, que a meu ver, se faz necessário e urgente, de reflexão sobre as conquistas e os novos rumos das mulheres acreanas e daquelas que por opção, escolheram o Acre como morada.

Muitas tristezas ao recordar a nossa história, ainda viva, de massacres das nossas avós e mães índias, quando não, transformadas em escravas para servir aos patrões e seringueiros no processo de ocupação do Acre. Era o início da corrida pela borracha na Amazônia, da instalação da empresa seringalista que marca a nossa história de vida até os dias de hoje. Marcas que nem sempre despertam lembranças das mais agradáveis. Muitas das nossas parentes índias, não muito distantes (não esquecendo que nossos irmãos índios também foram vítimas de violência semelhante) eram marcadas com as iniciais dos patrões que comandavam as “correrias”, os famosos massacres através dos quais os ditos “civilizados” exterminaram parcela significativa do nosso povo. Só para não esquecer: FC – Felizardo Cerqueira – é uma das marcas deixadas no braço, no rosto e na alma de muitas mães índias, das quais algumas poucas sobreviveram a esse “holocausto amazônico”.

Cem anos se passaram...

Nessa caminhada, entrecortada como os rios acreanos recortam nossa floresta, por muitas lutas e resgate de dignidade e cidadania, tivemos alguns avanços significativos de civilidade, ao nos reencontrarmos com a nossa identidade feminina amazônica, em especial com a nossa alma acreana.

Pegando o fio da história mais recente, voltamos para floresta, onde reaprendemos, com os povos que nela habitam, o convívio harmonioso entre os seres humanos, o respeito verdadeiro à natureza e às diversas formas de viver, pensar e sentir.

A União dos Povos da Floresta, na década de 80, é emblemático dessas conquistas, desse sentimento de pluralidade, de união, de fraternidade, cooperação e solidariedade.

Já na década de 90, temos a conquista histórica, dentre outras, do I Encontro das Mulheres da Floresta. Momento este que demarcou, no Acre e demais estados da Amazônia, um novo cenário da participação política das mulheres.

Iluminadas pela Pedagogia da Terra, firmadas nos princípios feministas e com um sentimento de pluralidade, territorialidade e pertencimento, iniciamos uma nova tessitura das relações sociais que começava a ser construída a duras penas... apesar dos muitos avanços!

Hoje, nós, mulheres do movimento social, enraizadas por uma consciência planetária, exercitamos os princípios éticos que permitem uma convivência harmoniosa, com toda sua pluralidade. E essa harmonia pressupõe, além do cuidado, da cooperação e da compaixão, a cultura da participação.

Uma participação que exige, para o seu desenvolvimento, que não haja condicionantes ou imperativos externos ao movimento de mulheres. Uma participação onde a liberdade é a sua categoria central. Não objetivando somente obter bens e serviços específicos e imediatos, ainda que extremamente necessários para nós mulheres, mas também e essencialmente, o nosso crescimento enquanto indivíduos. Que estimule o desabrochar do nosso potencial humano, de nossa individualidade, aspirações e desejos.

Acredito ainda, que a participação que buscamos e necessitamos, se dá na esfera das ações coletivas fundamentadas nos princípios básicos da tolerância, do respeito à pessoa do outro, da existência de certas regras de civilidade e o uso do método da discussão e da persuassão como forma de estruturar as ações... Ou seja, o coletivo deve ser o cenário, o espaço de construção das vontades, através do pluralismo das idéias, de seus confrontos, e da formulação de linhas comuns que possibilitem a canalização das vontades individuais em vontades coletivas. Ainda que, enquanto cidadãs, tenhamos objetivos comuns e reivindicações iguais, a prática política estatal e/ou do movimento social, deve contemplar a diversidade e a diferença, de fato! Isto significa respeitar a individualidade dos componentes dos movimentos sociais e não tentar impor uma única diretriz ou um único objetivo final nas ações dos movimentos de mulheres. O desenvolvimento da nossa cultura política, fundada na participação, exige a construção de canais onde haja liberdade de expressão e pluralismo.

Infelizmente, não encontramos esses mesmos princípios filosóficos junto a determinadas assessorias ou algumas instâncias articuladoras que querem e devem ser legitimadas pelos movimentos populares de mulheres.

Quero ainda externar que nossa compreensão feminista de poder não é aquela que inclui e exclui, dependendo de seus próprios interesses e/ou egos. Não passa também pela construção e/ou fortalecimento de estruturas, mesmo que ilusoriamente sejam para o crescimento do movimento social, que delimitam e/ou impedem o acesso direto das mulheres nas estruturas decisórias, enquanto movimento social autônomo.

O poder que acreditamos não é o modelo masculino, muitas vezes reproduzidos por algumas mulheres, diante do qual nos vimos hoje diante de uma guerra.

O poder que acreditamos, abaixo daquele que é soberano e eterno, é aquele da querência pela humanidade. O poder diluído e partilhado com seus e suas demandatárias. É aquele, através do qual olhamos nos olhos sem hierarquias. O poder do abraço, do afeto e do afago.

Lembrando o que Simone de Bouvoir nos ensinou e que escrevemos em nossas cartilhas e canções: “não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Está na hora de fazermos a diferença, o contraponto, a eficiência, a paz!

Ou então esqueçamos de vez a utopia do nosso projeto político de feminizarmos as relações e o mundo.

* Coordenadora do Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia - MAMA

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